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Finanças pessoais

Black Friday da bolsa: 8 insights sobre ações baratas com Ibovespa a 105 mil

Há muitas ações de boas empresas descontadas, e outras que parecem baratas, mas não estão. Não compre esperando retorno rápido, dizem gestores

Tempo de leitura: 8 minutos

São Paulo — Com o Ibovespa na casa dos 105 mil pontos, há ações sendo negociadas mais baratas do que quando a pandemia fez derreter o mercado acionário global no ano passado, interrompendo atividades comerciais e arrasando o balanço de companhias saudáveis. São papéis mais baratos usando a métrica do preço/lucro, que calcula quantas vezes o valor de mercado de uma companhia é negociado em relação ao lucro estimado nos próximos 12 meses. Quanto menor é a relação entre os dois indicadores, mais barata ela tende a ficar.

No entanto, fatores macroeconômicos – como a inflação no Brasil e no mundo, a política de juros nos Estados Unidos e aqui, a situação fiscal, a solução do governo para pagar o Auxílio Brasil e os precatórios – podem transformar o que parece ser uma barganha agora em um investimento que levará muito tempo para dar o retorno esperado pelo investidor.

Resumindo: você pode encontrar bons negócios na bolsa agora, mas não pode ter pressa para realizar o lucro, segundo gestores, estrategistas e analistas de renda variável entrevistados pela Bloomberg Línea.

Aqui estão os principais insights:

#1 – Alerta de cilada: olhar só para o preço, sem entender o que a empresa faz e o seu histórico da empresa

“O que o investidor precisa procurar são companhias negociadas num preço descontado, mas que tenham balanços sólidos, que navegaram bem em crises anteriores e que estejam meio jogadas na vala-comum do pessimismo em momentos como esse. Momentos como esse são os que fazem os investidores de longo prazo porque ele não tem pressa para vender”, diz Guto Leite, gestor de renda variável da Western Asset.

“Tem que ter cautela neste momento, as coisas estão baratas, mas o cenário macroecônomico mais complicado, inflação em alta, crescimento do PIB revisado para baixo. Em alguns dos casos, o preço barato é justificado para investidores de longo prazo. Há boas oportunidades, sim, mas não é tudo que está barato que vai crescer”, diz Jennie Li, estrategista de ações da XP.

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“Não é possível generalizar que a bolsa está barata porque tem ativos que estão, sim, muito descontados e outros parecem estar, mas não estão. É preciso olhar para o valor intrínseco de cada ativo”, afirma Victor Montezuma, da Suno Research.

#2 – Bancos estão muito descontados, mas há pouca visibilidade à frente

Alguns dos principais bancos estão descontados em relação aos lucros que têm apresentado após a diminuição das fortes provisões de inadimplência durante o período da pandemia e também ao que prometem entregar no futuro.

“Os preços de alguns ativos do setor estão sendo penalizados de maneira infundada”, afirma Montezuma, da Suno, sobre o setor bancário.

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Bancos também estão entre os ativos que, para Leite, da Western, atendem aos critérios de balanços sólidos e histórico de resiliência em outras crises e que se encontram com preço atrativo.

Mas ele faz a ressalva que há pouca visibilidade sobre o mercado pela frente por conta da questão da inflação global, do que ocorrerá com os juros nos EUA e os fatores domésticos, como a situação das contas públicas e o comportamento dos juros diante da escalada da inflação aqui.

Banco do Brasil (BBAS3)

Lucro em 2021: R$ 4,87 bilhões

Cotação em 25 de novembro: R$ 31,00

Preço sobre lucro: 4,88x

Máxima em 12 meses: R$ 39,79

Mínima em 12 meses: R$ 27,86

Itaú Unibanco (ITUB4)

Lucro no 3T2021: R$ 6,77 bilhões

Cotação em 25 de novembro: R$ 23,26

Preço sobre lucro: 7,93x

Máxima em 12 meses: R$ 27,45

Mínima em 12 meses: R$ 20,42

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Bradesco (BBDC4)

