‘Hoje para a empresa é melhor deixar o dinheiro no CDI’, diz CEO do GetNinjas

Eduardo L’Hotellier diz à Bloomberg Línea que startup prefere cortar despesa de marketing e reduzir o crescimento diante do momento de turbulências

Eduardo L'Hotellier, fundador, CEO e principal acionista da GetNinjas: momento de cautela e de preservar o caixa
20 de Janeiro, 2023 | 04:45 AM

Bloomberg Línea — Uma das startups que abriram o capital na bolsa brasileira na onda de IPOs entre 2020 e 2021, o GetNinjas (NINJ3) deixou de lado neste momento a busca pelo crescimento acelerado e reduziu os investimentos em marketing para preservar o caixa, aplicado no CDI. A razão: enfrentar o cenário incerto no mercado de capitais e na economia brasileira em um momento de taxa de juros de dois dígitos.

Em entrevista à Bloomberg Línea, o CEO do GetNinjas, Eduardo L’Hotellier, disse que prefere manter a postura conservadora para poder retomar o crescimento no ano que vem, em 2024, quando espera que a empresa atinja o break even, isto é, o equilíbrio entre o faturamento e as despesas.

“Tomamos uma decisão dura diante de um cenário em que o mercado deixou de ser mais amigável para se tornar mais turbulento”, afirmou L’Hotellier (leia a entrevista completa abaixo).

“Temos mais dinheiro em caixa do que em dívida. Esse dinheiro está rodando CDI [taxa de juros que acompanha de perto a Selic], um investimento conservador.”

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O caixa da companhia estava em R$ 278,6 milhões ao fim do terceiro trimestre.

Em um negócio que depende do investimento em marketing para a aquisição de clientes e fornecedores de serviços em sua plataforma digital, o GetNinjas foi duramente afetada pelo aumento do custo de capital e pelo movimento de fuga dos papeis de empresas de tecnologia no Brasil e no mundo.

Desde que abriu capital em maio de 2021, quando precificou sua oferta inicial a R$ 20, o papel da empresa registra uma desvalorização de cerca de 85%, negociado agora na casa de R$ 2,80.

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Apesar do cenário difícil para 2023, com projeção de desaceleração da economia brasileira e de continuidade de juros ainda próximos do atual patamar de 13,75% ao ano, L’Hotellier disse que “a oportunidade de criar um player dominante em serviços no Brasil ainda continua intacta. O brasileiro tem a cultura de contratar profissionais como pintores, diaristas, churrasqueiros”.

O executivo lembrou que o GetNinjas tem 11 anos desde a fundação e já atravessou outros ciclos adversos da economia, mas, por outro lado, não descartou movimentos semelhantes ao tomado recentemente pelo Méliuz (CASH3).

A plataforma de cashback e serviços financeiros que abriu o caminho para a onda de IPOs de startups na B3, anunciou no fim de 2022 um acordo de venda de parte do capital para o BV, com opção de compra para que o banco tenha o controle da empresa em até 24 meses.

“Não tem como dar disclosure agora. Estudamos diferentes cenários, a vantagem de ser de uma companhia de capital aberto ou fechado. Não posso adentrar nesse assunto”, disse L’Hotellier.

L’Hotellier, que vendeu uma pequena parte de suas ações no GetNinjas no âmbito da oferta pública inicial, ainda é o maior acionista da empresa, com 14,59% dos papéis em circulação. Ele também não descartou outros cenários como a entrada de novos sócios ou um M&A (fusão e aquisição).

No seu último resultado, em novembro de 2022, o GetNinjas reportou uma receita líquida de R$ 14,3 milhões para o terceiro trimestre, uma queda de 13% ano contra ano, que ficou abaixo da estimativa média dos analistas consultados pela Bloomberg, de R$ 15,4 milhões.

A empresa teve um prejuízo líquido R$ 2,70 milhões, queda de 76% ano contra ano, enquanto analistas estimavam prejuízo de R$ 1,38 milhão. O Ebitda seguiu negativo em R$ 11 milhões, queda de 24% em relação ao mesmo período no ano anterior.

