Mercados

XP: Inflação é inimiga comum na América Latina e permanecerá elevada por mais tempo

Segundo relatório divulgado com exclusividade, choques nas cadeias e alta das commodities contribuem para pressão inflacionária

Piora dos indicadores apresentados até o momento tem levado a aumentos nas projeções para a inflação na América Latina.
28 de Abril, 2022 | 11:03 am
Tempo de leitura: 5 minutos

Bloomberg Línea — A guerra na Ucrânia e o aumento dos preços das commodities têm contribuído para surpresas negativas nos dados de inflação da América Latina no primeiro trimestre de 2022.

A piora dos indicadores apresentados até o momento tem levado a aumentos nas projeções para a inflação na região, com o mercado estimando um pico no segundo trimestre de 2022, seguido por uma lenta convergência para a meta. Ao menos essa é a avaliação da XP (XP).

Em relatório divulgado nesta quarta-feira (27) e obtido com exclusividade pela Bloomberg Línea, os economistas Caio Megale, Andres Pardo e Francisco Nobre chamam atenção para os choques nas cadeias de suprimentos globais provocados pela pandemia, bem como para o aumento nos preços das commodities, intensificado pela guerra da Rússia na Ucrânia.

Ainda que os bancos centrais na região tenham se mostrado agressivos na subida de juros, avalia a XP, em alguns casos, como no aumento dos preços de alimentos, cuja pressão inflacionária parte da oferta, há pouco que as autoridades monetárias possam fazer para ajudar a reduzir os preços, escrevem. Por isso, a expectativa é de uma inflação elevada por mais tempo.

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Confira as projeções e estimativas da XP para a inflação e taxa de juros no Brasil, na Colômbia, no México e no Chile:

Brasil: inflação acima da meta nos próximos 2 anos

No Brasil, a inflação vem surpreendendo consistentemente para cima desde a metade de 2021, alcançando, em março, alta de 11,3% em 12 meses. Na avaliação da XP, o índice de preços deve permanecer acima da meta nos próximos dois anos.

A casa espera que a inflação atinja o pico em abril, chegando a uma alta de 11,8% na comparação anual, encerrando 2022 em 7,4%. “Este número considera o impacto da guerra na Ucrânia e as interrupções contínuas da cadeia de suprimentos sobre a inflação. Sob o cenário volátil e incerto, os riscos são inclinados para o lado positivo”, escreve o time.

Em 2023, a expectativa é de que a inflação encerre o ano em 4,0% e volte para a meta de 3% até 2024. Neste contexto, a XP vê um Banco Central mais agressivo e estima aumentos da Selic até esta chegar ao fim do ciclo de alta, com taxa de 13,75% na metade de 2022.

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Na próxima semana, o Comitê de Política Monetária (Copom) se reúne para decidir o rumo da taxa básica de juros no país. A expectativa, segundo relatório Focus, do BC, mais recente, é de alta de 1 ponto percentual, levando a Selic a 12,75% ao ano.

Colômbia: o peso dos preços de alimentos

Na Colômbia, a inflação surpreendeu para cima principalmente nos primeiros dois meses de 2022, com alta de 6,94% em janeiro, em 12 meses, e 8,01% em fevereiro, ante projeções de 6,39% e de 7,62%, respectivamente.

No período, as maiores contribuições para o indicador vieram dos preços de alimentos que foram impactados pela alta das commodities, choque na cadeia de suprimentos e pouca oferta de alimentos dadas as fortes chuvas na região.

A XP espera que a inflação atinja um pico de cerca de 9% em 12 meses em abril e depois comece a diminuir, caindo para 7,3% ano a ano no final de 2022.

À luz das recentes pressões sobre os preços, esta previsão foi revisada significativamente para cima a partir da alta de 4,1% ano a ano esperada no final do ano passado. Já para 2023, os economistas esperam que a inflação caia para 4,1% ano a ano na Colômbia.

Com relação à política monetária, a expectativa da XP é de que o banco central colombiano continue elevando as taxas de juros na mesma magnitude nas próximas reuniões até atingir a taxa terminal de 8,0% no terceiro trimestre deste ano, permanecendo constante até o fim de 2022.

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“Devido a surpresas inflacionárias e um tom mais hawkish do BC, nossa projeção atual é substancialmente superior à taxa básica de juros de 5,25% que esperávamos no final do ano passado”, escrevem os economistas liderados por Caio Megale no relatório.

México: preço de energia arrefece

Apesar do aumento moderado da inflação no México no primeiro trimestre, a XP destaca no relatório que o índice de difusão ficou, em média, em 82,2 pontos, acima da média histórica (de cerca de 65 pontos), indicando que a pressão inflacionária continua generalizada, com poucos sinais de alívio.

Os economistas lembram que desde 2021 o governo aumentou o subsídio aos impostos sobre combustíveis (IEPS), como mecanismo para suavizar os aumentos de preços. Consequentemente, a inflação de energia diminuiu significativamente de seu pico de 28% ano a ano em abril de 2021 para 5,23% ano a ano em março de 2022.

Na avaliação da casa, a inflação já atingiu seu ápice no México e deverá ficar moderada, próxima dos níveis atuais, nos próximos meses. A XP projeta uma inflação de 7% ao fim de 2022, arrefecendo para 4,2% em dezembro de 2023.

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Do lado da política monetária, o time de Megale revisou a projeção de juros para cima algumas vezes este ano e agora espera que o Banxico leve as taxas de juros para 8,5% no final de 2022 e alcance a taxa terminal de 9% até o primeiro trimestre de 2023.

Chile: inflação de custo e demanda

Assim como nos demais países da América do Sul, a inflação no Chile foi impulsionada, principalmente, pelo aumento nos preços dos alimentos nos últimos dois meses do trimestre, que adicionaram 0,49 pp e 0,93 pp no índice de preços em fevereiro e março.

No relatório, a XP escreve que o aumento geral no núcleo no primeiro trimestre resultou da fraqueza da moeda, preços mais altos de importados, rupturas na oferta e indexação à inflação passada (principalmente em serviços de educação).

Ainda assim, as pressões também foram impulsionadas pela demanda no Chile, devido ao excesso de gastos das famílias por conta de injeções maciças de liquidez aos consumidores com auxílios fiscais e saques de pensões no ano passado.

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“Acreditamos que as pressões de preços do lado da oferta e da demanda ainda estão presentes no Chile, e que a inflação continuará subindo até meados do ano (com pico em torno de 10% a/a). Atualmente, esperamos que a inflação encerre o ano em 7,7% a/a, que revisamos significativamente desde o final do ano passado, quando estávamos projetando 3,7% a/a”, escreve a XP, em relatório divulgado hoje (27).

De acordo com os economistas, o BCCh deve atingir a taxa terminal em torno de 8,50%, com risco de alta de 9,50%. “Dadas as recentes surpresas na inflação, pode ser um desafio desacelerar consideravelmente o ritmo de aperto em relação à mais recente alta de 1,5 pp, enquanto continuamos vendo espaço limitado para cortes de juros até o final do ano.”

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Mariana d'Ávila

Mariana d'Ávila

Redatora na Bloomberg Línea. Jornalista brasileira formada pela Faculdade Cásper Líbero, especializada em investimentos e finanças pessoais e com passagem pela redação do InfoMoney.