Lucro no 3T2021: R$ 6,76 bilhões

Cotação em 25 de novembro: R$ 21.17

Preço sobre lucro: 7,55x

Máxima em 12 meses: R$ 28,44

Mínima em 12 meses: R$ 19,05

Santander Brasil (SANB11)

Lucro 3T2021: R$ 4,34 bilhões

Cotação em 25 de novembro: R$ 35,05

Preço sobre lucro: 7,75x

Máxima em 12 meses: R$ 44,92

Mínima em 12 meses: R$ 33,48

#3 – Setor elétrico tem receitas previsíveis e paga bons dividendos

Para Li, da XP, ações de empresas do setor elétrico são uma boa saída defensiva dentro da bolsa: “Estão descontadas e são mais estáveis porque têm histórico de pagar dividendos com regularidade. São boas para quem pensa no longo prazo”. Ontem, o JP Morgan reajustou para R$ 27 o preço-alvo da Isa Cteep, o que significaria um potencial de alta de 19% em relação à cotação atual.

Taesa (TAEE11)

Lucro 3T2021: R$ 176 milhões

Cotação em 25 de novembro: R$ 35,81

Preço sobre lucro: 12,46x

Máxima em 12 meses: R$ 42,27

Mínima em 12 meses: R$ 30,19

Isa Cteep (TRPL4)

Lucro 3T2021: R$ 191,6 milhões

Cotação em 25 de novembro: R$ 23,02

Preço sobre lucro: 4,01x

Máxima em 12 meses: R$ 28,86

Mínima em 12 meses: R$ 22,45

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ENGIE (EGIE3)

Lucro 3T2021: R$ 672 milhões

Cotação em 25 de novembro: R$ 39,03

Preço sobre lucro: 12,63x

Máxima em 12 meses: R$ 43,90

Mínima em 12 meses: R$ 36,16

Alupar (ALUP11)

Lucro 3T2021: R$ 240,3 milhões

Cotação em 25 de novembro: R$ 24,45

Preço sobre lucro: 5,08x

Máxima em 12 meses: R$ 28,15

Mínima em 12 meses: R$ 22,45

#4 – Seguradoras têm facilidade de repassar inflação aos seus preços

Na lista de setores que Leite, da Western, vê como capazes de enfrentar turbulências agora está o de seguros por sua capacidade de repassar ao seu consumidor custos com inflação. O setor mostrou resiliência em outras crises e têm tradicionalmente apresentado balanços sólidos.

Sulamérica (SULA11)

Lucro 3T2021: R$ 280 milhões

Cotação em 25 de novembro: R$ 26,79

Preço sobre lucro: 12,10x

Máxima em 12 meses: R$ 42,41

Mínima em 12 meses: R$ 24,59

Porto Seguro (PSSA3)

Lucro 3T2021: R$ 60 milhões

Cotação em 25 de novembro: R$ 23,16

Preço sobre lucro: 9,25x

Máxima em 12 meses: R$ 28,98

Mínima em 12 meses: R$ 20,12

WIZ (WIZS3)

Lucro 3T2021: R$ 21,78 milhões

Cotação em 25 de novembro: R$ 8,72

Preço sobre lucro: 8,62x

Máxima em 12 meses: R$ 18,54

Mínima em 12 meses: R$ 6,04

#5 – Varejo tende a sofrer mais com inflação elevada

O varejo e, principalmente, o e-commerce tiveram bom desempenho na pandemia, mas a deterioração do ambiente fiscal no país, com alta da inflação prevista para este ano e nas expectativas para o próximo, acendem o sinal vermelho. “As ações estão baratas, mas tem que tomar cuidado por conta da perspectiva de manutenção de juros mais altos por um bom tempo, além do cenário macro no geral”, pondera Li, da XP.

Magalu (MGLU3)

Lucro 3T2021: R$ 143 milhões

Cotação em 25 de novembro: R$ 8,89

Preço sobre lucro: 81,72x

Máxima em 12 meses: R$ 26,24

Mínima em 12 meses: R$ 8,60

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Via SA (VIIA3)

Prejuízo 3T2021: R$ 638 milhões

Cotação em 25 de novembro: R$ 6,00

Preço sobre lucro: 58,25x

Máxima em 12 meses: R$ 19,21

Mínima em 12 meses: R$ 5,56

#6 – Commodities

Petrobras e Vale são os movers da bolsa, sozinhas responsáveis por quase 40% do Ibovespa. “Empresas de commodities estão expostas a mercados internacionais, mais protegidas do que empresas que são ligadas com o cenário interno. Mas o minério de ferro caiu muito das altas que vimos no começo do ano, tem se mantido em baixa por conta da China”, afirma Li, da XP.