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Leia entrevista com o CEO do GetNinjas, editada para fins de clareza:

Bloomberg Línea: A ação do GetNinjas caiu para a casa de R$ 2,80. O investidor que acreditou na empresa e comprou no IPO, a R$ 20, tem qual perspectiva de retomada desse valor?

Eduardo L’Hotellier: A oportunidade de criar um player dominante em serviços no Brasil ainda continua intacta. É o país com a maior população de diaristas. O brasileiro tem a cultura de contratar profissionais como pintores, diaristas, churrasqueiros.

Os preços dos ativos de high growth e de smalls caps são influenciados por taxa de juros. Dito isso, caímos em linha com outras empresas de tecnologia que fizeram IPO na nossa época. Temos potencial de recuperar o preço em algum momento. Vai depender do nosso trabalho e do mercado.

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O GetNinjas reduziu o prejuízo no terceiro trimestre, mas a receita veio abaixo do esperado, e o Ebitda, negativo. A que você atribui esse resultado e quando o GetNinjas espera atingir o break even?

A alta da inflação no ano passado fez com que muitas famílias postergassem reformas em obras em suas residências. E reformas é uma das nossas principais categorias.

Houve ainda uma virada na pandemia. Muitas pessoas estavam investindo em suas casas, comprando eletrodomésticos, instalando TV. Agora, com o dinheiro, elas querem viajar. Houve um deslocamento do consumo para atividades com menos profissionais envolvidos.

O mercado de serviços encolheu. O Google mostrou que a busca por serviços diminuiu, como por reformas e reparos (-20%). Houve esses dois fatores: a mudança de consumo voltado para viagem e a inflação, que diminuiu o tamanho do mercado. Com isso, tivemos um impacto na receita. Internamente, a companhia investiu menos em marketing do que no trimestre anterior.

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Por que a companhia reduziu investimentos em marketing?

Havia um plano de investimento que tivemos que revisar. Não sabemos como iria estar o país neste ano e nos próximos anos. Como empresários, queremos construir uma empresa perene, por isso preferimos diminuir um pouco o investimento em mídia para salvar um pouco de capital para o futuro, que ainda é um pouco mais incerto.

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O mercado de publicidade online estava muito aquecido. O CPM (custo de mídia) estava muito caro. Entendemos que esse movimento era temporário. Preferimos ter mais dinheiro em caixa agora. Quando se olha a queima de caixa, temos o caixa intacto. Temos mais dinheiro em caixa do que em dívida. Esse dinheiro está rodando CDI, um investimento conservador.

Quais os planos para retomar o crescimento?

De fato, tivemos um ano em que poderíamos ter a opção de crescer pouco ou ficar andando de lado e queimar mais capital. Ou queimar menos capital e não crescer, o que aconteceu no ano passado.

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O plano é retomar o crescimento com uma operação mais eficiente, com investimentos em marketing. Não captamos dinheiro para deixar o dinheiro parado em CDI. Não nos orgulhamos disso.

Tomamos uma decisão dura diante de um cenário em que o mercado deixou de ser mais amigável para se tornar mais turbulento. Alguns analistas vão achar que deveríamos ter investido mais ou pouco menos.

Existem opiniões diferentes: outras companhias de tecnologia continuaram com o pé no acelerador, outras tiraram. Achamos que tomamos a melhor decisão, mas não é definitiva. Esperamos retomar o crescimento em 2024. Esperamos o break even no ano que vem.

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A companhia estuda fazer alguma operação de captação no mercado neste ano?

Não há necessidade. Temos dinheiro suficiente em caixa. Não estudamos fazer nenhuma oferta. Não precisamos de capital externo.

Você vê espaço para o GetNinjas voltar a ser uma companhia de capital fechado depois do movimento feito pelo Méliuz com o BV? A companhia está aberta a essa movimentação?

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Não tem como dar disclosure agora. Estudamos diferentes cenários e a vantagem de ser de uma companhia de capital aberto ou fechado. Não posso adentrar nesse assunto.

A concorrência aumentou no negócio de plataformas de serviços domésticos, com empresas como a Parafuzo. Com dinheiro em caixa, o GetNinjas pode fazer alguma investida de M&A?

