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Cripto

Binance ‘não é pior que banco’ no combate à lavagem de dinheiro, diz fundador

Em entrevista à Bloomberg Línea, Changpeng Zhao, reconhece o Brasil como um dos dez mercados mais importantes entre 180 países para a Binance

“Nós usamos os mesmos procedimentos que os bancos. Os procedimentos dos bancos não são 100% eficazes"
19 de Março, 2022 | 03:00 am
Tempo de leitura: 6 minutos

Bloomberg Línea — O fundador e CEO global da Binance Holdings Ltd., Changpeng Zhao, refuta as acusações de que sua plataforma possa dar espaço para transações ilícitas e afirma que o compliance e a segurança das operações envolvendo criptomoedas têm o mesmo nível, ou até maior, do que os procedimentos adotados pelos bancos tradicionais.

“Não somos piores que os bancos. Nosso compliance é muito forte; é pelo menos no grau dos bancos, se não for maior”, disse CZ, como é conhecido, em entrevista presencial à Bloomberg Línea, durante sua passagem por São Paulo na última segunda-feira. O executivo passou a semana entre São Paulo, Rio e Brasília, falando com potenciais parceiros (não revelou os nomes), reguladores e clientes no Brasil, onde pretende ampliar a operação. CZ reconhece o Brasil como um dos dez mercados mais importantes entre 180 países para Binance.

“Nós usamos os mesmos procedimentos que os bancos. Os procedimentos dos bancos não são 100% eficazes. Nós contratamos as mesmas pessoas que fazem isso nos bancos. Não é possível garantir 100%. Não somos piores que os bancos”, completou CZ, destacando que a Binance tem acesso aos mesmos bancos de dados sobre crime financeiro e segue as orientações para o setor financeiro de reguladores, polícia internacional e organismos de prevenção a fraudes e lavagem de dinheiro.

A Binance é a maior exchange de criptomoedas do mundo, está em 180 países e tem uma participação de mercado estimada em mais de 50% das transações envolvendo criptoativos.

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Segundo a consultoria Opimas, as receitas de todas as exchanges cripto somaram US$ 24,3 bilhões no ano passado - 60% mais do que os US$ 15,2 bilhões das bolsas de valores tradicionais, como NYSE (Bolsa de Nova York), Nasdaq, CME e a brasileira B3 juntas. Desse total de US$ 24,3 bilhões, só a Binance ficou com US$ 14,6 bilhões (69% do total), de acordo com a Opimas.

A empresa foi fundada em 2017 pelo próprio Changpeng Zhao, um engenheiro de 44 anos, formado em Ciências da Computação pela McGuill University de Montreal, especializado em software de negociações de ativos.

CZ nasceu em Jiangsu, na China, e migrou aos 12 anos para Vancouver, no Canadá, com os pais, que eram professores universitários chineses. Chegou a trabalhar como atendente no McDonalds do Canadá. Antes da Binance, passou pela Bolsa de Tóquio e fundou uma empresa de transações de alta frequência em Xangai. Depois participou de diversos projetos ligados a cripto e blockchain. Segundo o Bloomberg Billionaires Index, CZ é a 13ª pessoa mais rica do mundo, com uma fortuna estimada em US$ 77 bilhões.

A regulação não está completa em nenhum lugar do mundo. Gostaríamos que os órgãos reguladores estivessem dispostos a dialogar, trabalhar conosco, ouvir os players do setor e nossas preocupações

Faraó dos Bitcoins

Na entrevista à Bloomberg Línea, CZ não se recusou a comentar nenhum assunto polêmico. Respondeu sobre uma investigação conduzida pela agência de notícias Reuters, que sustenta que a Binance não levou em conta orientações de suas equipes internas em relação ao compliance para evitar lavagem de dinheiro e crimes financeiros, dizendo que as acusações foram feitas por profissionais demitidos por justa causa e que saíram brigados com a empresa. Disse desconhecer a existência de uma investigação nos EUA do DoJ (Departamenteo de Justiça) e da Receita Federal por suspeita de “insider trading”, dizendo que não há um inquérito formal sobre isso.

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O caso brasileiro de maior repercussão diz respeito ao escândalo de pirâmide do Faraó dos Bitcoins de Cabo Frio (RJ), em que o empresário Glaidson Acácio dos Santos da GAS Consultoria Bitcoin foi preso, acusado de prometer rendimento de 10% aos clientes, aplicando em criptomoedas. Segundo a Polícia Civil, ele teria movimentado R$ 38 bilhões nos últimos anos, sendo pelo menos R$ 1,2 bilhão pela Binance.

Quando os policiais pediram para a Binance bloquear as contas dele, o empresário já tinha transferido todo o dinheiro e sua conta na exchange havia sido fechada. Sobre o caso, CZ é categórico ao afirmar que a Binance colaborou com as investigações e que, se o nome do empresário estivesse nos bancos de dados policiais e de suspeitas de crimes financeiro, não teria conseguido utilizar a infraestrutura da exchange no golpe, exatamente como os bancos que levaram o dinheiro das vítimas até a GAS Consultoria.

