Ucrânia: como será a corrida para a investida que pode decidir a guerra

Aliados da Otan enviam mais armas para o país no que pode o ponto de inflexão entre encerrar o conflito ou estendê-lo por semanas, meses ou anos

Algumas armas e equipamentos precisam de meses de treinamento para serem operados
Por Marc Champion, Natalia Drozdiak e John Follain
09 de Abril, 2022 | 09:59 AM

Bloomberg — À medida que a Rússia reorganiza sua invasão da Ucrânia no leste, Kiev e as capitais aliadas reconhecem que a brecha para evitar a divisão da nação e uma longa guerra de atrito pode ser pequena.

A recente retirada das tropas russas de Kiev representa uma derrota depois que os militares da Ucrânia impediram seu avanço combinando guerra urbana com ataques às linhas de suprimentos.

No entanto, recuar ou até mesmo conter um avanço esmagador de unidades russas reforçadas nas regiões orientais de Donetsk e Luhansk significaria levar o combate para campos de batalha abertos, exigindo mais do que apenas os mísseis leves antitanque e antiaéreos que os Estados Unidos e a Europa enviaram até o momento.

“Aviões, mísseis, veículos blindados, sistemas pesados de defesa aérea”, respondeu o ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Dmytro Kuleba, antes de se reunir com colegas da Organização do Tratado do Atlântico Norte em Bruxelas na quinta-feira (7), quando perguntado sobre o que ele estava pedindo.

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Em fala após a reunião, ele previu que a próxima batalha pelo leste seria uma reminiscência da Segunda Guerra Mundial, envolvendo operações em grande escala e milhares de tanques e peças de artilharia.

“Ou vocês nos ajudam agora – e estou falando de dias, não semanas – ou sua ajuda chegará tarde demais e muitas pessoas morrerão”, disse Kuleba. Ele não duvidou que a Ucrânia receberia as armas de que precisa, mas “a questão é o momento”.

Seis semanas depois que o presidente russo, Vladimir Putin, iniciou a invasão da vizinha Ucrânia, a guerra está entrando em uma nova fase que pode dar apenas algumas semanas para que a Ucrânia obtenha e use essas armas.

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Esse é o tempo que a Rússia provavelmente levará para reconstituir unidades para um grande ataque no leste, acrescentando as áreas da região de Donbas que permanecem em poder da Ucrânia a uma faixa de território já dominado. Com isso, as forças russas poderiam pressionar por uma guerra longa e desestabilizadora para forçar um eventual acordo, impondo um alto preço à Ucrânia, bem como altos custos para a economia da Europa e para a própria Rússia.

“Os aliados devem fazer mais e estão prontos para fazer mais para fornecer mais equipamentos; eles percebem e reconhecem a urgência”, disse o secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, após a reunião da quinta-feira. “Esta guerra pode durar semanas, meses e possivelmente anos.”

A questão de a guerra na Ucrânia ser encerrada rapidamente ou evoluir para um conflito de anos como na Síria (em andamento desde 2011) agora é vista como a principal, segundo uma autoridade ocidental familiarizada com as discussões entre aliados da Otan.

A exposição de supostos crimes de guerra russos contra civis em cidades recuperadas deu um novo impulso às sanções dos EUA, Reino Unido e União Europeia contra a Rússia. A UE concordou na quinta-feira em proibir as importações de carvão russo, e as discussões sobre potenciais embargos de petróleo e gás natural provavelmente serão as próximas.

As sanções não tiveram impacto discernível sobre os planos de invasão de Putin até o momento, então o foco em armas capazes de melhorar o equilíbrio na área que o ministro das Forças Armadas do Reino Unido, James Heappey, descreveu em comunicado na quinta-feira como “a próxima fase do conflito. "

Heappey havia acabado de receber um grupo de oficiais ucranianos, liderados pelo vice-ministro da Defesa Volodymyr Havrylov, para demonstrações de “diversos equipamentos e opções para mais apoio militar, incluindo sistemas de mísseis defensivos e veículos de mobilidade protegidos”, segundo o comunicado.