Na Petrobras, o preço do barril em alta no mundo e a política de paridade da empresa turbinaram os lucros, mas as críticas do presidente Bolsonaro que a empresa está “lucrando demais” fazem crescer a sombra de incerteza sobre uma eventual ingerência política sobre a companhia.

Vale (VALE3)

Lucro 3T2021: R$ 20,2 bilhões

Cotação em 25 de novembro: R$ 70,12

Preço sobre lucro: 5,11x

Máxima em 12 meses: R$ 118,72

Mínima em 12 meses: R$ 62,33

Petrobras (PETR4)

Lucro 3T2021: R$ 21,16 bilhões

Cotação em 25 de novembro: R$ 29,57

Preço sobre lucro: 3,73x

Máxima em 12 meses: R$ 31,12

Mínima em 12 meses: R$ 21,10

#7 – Alerta de cilada: juros nos EUA podem fazer ações andar de lado aqui

A grande batalha entre os economistas é travada entre os que vêm uma inflação global persistente e entre aqueles que consideram a atual alta de preços um fenômeno transitório. É deste fla-flu que depende a velocidade da retirada de estímulos da economia americana, a maior do mundo, através das altas de juros do Fed. Isso tem reflexos em todo o mundo.

“Se no final do dia, o aperto dos juros for maior é porque prevaleceu a visão daqueles que enxergam a inflação mais persistente do que provisória. A questão é quão maior pode ser essa alta. O ritmo de alta dos juros americanos faz esperar uma menor liquidez ao redor do globo, incluindo no Brasil”, afirma Leite, da Western.

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E uma questão técnica: o fluxo de investimento externo, que foi responsável por grande parte dos negócios quando o Ibov foi a 130 mil pontos no bullish market que durou até o início deste semestre, pode continuar refluindo não só pelos juros americanos, mas por exigir um prêmio de risco maior por causa de fatores domésticos, como elevação dos gastos do governo e a própria eleição. Menos dinheiro circulando na bolsa local é igual à cotações andando de lado ou caindo.

#8 – Problemas domésticos e eleição podem aumentar volatilidade do país

Questões que permanecem há vários meses em aberto – como o governo vai pagar o novo programa social, haverá calote de precatórios, o teto de gastos ainda servirá para alguma coisa após as mudanças propostas – ajudaram a deteriorar as expectativas sobre as contas públicas do país. O aumento da taxa Selic para combater a inflação – já superior a dois dígitos na conta anualizada – também tem reflexos no humor dos investidores para tomar risco na bolsa. E, por fim, além dos problemas já existentes, a eleição deve adicionar um pouco mais de volatilidade aos ativos brasileiros no próximo ano.

“São nesses momentos que os investidores de longo prazo costumam ser beneficiados porque eles não estão olhando para a volatilidade do momento, mas para boas empresas capazes de gerar lucros consistentes e comprar com um valuation abaixo do que a empresa vale realmente. Mas é preciso paciência”, diz Leite, da Western.

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Graciliano Rocha

Graciliano Rocha

Editor da Bloomberg Línea no Brasil. Jornalista formado pela UFMS. Foi correspondente internacional (2012-2015), cobriu Operação Lava Jato e foi um dos vencedores do Prêmio Petrobras de Jornalismo em 2018. É autor do livro "Irmã Dulce, a Santa dos Pobres" (Planeta), que figurou nas principais listas de best-sellers em 2019.

Ana Siedschlag

Ana Carolina Siedschlag

Editora-assistente na Bloomberg Línea. Jornalista brasileira formada pela Faculdade Cásper Líbero e especializada em finanças e investimentos. Passou pelas redações da Forbes Brasil, Bloomberg Brasil e Investing.com.