Príncipe de Gales é o sucessor do trono britânico
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Bloomberg Opinion — Na comédia profética de George Bernard Shaw, The Apple Cart, um Rei Magnus fictício luta contra uma tentativa do primeiro-ministro Proteus de privá-lo do direito de influenciar a opinião pública através da imprensa. Ele queria reduzir o soberano a um zero à esquerda. O rei ameaça abdicar e candidatar-se às eleições sabendo que a monarquia britânica é mais popular do que qualquer político.

No mundo real, a família real deve “nunca reclamar, nunca explicar”. A Rainha Elizabeth é famosa por sua discrição e por seus pronunciamentos monótonos. No entanto, seu herdeiro, o Príncipe Charles, tem seguido o manual do Rei Magnus. Ele disse a seus “amigos” que a política controversa do governo de deportar requerentes de asilo e migrantes contrabandeados ilegalmente para a Grã-Bretanha para Ruanda é “terrível”, de acordo com um artigo do jornal The Times of London.

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O número de migrantes que cruzaram o Canal da Mancha vindos da França em minúsculos e insalubres navios desde 2018, superou a marca dos 50 mil – este ano foram mais de 10 mil, de acordo com dados do governo. O esquema para levá-los para Ruanda visa ser um dissuasor para os outros refugiados e garantir aos eleitores de que a pretensão dos conservadores de proteger as fronteiras da Grã-Bretanha pode ser colocada em prática.

A liderança sênior da Igreja da Inglaterra já denunciou o plano como uma “política imoral que envergonha a Grã-Bretanha”, mas os bispos tradicionalmente eludem seus pontos de vista políticos liberais com a Bíblia contra os conservadores. A monarquia normalmente não toma os mesmos caminhos.

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O gabinete de Charles na Clarence House não negou suas observações, mas um porta-voz insiste que “ele continua sendo politicamente neutro”. Constitucionalmente, é o que acontece, mas na prática, não.

O Príncipe de Gales é conhecido por se irritar com suas restrições. É natural que um homem de 73 anos que está esperando pelo melhor emprego do país há décadas se sinta assim. Mas o silêncio sobre-humano de sua mãe sobre as questões também é o que a torna querida pelo povo e impede que cismas se aprofundem ao redor da família real por todas as suas fraquezas e problemas.

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Pode ser que Charles III não demore a tomar o lugar da Rainha Elizabeth II, hoje com 96 anos. Portanto, o destino desagradável que o espera é que ele aprenda a também ser monótono.

O príncipe pode até pensar que o primeiro-ministro Boris Johnson – o astuto Proteus dos dias atuais – está em desvantagem após os escândalos do Partygate e a subsequente demissão de seu segundo conselheiro de ética, Christopher Geidt, esta semana. Ironicamente, Geidt foi expulso por Charles e seu irmão, o Príncipe Andrew, de seu cargo anterior como principal conselheiro da Rainha quando ele tentou restringir suas liberdades de forma muito tenaz.

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Ainda assim, o conselho de Geidt é válido. O herdeiro do trono seria sábio em não antagonizar desnecessariamente seu primeiro-ministro – Johnson vem ressentindo a maior parte de seus críticos durante sua turbulenta carreira e guarda rancores.

Além disso, Johnson tem amigos. Os tabloides torcem pela política de envio de refugiados a Ruanda e também consideram excêntrico o entusiasmo de Charles por modismos como homeopatia e alimentos orgânicos. Nesta crise de custo de vida, mais de um comentarista observou que os alimentos orgânicos são bons, desde que se tenha uma renda principesca.

Todos pensavam que Charles havia aprendido a lição há 10 anos, quando foi revelado que ele tinha o hábito de enviar cartas do tipo “aranha negra” – apelidadas pelas características idiossincráticas de sua caligrafia – oferecendo conselhos aos ministros sobre assuntos desde o ambientalismo até regras de planejamento. Um pedido de liberdade de informação feito pelo The Guardian forçou a publicação dessas cartas. O jornal ridicularizava que “as cartas mostram os bastidores, na maioria das vezes, onde o príncipe Charles se comporta como um pouco tedioso em nome de suas causas do que como qualquer tipo de aspirante a tirano feudal”. No entanto, as cartas podem ser vistas como prenúncios de comportamento real problemático.

Observemos o momento da última intervenção aparente do Príncipe: o Tribunal Europeu de Direitos Humanos interrompeu o primeiro voo oficial do governo para Ruanda na pista na semana passada, a fim de deliberar sobre a legalidade da política. Os deputados conservadores e seus amigos da imprensa estão furiosos. Não é coincidência que Charles irá na próxima semana para Ruanda, que receberá os chefes de governo da Commonwealth. O Alto Comissariado das Nações Unidas elogiou o histórico de Ruanda em aceitar refugiados de outros países africanos devastados pela guerra. Paul Kagame, o presidente, que trouxe a paz para o país após os ataques genocidas contra os Tutsis nos anos 90, há muito é o garoto propaganda da ajuda britânica. Contudo, os críticos dizem que seu recente histórico de direitos humanos também tem sido “horrível”.

A política do governo divide a opinião política com linhas bem definidas. A maioria dos eleitores conservadores e apoiadores do Brexit são a favor do esquema de US$ 146 milhões, ao passo que os eleitores da oposição e os restantes geralmente se opõem a ele. A última pesquisa de opinião realizada para o Instituto Tony Blair mostra que mais da metade suspeita – com razão – que o esquema não vai funcionar. Israel e Dinamarca vêm tentando manter longe os que buscam asilo, sem sucesso, embora a União Europeia pague à Líbia para deter migrantes e requerentes de asilo em campos de detenção miseráveis.

A política de refugiados e imigração continua sendo um problema para os eleitores, e a política de imigração foi uma grande influência na votação do Brexit. Então Charles deveria ficar de fora.

A Grã-Bretanha acaba de sair das divisões criadas pela campanha tóxica do referendo da UE. Há duas semanas, o país comemorou os 70 anos de reinado da Rainha em uma demonstração de unidade que impressionou muitos observadores estrangeiros atormentados por políticas partidárias próprias.

O conselho de Geidt está sendo ignorado por seus antigos mestres. Na semana passada, o príncipe Andrew, agora desonrado por sua antiga associação com os traficantes sexuais condenados Jeffrey Epstein e Ghislaine Maxwell, tentou voltar para os holofotes. Foi apenas a ameaça da ausência do Príncipe William, filho mais velho de Charles, que fez com que seu tio fosse retirado de evento com a presença da família real.

Gostando ou não, o Príncipe de Gales deve agir como o guardião de seu irmão. No fim de The Apple Cart, o primeiro-ministro recua – mas a disputa final entre o rei e a classe política é deixada sem solução. O Príncipe de Gales, em busca de uma sucessão que o tranquilize e revigore, terá de aperfeiçoar o ato mais difícil de todos para um interveniente natural: cuidar dos negócios da “Firma”, mas não de todos os outros assuntos.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

Martin Ivens é o editor do Times Literary Supplement. Foi editor do Sunday Times de Londres e seu principal comentarista político.

--Este texto foi traduzido por Bianca Carlos, localization specialist da Bloomberg Línea.

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