Endereço físico

A Binance até hoje é criticada em todo o mundo por não ter um endereço físico, em que clientes e reguladores possam bater à porta em caso de necessidade ou urgência. A ideia, um tanto romantizada pelos entusiastas cripto, era que esse tipo de negócio, por estar no ambiente de blockchain, não precisava ter uma sede física por ser totalmente descentralizada. Mesmo as relações trabalhistas passam por esse conceito de desintermediação, em que os colaboradores são uma espécie de prestadores de serviço associados e não fazem parte do quadro funcional da empresa - também outro ponto polêmico na visão dos reguladores por tornar difusa a responsabilização em caso de irregularidades e má conduta.

Isso tudo é passado, segundo CZ. Para crescer e ficar dentro do escopo regulatório global atual, a Binance se rendeu ao status quo e vai ter uma sede internacional, em local ainda a ser definido. Questionado se o Brasil seria um eventual candidato à sede global - ou por que não reuniria as condições para isso -, CZ fala sobre o peso da regulação cripto, ainda em desenvolvimento, para essa escolha.

“A coisa mais importante é a regulação e a boa vontade de trabalhar com players do setor. A regulação não está completa em nenhum lugar do mundo. Gostaríamos que os órgãos reguladores estivessem dispostos a dialogar, trabalhar conosco, ouvir os players do setor e nossas preocupações”, disse, destacando que a regulação existente hoje não é tão importante porque vai necessariamente “evoluir e mudar”.

Outro ponto importante, disse CZ, é o mundo cripto ter acesso a serviços financeiros tradicionais, como instituições financeiras, empresas de pagamentos e carteiras digitais. “Permitir que bancos e prestadores de serviços financeiros trabalhem com as exchanges de cripto é muito importante. Em muitos países, o banco central não permite que os bancos trabalhem com as exchanges cripto e isso atrasa a adoção de criptomoedas”.

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Aquisições no Brasil

A Binance busca crescer no Brasil em um mercado cripto local efervescente e onde já operam exchanges brasileiras, como Mercado Bitcoin e Foxbit, entre outros players que avançam para os demais mercados da América Latina. Estima-se que mais de 4 milhões de pessoas físicas invistam em criptoativos no Brasil - é mais que o numero de CPFs de contas na B3, depois de décadas de campanha para popularizar as aplicações no mercado de ações brasileiro.

Normalmente, observamos empresas de serviços financeiros tradicionais: bancos, serviços de pagamento, e-wallets. Nos vemos como uma ponte entre cripto e o que chamamos de mundo financeiro tradicional. Para construir essa ponte, temos que ter um ponto de apoio em ambos os lados

Segundo CZ, os principais diferenciais da Binance para abrir espaço entre os concorrentes locais são o custo competitivo, alta liquidez e segurança nas transações. “Como somos os maiores do mundo, negociamos os maiores volumes, temos preço e liquidez. Também investimos mais em segurança, que é muito importante”, disse.

No caso do Brasil, a Binance seguiu o caminho de outras instituições financeiras estrangeiras e comprou uma corretora local com o objetivo de obter as licenças de funcionamento junto ao Banco Central e à CVM (Comissão de Valores Mobiliários) - no caso, a sim;paul, que estava em processo de desintegração, após vender a carteira de clientes para a Guide e transferir a equipe de tecnologia para a Warren.

Para CZ, a aquisição da sim;paul - que depende de aval dos reguladores - não deve facilitar a vida da Binance no Brasil. No ano passado, a CVM proibiu a exchange de negociar derivativos, como futuros de Bitcoin, na sua plataforma, alegando que não havia autorização para isso. EUA, Reino Unido e Alemanha também não permitem esse tipo de operação.

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“Os reguladores são muito cautelosos com derivativos por terem alta volatilidade. Mas esperamos que, no longo prazo, quando os EUA e Reino Unido permitirem os derivativos, o Brasil provavelmente seguirá isso. Somos pacientes com a regulação, afinal os reguladores conhecem os seus mercados mais que a gente e precisamos confiar neles”, disse.

No Brasil, a Binance ainda pretende fazer outras aquisições, de segmentos adjacentes ao universo cripto, como carteiras digitais e empresas de pagamentos. “Normalmente, observamos empresas de serviços financeiros tradicionais: bancos, serviços de pagamento, e-wallets. Nos vemos como uma ponte entre cripto e o que chamamos de mundo financeiro tradicional. Para construir essa ponte, temos que ter um ponto de apoio em ambos os lados”, disse.

(atualizado às 16h40 com informações do caso Faraó)

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Toni Sciarretta

Toni Sciarretta

News director da Bloomberg Línea no Brasil. Jornalista com mais de 20 anos de experiência na cobertura diária de finanças, mercados e empresas abertas. Trabalhou no Valor Econômico e na Folha de S.Paulo. Foi bolsista do programa de jornalismo da Universidade de Michigan.