Já tivemos conversas com a Parafuzo e outras empresas, mas não faria sentido em termos de preço e estrutura. Não há nada iminente. Se o GetNinjas adquirisse alguma dessas empresas, seria mais pelo time empreendedor do que pela empresa em si. Temos a melhor tecnologia e marca nesse mercado.

Somos maiores que a Parafuzo em São Paulo. Diaristas representam cerca de 8% da nossa plataforma. Desde o nosso IPO, vimos um aumento do interesse dos investidores pelo setor de serviços. Isso nos preocupou um pouco, porque aumentaria a concorrência. Mas o nosso time de tecnologia é superior.

O GetNinjas tem sofrido com os juros altos. Qual a estratégia para se manter capitalizado? Há algum produto novo ou modificação da plataforma nos planos?

Temos mais de 40 desenvolvedores, designers. Temos esse custo fixo. E ganhamos dinheiro com cada transação que fechamos.

Há muitas empresas da gig economy, de food delivery, que financiam seus usuários com cupons, em busca de market share. Não seguimos essa estratégia. Buscamos escala, mas mantemos nosso lucro unitário positivo.

Queremos mais recorrência dos nossos usuários. Empilhando usuários, andando poucas posições, esse ganho variável vai se somando e um dia a conta fecha.

O novo governo sinalizou que pode revisar alguns pontos da reforma trabalhista. Isso pode impactar o GetNinjas?

Há uma diferença de plataformas como Rappi e Uber para o GetNinjas. Nossa plataforma aproxima profissionais e potenciais clientes. Não se configura uma relação trabalhista. As partes vão negociar entre si o valor do trabalho e como ele será feito.

Não há subordinação desse profissional contratado com nossa empresa. Por isso, não há nenhuma preocupação com mudanças trabalhistas impactando nosso modelo de negócios.

No caso de uma redução da informalidade no mercado de trabalho, com mais abertura de vagas formais, não há o risco de redução de mão-de-obra para a plataforma?

Não iremos ver escassez de mão-de-obra. Se a economia não andar tão bem, haverá mais trabalhadores informais. Temos visto demissões no mercado. Não acredito que o governo fará algo para impactar negativamente os profissionais e as relações de trabalho.

Aonde o GetNinjas quer chegar em um horizonte de dois a três anos?

Temos 400 mil clientes solicitando orçamentos em nossa plataforma por mês. Em serviços contratados, isso dá 150 mil clientes. Esse número parece interessante, mas o mercado de serviços no Brasil é estimado entre R$ 700 bilhões e R$ 1 trilhão.

Temos 0,1% desse mercado. Estamos no começo de nossa jornada. Muitas pessoas já ouviram falar de GetNinjas, mas poucos usaram. Mesmo que a empresa consiga multiplicar por dez nosso resultado, ainda seremos uma empresa pequena.

Como está a demanda neste começo de 2023?

O terceiro trimestre de 2022 foi o mais duro, houve uma brecada da economia. Mas já observamos no quarto trimestre uma retomada das contratações, os salários já estão acompanhando a inflação depois dos dissídios coletivos. Reformas representam 40% de nossa plataforma. Há uma sazonalidade em nosso negócio: neste início de ano, há muita procura para instalação de ar-condicionado, bomba etc.

Com o frio que está fazendo no Sudeste [nas duas primeiras semanas do ano], há uma menor procura, mas é compensada por outros serviços. As pessoas recebem o 13º salário, voltam das férias e buscam fazer reformas em suas casas. Temos uma plataforma diversificada.

Churrasqueiro, por exemplo, representa 2% da plataforma. Instalação de ar-condicionado, 3%. Se o tempo prejudica a instalação do ar-condicionado, a categoria de instalação de TV compensa.

A busca por professores de idiomas e personal trainers também vai bem nesta época. Já por professor de matemática, bombou em novembro, antes das provas.

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Sérgio Ripardo

Jornalista brasileiro com mais de 25 anos de experiência, com passagem por sites de alcance nacional como Folha e R7, cobrindo indicadores econômicos, mercado financeiro e companhias abertas.

Isabela  Fleischmann

Jornalista brasileira especializada na cobertura de tecnologia, inovação e startups