Impacto da IA no mercado de trabalho divide especialistas no SXSW

Enquanto alguns exaltam a inteligência artificial em painéis do festival de Austin, nos EUA, outros adotam tom de cautela

Centro de exposições que abriga o SXSW (South by Southwest) em Austin, um dos maiores eventos de inovação do mundo (Foto: Bloomberg Línea)
Por Jo Constantz
16 de Março, 2024 | 02:50 PM

Bloomberg — Nas exibições do novo filme de Ryan Gosling, O Dublê, e de Imaculada, estrelado por Sydney Sweeney – eventos principais da primeira semana do festival South by Southwest (SXSW) deste ano –, uma sequência de palestrantes exaltando os méritos da inteligência artificial, incluindo Peter Deng, chefe do ChatGPT na OpenAI, foram vaiados pelo público.

Em outros salões da conferência anual em Austin, nos EUA, que atrai mais de 300.000 pessoas a cada ano, o tom era de otimismo exaltado. As empresas estavam construindo uma narrativa positiva – defendendo a ideia de que a IA não destruiria empregos, mas representava uma oportunidade única para modernizar uma infinidade de indústrias.

A diretora de Recursos Humanos da International Business Machines, Nickle LaMoreaux, disse em um painel do SXSW que a IA, em vez disso, aliviará a escassez de mão de obra que está prestes a piorar à medida que as taxas de natalidade diminuem nas economias desenvolvidas. E, embora apenas uma pequena porcentagem de empregos possa ser completamente automatizada, a grande maioria não desaparecerá – mas mudará drasticamente.

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“É nossa responsabilidade esclarecer isso”, disse LaMoreaux. “A coisa com a qual precisamos estar realmente preocupados é com a mudança de emprego - e como vamos nos preparar para isso.”

A disputa sobre a IA no SXSW, uma conferência conhecida como um local para avaliar novas ideias, foi uma amostra do debate sobre se a IA é uma força para o bem ou para o mal – principalmente para os trabalhadores.

Enquanto 42% dos trabalhadores de escritório dizem estar animados para que a IA assuma algumas de suas tarefas no trabalho, cerca de 27% acham a perspectiva preocupante, de acordo com uma pesquisa global de janeiro do Slack com mais de 10.000 funcionários.

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A IBM ganhou os holofotes em maio passado quando o CEO Arvind Krishna disse à Bloomberg News que a empresa espera pausar as contratações para funções de back office que ela acredita que podem ser substituídas por IA nos próximos anos.

“Qualquer um de vocês que apoie CEOs sabe que às vezes a pior coisa que eles podem fazer é falar com a mídia - isso torna seu trabalho um pouco mais difícil”, disse LaMoreaux, acrescentando que os comentários de Krishna foram tirados “um pouco do contexto”.

Preocupações com a IA

Ainda assim, relatórios recentes têm alimentado temores sobre a substituição de empregos por IA. Na terça-feira, a IBM teria informado aos funcionários que estava reduzindo o pessoal em seu departamento de marketing e comunicações, provocando mais manchetes sobre demissões relacionadas à IA.

A empresa de tecnologia financeira Klarna disse no mês passado que sua nova ferramenta de chatbot de IA já está fazendo o trabalho de 700 agentes de atendimento ao cliente em tempo integral, colocando a empresa no caminho para melhorar os lucros em US$ 40 milhões este ano.

Respondendo a uma pergunta sobre o anúncio da Klarna, Jim Link, diretor de recursos humanos da Society for Human Resource Management, disse que as pesquisas são divergentes sobre qual impacto a IA terá nos empregos.

“Há outras pesquisas por aí que mostram que a IA realmente vai gerar mais empregos do que eliminará”, disse ele. Mas quase um ano e meio no atual ciclo de hype da IA, ainda não está claro quais serão esses novos empregos de IA, além do tão citado “engenheiro de prompt” e do novo integrante C-level, “chefe de IA”.

No fim das contas, disse Link, chegou o momento de as empresas e os trabalhadores investirem em treinamento de IA, um sentimento ecoado por outros executivos na conferência.

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“As pessoas que são experientes em IA e têm habilidades em IA podem substituir aqueles que não as têm”, disse. “Não há absolutamente nenhuma dúvida sobre isso.”

Centro de exposições que abriga o SXSW (South by Southwest) em Austin, um dos maiores eventos de inovação do mundo (Foto: Bloomberg Línea)dfd

Em outro painel, Donald Knight, diretor de recursos humanos da empresa de software de recrutamento Greenhouse, ignorou preocupações sobre empregos de nível básico automatizados pela IA.

Em vez disso, armados com novas tecnologias, ele argumentou que os trabalhadores mais jovens serão capazes de fazer trabalhos mais gratificantes e contribuições mais significativas de forma mais rápida, em vez de suportar o trabalho braçal que tradicionalmente foi um rito de passagem.

“Esses tipos de ferramentas com as quais eles estão crescendo vão permitir que implantem criatividade em suas empresas como vocês nunca viram antes”, disse Knight. “Isso vai ser fenomenal.”

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Em outras salas, o tom era mais cauteloso. O uso de IA pelos principais estúdios de TV e cinema foi um ponto de contenda nas negociações de contratos com roteiristas e atores de Hollywood, prolongando a greve do SAG-AFTRA.

Embora o acordo final incluísse algumas proteções contra automação, muitas estrelas da indústria se preocupam que as disposições não tenham ido longe o suficiente.

“Se você está ansioso sobre a IA, enquanto todos estão dizendo, ‘Corra atrás! Se adiante!’, é porque você sabe lá no fundo, ‘somos os próximos’”, disse Daniel Kwan, co-diretor de Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo, em um discurso. “Mesmo que os empregos não sejam perdidos, o valor do emprego vai diminuir.”

Isso não quer dizer que não devemos usar a IA, disse Kwan: “A IA está aqui. Ela será rapidamente implantada em todos os aspectos de nossas vidas.”

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