Brasil

Como a guerra afeta as montadoras e os preços dos veículos no Brasil?

Anfavea teme impacto negativo do aumento de custos na produção e nas vendas, apesar da redução do IPI

Em fevereiro, as montadoras tinham estoques para 27 dias, acima dos 25 dias de janeiro, somando 120,1 mil unidades, sendo 84,9 mil nas concessionárias e 35,2 mil no pátio das fábricas
08 de Março, 2022 | 12:52 pm
Tempo de leitura: 4 minutos

São Paulo — A Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) teme o risco de redução de produção e de vendas no Brasil com o prolongamento da guerra entre Rússia e Ucrânia, mas ainda evita divulgar números sobre o potencial impacto do aumento de custos com o encarecimento de matérias-primas. Ao comentar o balanço do setor em fevereiro, o presidente da entidade, Luiz Carlos Moraes, disse, nesta terça-feira (8), que ainda é cedo para revisar para baixo as projeções para 2022.

A redução de 18,5% no IPI (imposto sobre produtos industrializados) dos veículos, anunciada na semana passada, foi insuficiente para a Anfavea melhorar suas previsões, pois as montadoras já foram informadas por economistas de que os juros no Brasil podem subir ainda mais, saindo de 10,75% para até 14% ao ano, devido à disparada do preço do barril de petróleo e de outras commodities e seus efeitos negativos para a inflação.

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“Estou muito preocupado. A guerra vai impactar a taxa de juros. Se o Banco Central errar a dosagem do aumento de juros, pode ter um desastre no PIB neste ano”, afirmou Moraes.

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Durante a entrevista coletiva, o dirigente da Anfavea listou as preocupações do setor com a guerra:

  • Commodities valorizadas: petróleo, gás natural, aço, alumínio, níquel, cobre, trigo, milho, soja estão com preços em alta
  • Riscos para o agronegócio, cliente de veículos pesados como caminhões e tratores: importação de fertilizantes, potássio, ureia, nitrato de amônio, nitrogênio, fósforo
  • Risco no abastecimento de semicondutores: Rússia e Ucrânia são grandes produres globais de palácio e gás neônio
  • Riscos logísticos: congestionamento de portos, falta de contêineres, atrasos de navios e fretes pressionados podem continuar em 2022; alteração de rotas aéreas deve prejudicar também o mercado de transporte aéreo de cargas
  • Riscos econômicos: mais pressão inflacionária, aumento de juros com efeitos negativos sobre a atividade econômica principalmente no segundo semestre de 2022

Por enquanto, o feedback das matrizes das montadores às filiais se traduz pela palavra “cautela” para ver o impacto na produção e nas vendas de veículos nas próximas semanas e meses, segundo o presidente da Anfavea. A escassez de componentes semicondutores usados na fabricação de veículos e o aumento do custo de logística de montadoras e seus fornecedores de autopeças, como a alta do preço do frete marítimo e aéreo, gargalos que duram dois anos de pandemia da covid, podem se agravar com o conflito, alertou Moraes.

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O setor automotivo não importa nada de relevante da Rússia, segundo a Anfavea, mas as exportações de caminhões e ônibus para lá foram suspensas. “Vamos esperar para ver a dimensão e a extensão da crise”.Ao explicar a manutenção das projeções para 2022, diante desse elemento novo no cenário macroeconômico, o presidente da Anfavea explicou que a entidade já trabalhava com previsões conservadoras para o primeiro semestre do ano, com uma expectativa de um segundo semestre melhor do que o primeiro.

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Ômicron

Para 2022, a expectativa da Anfavea é de um aumento de 9,4%, com 2,46 milhões de unidades produzidas. Em fevereiro, o número de autoveículos emplacados (automóveis, comerciais lves, caminhões e ônibus) somou 129,3 mil unidades, crescimento de 2,2% em relação a janeiro (126,5 mil), mas uma queda de 22,8% na comparação com o mesmo mês do ano passado (167,4 mil). Já a produção em fevereiro atingiu 165,9 mil, um aumento de 14,1% em relação a janeiro (145,4 mil), mas uma redução de 15,8% ante fevereiro de 2021 (197 mil).

Nos dois primeiros meses do ano, com a proliferação da ômicron, variante do coronavírus, houve férias coletivas adicionais e um aumento do absenteísmo. com empregados afastados devido à covid. A falta de matéria-prima como os semicondutores ainda afeta o ritmo de produção das montadoras neste começo de 2022, porque alguns materiais são produzidos na região que está em guerra, segundo o presidente da Anfavea.

Confira a íntegra da coletiva da Anfavea sobre o desempenho das montadoras em fevereiro:

2021 fechou com 2.248,3 mil unidades produzidas, alta de 11,6% sobre 2020. No ranking global de produtores, o Brasil retomou a 8ª colocação perdida no ano anterior para a Espanha. Dezembro foi o melhor mês do ano, com 210,9 mil autoveículos produzidos. Como ocorre tradicionalmente, o último mês do ano foi o de maior volume de vendas, com 207,1 mil unidades licenciadas. Mesmo assim, foi o pior dezembro em cinco anos.

No ano passado, a rápida recuperação após o pico da pandemia em mercados como Chile, Colômbia, Peru e Uruguai ajudou a impulsionar as exportações de veículos brasileiros, apesar das restrições comerciais impostas pelo governo argentino. As 376,4 mil unidades exportadas em 2021 representaram crescimento de 16% sobre o ano anterior. Pela 1ª vez, a Argentina representou menos da metade dos embarques nacionais (34% do total).

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Outras projeções da Anfavea para 2022:

  • Para este ano, a Anfavea ainda projeta vendas de 2,3 milhões de autoveículos, uma alta de 8,5% sobre 2021
  • Para 2022, a expectativa ainda é de exportar 390 mil unidades, um incremento de 3,6% sobre o ano anterior

IPI menor

Quanto ao repasse da redução do IPI para o preço final dos veículos, Moraes disse que a negociação com o Ministério da Economia sobre o tema envolveu o repasse da menor carga tributária para favorecer o consumidor e fomentar a economia, mas que a decisão de repasse é da estratégia comercial de cada montadora. A alíquota para carros de passageiro caiu de 8% para 6,5%, enquanto para comerciais leves saiu de 8% para 6%. A Anfavea estima que o potencial impacto da redução do IPI no preço final será entre 1,4% e 4,1%, dependendo do segmento de mercado.

A Anfavea defende a extinção da cobrança do IPI para o setor na reforma tributária, mas nas conversas com o governo o setor falava em um corte inicial de 50% do imposto. O presidente da entidade mostrou que a carga tributária hoje para um carro, incluindo IPI, PIS/Cofins e ICMS, chega a 37% a 44% do preço do bem. Com a redução do IPI, essa carga cai para um intervalo entre 35% e 42%, uma queda de dois pontos percentuais.

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Segundo Moraees, a alta carga tributária inibe investimentos e exportação, provoca diferentes interpretações sobre o sistema tributária, bem como disputais judiciais, além do alto custo de compliance para acompanhar as mudanças e impactos das normas. Moraes aproveitou para criticar o governo de São Paulo pelo aumento do ICMS de 12% para 14,50% na contramão do governo federal. “Isso não faz sentido, pois penaliza o consumidor”, disse.

(Atualiza às 20h40 com detalhes sobre as projeções da Anfavea para 2022)

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Sérgio Ripardo

Sérgio Ripardo

Jornalista brasileiro com mais de 25 anos de experiência, com passagem por sites de alcance nacional como Folha e R7, cobrindo indicadores econômicos, mercado financeiro e companhias abertas.

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