Ações de tecnologia estão em baixa – mas ainda estão caras

Embora o Nasdaq Composite tenha caído cerca de 30% desde que atingiu o pico em novembro, ainda não se tornou uma pechincha

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Bloomberg Opinion — Foram alguns meses difíceis para as ações dos Estados Unidos, mas ainda mais difíceis para as ações de empresas de tecnologia. O Nasdaq Composite Index (NDXL), amplamente seguido e focado em tecnologia, caiu cerca de 30% desde que atingiu o pico em novembro. Os investidores podem estar se perguntando se as ações de tecnologia agora viraram pechincha. A resposta é não: os preços estão mais baixos, mas ainda não estão baratos.

Uma maneira de medir o declínio das empresas de tecnologia é acompanhar o quanto os valuations se contraíram. O índice preço-lucro futuro do Nasdaq – ou seja, o índice P/L com base nas estimativas de ganhos dos analistas para o ano fiscal atual – caiu de 42 para 24 no final de 2020 – um corte de 43%. Embora essa seja uma grande movimentação, ela apenas alinha o Nasdaq com sua média histórica de P/L de 2001, período para o qual os dados estão disponíveis.

E as ações de tecnologia podem ficar muito mais baratas. Durante a maior parte dos 10 anos entre 2008 a 2017, o índice P/L da Nasdaq ficou abaixo dessa média e, muitas vezes, bem abaixo. Ele caiu para 13 durante a crise financeira de 2008 e ficou em torno de 14 ou 15 por boa parte de 2011 e 2012. Mesmo assim, um valor bem distante daquele negociado atualmente. Seria necessário cair mais 40% para atingir esses níveis, supondo que as estimativas de ganhos dos analistas para este ano sejam confiáveis. Se os lucros forem piores do que o esperado, o declínio teria que ser ainda mais acentuado para o Nasdaq revisitar suas mínimas históricas.

A análise é a mesma, mesmo considerando o fato de que as empresas de tecnologia recebem valuations mais altos. Embora o índice P/L futuro do Nasdaq sempre tenha ficado acima do índice S&P 500 (SPX), a extensão do prêmio variou e também caiu consideravelmente. A relação entre os índices de P/L do Nasdaq e do S&P 500 agora é de 1,4 – abaixo dos 1,6 no final de 2020. Mas isso também está alinhado com a média histórica e bem acima das mínimas. A proporção caiu para 1,1 em 2016.

Outra maneira de saber se as ações de tecnologia chegaram ao fundo do poço é se elas começam a aparecer nos índices de valor. Os provedores de índice definem o valor de forma diferente, mas um denominador comum é o valuation. A Meta Platforms (FB), controladora do Facebook, negociada a 14 vezes os lucros futuros, já é mais barata do que as ações de valor proeminente da Berkshire Hathaway (BRK/A), Johnson & Johnson (JNJ), UnitedHealth Group (UNH) e Procter & Gamble (PG), a mais barata, sendo negociada a 17 vezes ante mais de 20 pelas outras empresas. A Alphabet (GOOGL), controladora do Google, negociada a 18 vezes, é mais barata do que todas, exceto a Johnson & Johnson.

Mas muitas outras antigas gigantes ainda podem cair mais. Notavelmente, mesmo após um declínio de 44% em relação à máxima de 52 semanas, a Amazon (AMZN) ainda é negociada a 49 vezes os lucros futuros, e a Tesla (TSLA) é negociada a 61 vezes, apesar de um declínio de 41%.

Isso não significa que as ações de tecnologia cairão ainda mais, é claro, e os investidores que procuram descontos em tecnologia os encontrarão em grande quantidade. De fato, aqueles que gostavam de ações de tecnologia seis meses atrás deveriam amá-las agora. Mas os investidores que estão comprando ações de tecnologia acreditando que estavam em baixa deveriam dar outra olhada nos números.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

Nir Kaissar é colunista da Bloomberg Opinion e cobre mercados. Fundou a Unison Advisors, uma empresa de gestão de ativos.

--Este texto foi traduzido por Bianca Carlos, localization specialist da Bloomberg Línea.

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