Los alimentos más caros desde los años 70 son un gran reto para los gobiernos
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Bloomberg Opinion — Quando os muçulmanos no mundo árabe se reúnem ao pôr do sol durante o Ramadã para bater papo durante a refeição “iftar”, as conversas tendem a se desviar para a política, e a falação bem-humorada pode rapidamente se transformar em um queixume coletivo. Nada fermenta mais uma roda de lamentações do que o aumento do preço do alimento básico de todas as refeições do Oriente Médio: o pão.

Com certeza, o ressentimento vai esquentar quando o Ramadã começar na próxima semana. O preço do trigo, que já estava subindo no final do ano passado, disparou com a invasão da Ucrânia pela Rússia. Os dois países estão entre os maiores exportadores de trigo do mundo e grandes fornecedores do mundo árabe.

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Como resultado, o preço do pão disparou em toda a região. O Programa Mundial de Alimentos está alertando para o aumento da fome em todos os lugares, e organizações de direitos humanos dizem que o Oriente Médio e o Norte da África são especialmente vulneráveis por causa de sua dieta rica em trigo. Já houve protestos discretos sobre os preços dos alimentos no Iraque. No Líbano, as manifestações contra o colapso da moeda foram intensificadas pela alta simultânea dos preços do pão.

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A inquietação nas ruas certamente amplificará a ansiedade nos palácios, onde os governantes não precisarão se lembrar dos perigos políticos que espreitam a inflação de alimentos. Protestos contra o preço do pão prefiguraram o movimento Primavera Árabe de 2011 que derrubou ditadores na Tunísia, Egito, Iêmen e Líbia.

Houve aumentos de preços desde então, mas os governos evitaram grandes convulsões políticas com uma combinação de policiamento severo e subsídios. O aumento causado pela guerra na Ucrânia é o mais acentuado em mais de uma década e ocorre em um momento de turbulência política em grande parte do Oriente Médio – uma combinação especialmente perigosa.

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Líbano e Iraque, nominalmente democracias, não têm parlamentos e governos em pleno funcionamento há muitos meses. A democracia da Tunísia foi sequestrada por um autocrata. Há temores de que a Líbia possa entrar novamente em guerra civil. E os militares do Sudão estão recuando de sua promessa de entregar o poder aos civis.

Não é difícil imaginar a raiva generalizada contra a inflação de alimentos transformando a agitação política em muitos desses países em confrontos violentos entre o povo e seus governos. Em lugares onde já há violência – o Iêmen está agora em seu sétimo ano de uma guerra sangrenta – a miséria será agravada.

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Mas o país que inevitavelmente atrai mais atenção em tempos de crise regional é o Egito. A maior nação árabe em termos de população, também é a maior compradora de trigo do mundo – e quase 90% de suas importações vêm da Rússia e da Ucrânia. A interrupção causada pela invasão da Ucrânia, as sanções contra a Rússia e o aumento dos custos de frete e seguro forçaram o governo do general Abdel-Fattah El-Sisi a anunciar medidas extraordinárias para evitar a inflação descontrolada dos alimentos.

Seu governo proibiu a exportação de alimentos básicos, exortou os egípcios a serem prudentes com seus centavos e ameaçou punições severas para os manipuladores de preços e intermediários “gananciosos”. Cairo está procurando reforçar suas reservas de trigo com suprimentos de outros lugares, como a Índia. Também está em negociações com o Fundo Monetário Internacional para obter apoio.

Veja mais: Preço do trigo dispara com busca por fornecedores alternativos

No verão passado, Sisi lançou a ideia de reduzir o subsídio ao pão do Egito pela primeira vez em décadas. “Não é aceitável vender 20 pães pelo preço de um cigarro”, disse ele. Um pão subsidiado no Egito é vendido pelo equivalente de 1 centavo de dólar. A parte da população que se beneficia do programa – 70% da população de 100 milhões do Egito – têm direito a cinco pães por dia. O tesouro público compensa os padeiros por suas perdas. O subsídio custa ao estado mais de US$ 3 bilhões por ano, e Sisi deseja cortar custos.

É sempre difícil, mesmo para um homem de pulso forte, forçar preços mais altos em uma população ainda se recuperando do choque econômico da pandemia de coronavírus. Ele não precisa lembrar que a última vez que isso foi apresentado como solução, por Anwar Sadat em 1977, os tumultos resultantes do aumento do pão deixaram dezenas de mortos e o subsídio foi rapidamente restaurado.

A guerra na Ucrânia pode forçar Sisi a gastar mais para manter o subsídio. Aly El-Moselhy, seu ministro de Abastecimento e Comércio Interno, disse na semana passada que o preço médio do trigo importado subiu para cerca de US$ 350 a tonelada, em comparação com US$ 250 no ano passado. O orçamento para este ano fiscal é baseado em um preço de US$ 255, então haverá pressão sobre o déficit. O corte de custos terá que esperar.

Mas a maior preocupação de Sisi será a perspectiva de agitação política. No Ramadã, suas agências de inteligência e segurança manterão um olhar especialmente cauteloso nas ruas – e um ouvido afiado nas roda de lamúrias do iftar.

Bobby Ghosh é colunista da Bloomberg Opinion. Ele escreve sobre relações exteriores, com foco especial no Oriente Médio e na África.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

– Esta coluna foi traduzida por Marcelle Castro, Localization Specialist da Bloomberg Línea.

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