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Brasil

Como a festa de fim de ano pode ter virado ‘superdisseminadora’ de ômicron

Você provavelmente conhece alguém que pegou covid nos últimos dias

Tempo de leitura: 4 minutos

Bloomberg Línea — Em meio a um apagão de dados da covid no Brasil desde 10 de dezembro, cientistas do país estão concluindo que está em curso uma explosão de casos da doença, na sequência às festas de fim de ano, a partir de dados de emergências de hospitais, demanda por testes em farmácia e dados colhidos em redes sociais.

A primeira lição que a chegada da ômicron deu no verão brasileiro é que os eventos superdisseminadores da doença não se resumem apenas a mega-aglomerações, como shows ou festas para centenas ou milhares de pessoas, como também eventos menores dentro de uma mesma família ou grupo de amigos que resolveu se reunir para celebrar o Natal ou o Ano Novo.

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“Com o aumento da mobilidade de pessoas nesta época do ano e mais flexibilização das medidas de prevenção, a gente pode ter transformado esses eventos menores – uma festa em família, uma ida à praia – em superdisseminadores de uma nova variante que, todos os dados indicam, é mais contagiosa que as anteriores”, disse Isaac Schrartzhaupt, coordenador da Rede de Análise de Dados Covid-19, à Bloomberg Línea.

Veja mais: Ômicron: Excesso de mortes na África do Sul é menor do que em surtos anteriores

O conceito de superespalhador tem ligação com o Princípio de Pareto (em homenagem ao economista italiano Vilfredo Pareto): 80% de todas as consequências vêm de apenas 20% das possíveis causas. Para covid, isso significaria que 80% das novas transmissões são causadas por menos de 20% dos portadores - a grande maioria das pessoas infecta muito poucos ou nenhum, e é uma minoria seleta de indivíduos que estão espalhando agressivamente o vírus.

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“Em epidemiologia nunca é um único fator, mas agora estamos vendo um aumento do número de casos com uma variante mais transmissível em um momento em meio a um relaxamento geral. As pessoas estão exaustas”, afirma a médica Lucia Pellanda, reitora da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) e uma das referências nos estudos sobre a pandemia no Sul do país.

“Estar ao ar livre é sempre uma coisa boa, mas se duas mil pessoas estiverem numa mesma praia isso já é complicado”.

Mudança na transmissão

Há uma mudança de dinâmica na transmissão. Na primeira onda de covid no Hemisfério Norte, em 2020, ficaram famosos eventos superespalhadores como o do coral de Mount Vernon, cidadezinha no estado americano de Washington (onde fica Seattle). A investigação do CDC (autoridade epidemiológica americana) constatou que, em março de 2020, um único indivíduo sintomático pode ter sido o responsável por transmitir a doença para 52 pessoas, das quais três foram hospitalizadas e duas morreram.

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Ao todo, 66 pessoas assistiram à apresentação – o que significa uma taxa de contágio de 86,7% entre todos os presentes. Casos similares pipocaram pelo mundo. Um terço dos contaminados de Berlim, naquele mesmo mês, teve contato com os frequentadores de duas boates da cidade. Em fevereiro de 2020, metade dos 600 casos registrados então na Coreia do Sul era atribuído a um culto de uma igreja em Shincheonji, onde uma única mulher com sintomas teria infectado outras 37 pessoas.

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Agora é diferente: um número infinitamente maior de eventos menores e uma variante mais transmissível pode ter como resultado uma nova escalada de contaminações. Obviamente, transporte público ou presença em ambientes sem ventilação com outras pessoas continuam a requerer cuidados cotidianos.

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“A gente aplica o Princípio de Paretto para concluir que uma pessoa pode ser responsável de outras três ou quatro, mas agora, com uma variante mais transmissível, o número de casos pode ter crescido significativamente em festas menores. Não é possível cravar ainda por conta porque estamos no escuro há 30 dias, mas há uma correlação forte”, afirmou Schrartzhaupt.

Além de monitorar dados como a entrada em hospitais com pacientes com sintomas da doença, a Rede de Análise Covid-19 detectou um crescimento de pessoas que descrevem sintomas compatíveis com os de covid, por meio da CTIS (Covid-19 Trends and Impact Survey, ou Pesquisa de Tendências e Impacto Covid-19), conduzida por um consórcio de universidades que acompanha a evolução da doença, desde abril de 2019, por meio de dezenas de milhares de relatórios aleatórios distribuídos pelo Facebook.

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Uma complicação adicional: não é possível diferenciar, por esta metodologia que é complementar aos dados oficiais, o que é covid e o que é a gripe H3N2, que também tem sido amplamente registrada no país.

Segundo a reitora da UFCSPA, uma preocupação adicional é a heterogeneidade da vacinação no Brasil. Ainda há um contingente não inteiramente conhecido de pessoas que não estão completamente vacinados (em 10 de dezembro, dia do apagão dos dados do ministério, 61% haviam tomado as duas doses ou a vacina de dose única; só 10% haviam recebido a dose de reforço).

“Um dos pontos em que temos insistido é que, mesmo que os sintomas sejam leves nas pessoas contaminadas e as pessoas estando exaustas como estão, é que não podemos baixar a guarda com as medidas de isolamento e distanciamento”, recomendou a médica.

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Graciliano Rocha

Graciliano Rocha

Editor da Bloomberg Línea no Brasil. Jornalista formado pela UFMS. Foi correspondente internacional (2012-2015), cobriu Operação Lava Jato e foi um dos vencedores do Prêmio Petrobras de Jornalismo em 2018. É autor do livro "Irmã Dulce, a Santa dos Pobres" (Planeta), que figurou nas principais listas de best-sellers em 2019.

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