Um horizonte de tempo desse porte pode ajudar na atração de profissionais para a área
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Bloomberg Opinion — Se você quiser visitar Urano, precisa começar a planejar com antecedência. Projetar e construir uma nave para cruzar mais de um bilhão de quilômetros pode demorar uma década, e a viagem para o terceiro maior planeta do sistema solar pode levar mais 15 anos.

Destemidas, as Academias Nacionais de Ciências, Engenharia e Medicina recomendaram no mês passado que os Estados Unidos lançassem uma missão a Urano pela primeira vez desde 1986.

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Chegar aos confins do sistema solar provavelmente custará mais de US$ 4 bilhões. Mas o retorno desse investimento irá muito além das descobertas inovadoras almejadas por cientistas e aficionados do espaço sideral. Também desempenhará um papel importante na atração e no treinamento da próxima geração de cientistas e engenheiros espaciais, garantindo a liderança contínua dos EUA em uma área já dominada pelo país por décadas.

Durante os primeiros anos da corrida espacial, as tripulações humanas receberam a maior parte da atenção. Mas os EUA também estavam se estabelecendo como um líder formidável na exploração do sistema solar com espaçonaves robóticas. Essas missões ajudaram a desenvolver e manter uma força de trabalho proficiente em uma série de habilidades, desde fotografia com pouca luz até sistemas de energia adequados para missões espaciais longas.

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Em meados da década de 1960, a confiança da Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço (Nasa) em suas habilidades levou ao planejamento de uma grande viagem pelos planetas externos do sistema solar. Os lançamentos ocorreriam no final da década de 1970, com sobrevoos ocorrendo no final da década de 1980.

Para a Nasa e seus laboratórios de pesquisa, a longa espera era esperada, não um problema. Já em 1967, o Jet Propulsion Laboratory, centro de pesquisa e desenvolvimento financiado pelo governo federal que construiu e gerenciou muitos dos exploradores interplanetários da Nasa, usou a viagem como meio de recrutamento. Para os cientistas e engenheiros em início de carreira em busca de um emprego estável, um projeto inovador que duraria até a meia-idade era irresistível. Com o tempo, esses recrutas transformaram o conceito da viagem nas espaçonaves Voyager 1 e 2 lançadas em 1977 (que continuam indo para o espaço).

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Depois de passar por Júpiter e Saturno, a Voyager 2 fez a única visita da humanidade a Urano em 1986. O breve sobrevoo revelou 11 luas anteriormente desconhecidas (algumas das quais podem conter oceanos), dois anéis, um campo magnético bizarro diferente de qualquer outra coisa no sistema solar e temperaturas que mal variam entre os polos e o equador. Depois da Voyager, a Nasa enviou naves que orbitaram Júpiter e Saturno, aprofundando o conhecimento dos planetas gigantes gasosos. Mas os misteriosos gigantes do gelo – Urano e Netuno – não receberam mais visitas.

Isso vem mudando por um motivo inesperado. Nos últimos anos, os cientistas confirmaram mais de 5 mil planetas orbitando estrelas em outras partes da galáxia, a maioria deles diferente de qualquer coisa em nosso sistema solar.

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“Portanto, nossa falta de conhecimento sobre Urano e Netuno é agora um fator limitante em nossa compreensão da ciência planetária”, disse Heidi Hammel, vice-presidente de ciências da Associação de Universidades para Pesquisa em Astronomia, consórcio que administra observatórios astronômicos, incluindo o Telescópio Espacial Hubble, através de uma chamada pelo Zoom. No mês passado, essa falta de conhecimento levou a Academia Nacional de Ciências a recomendar que uma sonda e um orbitador de Urano fossem a principal prioridade da Nasa na próxima década.

Hammel não prevê nenhuma barreira técnica séria para uma missão bem-sucedida. Em vez disso, o maior desafio é convencer o Congresso de que uma missão que não atingirá sua meta até a década de 2040 é um investimento que vale a pena.

Hammel, que era membro da equipe de imagens da Voyager 2 quando esta visitou Netuno em 1989, acredita que sim. “A Voyager foi construída por pessoas que pensaram nisso quando eu estava no ensino fundamental”, disse ela. “E a espaçonave foi lançada quando eu estava no ensino médio.”

Da mesma forma, explicou Hammel, a próxima missão para Urano deve ser planejada para alguém que está na escola agora. “Daqui a vinte anos, ela será uma jovem pós-doutoranda e suas missões estarão a ponto de ser lançadas, e ela estará pronta para ir”, disse Hammel.

A Nasa estará interessada nessa jovem. Um relatório de 2020 do inspetor geral da Nasa constatou que 6 mil dos 11 mil funcionários de ciência e engenharia da agência têm mais de 50 anos, e quase metade deles são elegíveis para aposentadoria. Programas de longo prazo, como um orbitador de Urano, serão necessários para inspirar, recrutar e reter o talento necessário para manter a liderança dos EUA na exploração espacial.

Para Hammel e a atual geração de cientistas espaciais, esse jovem cientista simboliza muito mais do que uma vantagem dos EUA na navegação pelo sistema solar ou na corrida pelas sondas espaciais.

“Acho que há algo na psique americana que diz que podemos fazer coisas para o futuro”, disse Hammel. “Isso é o que uma grande nação faz. É para isso que trabalho.”

Uma viagem de volta a Urano é uma boa maneira de provar que ela está certa. A Nasa e o Congresso devem iniciar a contagem regressiva.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

Adam Minter é colunista da Bloomberg Opinion que escreve sobre a Ásia, tecnologia e meio ambiente. Ele é o autor de “Secondhand: Travels in the New Global Garage Sale”.

--Este texto foi traduzido por Bianca Carlos, localization specialist da Bloomberg Línea.

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