A Otan se recusou a enviar tropas para a Ucrânia ou fornecer aeronaves, alegando o risco de desencadear um conflito mais amplo com a Rússia. A organização também não fechará o espaço aéreo do país, conforme solicitado repetidamente pelo presidente Volodymyr Zelenskiy.

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A relutância inicial por parte dos aliados da Otan em enviar armas ofensivas maiores pelas mesmas razões está diminuindo, embora muito lentamente do ponto de vista da Ucrânia. Kuleba destacou a Alemanha, agradecendo a decisão de Berlim de fornecer armas, mas criticando seu ritmo lento. “Berlim pode ter tempo, mas Kiev não tem”, disse.

A Alemanha havia oferecido à Ucrânia 100 tanques Marder, mas o acordo agora parece duvidoso, pois eles estão expostos ao clima há tanto tempo que precisariam de meses de reparo, de acordo com uma autoridade alemã.

Em reunião dos ministros das Relações Exteriores do G7 na quinta-feira, o Reino Unido argumentou que era hora de dar à Ucrânia quaisquer equipamentos solicitados, ao passo que os EUA disseram que estavam prontos para ajudá-la a obter tanques e sistemas antiaéreos de maior alcance, segundo uma pessoa familiarizada com as discussões. De maneira mais ampla, o G7 concordou com a importância de substituir os equipamentos que os países enviam para a Ucrânia, disse a fonte.

Tanques e drones

O Reino Unido já afirmou que estava acrescentando seu sistema antiaéreo Starstreak às 3.615 armas antitanque leves – conhecidas como NLAWs – que enviou a Kiev. O The Times, de Londres, informou esta semana que o Reino Unido também estava decidindo entre dois modelos de veículos blindados de patrulha – o Mastiff e o Jackal.

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A Austrália disse que enviaria 20 de seus veículos blindados Bushmaster para a Ucrânia depois que Zelenskiy os solicitou especificamente Nesta sexta-feira (8), o país prometeu mais US$ 20 milhões em armas e munições antitanque.

A emissora pública da República Tcheca mostrou esta semana imagens de cinco tanques T-72 e cinco veículos blindados carregados em um trem, dizendo que era uma entrega para a Ucrânia pactuada com os aliados da Otan. A ministra da Defesa, Jana Černochová, confirmou em um tweet que os tchecos estavam fazendo entregas, mas disse que não os identificaria para não ajudar a Rússia.

Washington também está enviando drones armados Switchblade para a Ucrânia, bem como novos suprimentos de mísseis antitanque Javelin para uso no fronte oriental assim que o ataque russo previsto começar, segundo autoridades dos EUA.

Armamento pesado

As quantidades de armamento pesado por ora são pequenas, e alguns equipamentos precisam de meses de treinamento para serem operados. Não está claro se será possível utilizar armamento suficiente no fronte de Donbass a tempo de enfrentar o ataque russo esperado. O conflito de alta intensidade consome munições e equipamentos rapidamente, e as forças da Ucrânia enfrentarão seus próprios desafios logísticos, já que a Rússia visa depósitos de combustível e munições em ataques de mísseis de longo alcance.

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Muito dependerá também da capacidade russa de reagrupar e concentrar as tropas derrotadas no Norte.

Para ter sucesso, a Ucrânia precisará não apenas de tanques, mas também de boa inteligência, mais do armamento leve avançado usado e amplas forças territoriais para evitar o cerco por trás de suas tropas na linha de frente, disse Mark Hertling, ex-comandante do Exército dos EUA na Europa, no Twitter.

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“Donbas será uma batalha de atrito”, disse ele.

Trata-se dos embates táticos na “linha de frente” em Donbas. A Ucrânia ainda deve lidar com assistência civil, o registro de crimes de guerra, os ataques da Rússia na Crimeia, Mykolaiv, Kharkiv, etc. nos outros lugares. Donbas será uma batalha de atrito. A Ucrânia está preparada.

--Com a colaboração de Arne Delfs e Alberto Nardelli.

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--Este texto foi traduzido por Bianca Carlos, localization specialist da Bloomberg Línea.

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