Um teste rápido de antígeno deve bastar para comprovar infeccção
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Bloomberg Opinion — Um novo comprimido para tratar pessoas com Covid-19 pode receber autorização de uso emergencial do Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos antes do fim do ano. Dados de um ensaio clínico em estágio final sugerem que o medicamento, chamado Molnupiravir, pode proteger os pacientes tratados nos primeiros cinco dias após sentirem os sintomas – reduzindo o risco de hospitalização e morte pela metade.

Mas quem pode tomar esse medicamento e como ele vai agir? Nesta entrevista, os autores, que escrevem sobre saúde e indústria farmacêutica para a Bloomberg Opinion e Bloomberg Intelligence, discutem o primeiro antiviral contra Covid-19:

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Max Nizen: Quem deve receber o tratamento? Todos que desenvolverem Covid, apenas os não vacinados ou as pessoas com maior risco de desenvolver a versão grave da doença?

Sam Fazeli: Os comprimidos provavelmente serão prescritos para os mesmos tipos de pessoas estudadas no ensaio clínico: pacientes com teste positivo para Sars-CoV-2 no máximo cinco dias antes da administração e que têm pelo menos uma comorbidade que aumenta o risco de doenças graves devido à Covid-19. Pessoas sob maior risco, segundo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças, incluem aquelas com 65 anos ou mais e as que têm câncer, doenças renais ou pulmonares crônicas, diabetes, determinados problemas cardíacos ou obesidade, entre outras coisas. Isso abrange tanta gente que é mais fácil dizer quem provavelmente não receberá o molnupiravir: pessoas saudáveis com menos de 65 anos.

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Os comprimidos estarão disponíveis para quem se enquadrar nos critérios acima e estiver totalmente vacinado? Suspeito que sim, pois esses mesmos pacientes apresentam um risco maior de doenças graves, mesmo vacinados.

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Max Nisen: O molnupiravir deve ser administrado cinco dias após o início dos sintomas. Os médicos precisarão ver os resultados de um teste PCR antes de prescrevê-lo ou basta um teste rápido de antígeno?

Sam Fazeli: No ensaio, os pacientes tiveram permissão para fazer testes rápidos de antígeno, e presumo que, na prática, o medicamento será autorizado para pessoas elegíveis que apresentarem resultados positivos usando qualquer método aprovado.

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Max Nisen: Existem outros comprimidos semelhantes em desenvolvimento? Qual a probabilidade de funcionarem?

Sam Fazeli: A Roche e sua parceira Atea estão trabalhando em um antiviral contra Covid-19, assim como a Pfizer, e os dados de seus ensaios clínicos devem ser divulgado até o final do ano. O medicamento da Roche/Atea tem mecanismo de ação semelhante ao do Molnupiravir, mas sua dosagem é menor. Os pacientes tomam apenas dois comprimidos a cada 12 horas durante cinco dias, em vez de quatro comprimidos de molnupiravir a cada 12 horas durante cinco dias.

O medicamento da Pfizer funciona de maneira diferente. Requer menos comprimidos, mas é uma combinação de dois compostos. Isso significa que pode ser mais provável que cause problemas para pessoas que estão tomando outros remédios (visto que os medicamentos combinados podem afetar o processamento de outros pelo corpo). Essa é uma camada de complexidade que o Molnupiravir não tem.

Dois outros medicamentos em desenvolvimento – um da Shionogi do Japão e outro da Enanta – funcionam da mesma forma que o da Pfizer. Porém estão mais atrasados nos testes. Só que nenhum deles precisa ser combinado com outro composto, e isso pode ser uma vantagem significativa.

Max Nisen: Há alguma questão específica de segurança com esses comprimidos?

Sam Fazeli: Todos os medicamentos têm algum efeito colateral. A questão é se os benefícios superam ou justificam os riscos. O Molnupiravir introduz mutações no genoma do coronavírus que dificultam a replicação do vírus. Teoricamente, a droga também pode causar mutações em qualquer célula humana de divisão rápida, possivelmente causando problemas para mulheres grávidas ou aumentando o risco de câncer. Mas é muito improvável que a Merck/Ridgeback pudesse ter iniciado seu grande estudo de fase 3 do Molnupiravir sem primeiro convencer as autoridades regulatórias de que esse não foi um problema em uma ampla gama de estudos em animais. Além disso, a exposição relativamente baixa dos pacientes ao medicamento minimiza o risco. Para reduzir esse risco ainda mais, os reguladores poderiam limitar o uso da droga a uma ou duas vezes por ano. Sem dúvida, os órgãos reguladores solicitarão à Merck/Ridgeback evidências de que não poderiam ter usado uma dose menor.

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Max Nisen: Para os pacientes que possam escolher, este tratamento é preferível aos anticorpos monoclonais?

Sam Fazeli: Difícil responder, porque não foi realizado nenhum estudo comparativo. Com base nos dados que temos, os anticorpos monoclonais parecem ser mais eficazes. Mas não sabemos como os pacientes do estudo do Molnupiravir se comparam aos dos estudos com anticorpos. Os anticorpos monoclonais são conhecidos por serem muito seguros e por proporcionarem uma proteção relativamente duradoura contra o risco de hospitalização. Por outro lado, não são tão fáceis de tomar quanto os comprimidos comuns. Eles precisam ser administrados por um profissional de saúde.

Então, há espaço para ambos os tratamentos. E é possível que a combinação dos dois proporcione uma proteção ainda maior. Contudo, o custo seria um problema: nos EUA, o preço do Molnupiravir pelo tratamento de cinco dias é de US$ 700; o tratamento com anticorpos monoclonais custa cerca de US$ 2 mil.

Se eu pudesse escolher e o custo não fosse problema, eu preferiria os monoclonais.

Max Nisen: O vírus do Covid pode desenvolver resistência ao molnupiravir, assim como as bactérias desenvolvem resistência aos antibióticos?

Sam Fazeli: Provavelmente não. É apenas uma possibilidade teórica, mas acredito que a Merck/Ridgeback terá dados orientados ao surgimento de uma resistência. O alvo do molnupiravir é um aspecto do coronavírus que é relativamente altamente conservado – isto é, o vírus pode não conseguir sofrer mutação de forma a evitar o efeito do Molnupiravir.

Max Nisen: Como os comprimidos afetarão as vendas de vacinas contra Covid-19? Os investidores parecem acreditar que as vendas vão cair, mas as vacinas ainda são a opção mais eficaz, certo?

Sam Fazeli: Infelizmente, se o medicamento for amplamente autorizado e não limitado a pacientes de risco, isso pode levar algumas pessoas que hesitam em se vacinar a optar pelo molnupiravir. Mesmo que seja aprovado apenas para indivíduos de alto risco, alguns ainda podem preferir tomar o medicamento. Isso seria equivocado, porque as vacinas proporcionam uma proteção muito maior contra a hospitalização – até 90% de proteção, segundo dados mais recentes sobre a vacina da Pfizer-BioNTech.

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Max Nisen: O comprimido fará as pessoas hesitarem em tomar doses de reforço, uma vez que oferecem um benefício relativo menor?

Sam Fazeli: Boa pergunta. Não sabemos qual é nível de benefícios da dose de reforço, mas considere este cenário: É possível que, com o enfraquecimento da cepa delta, possam surgir variantes que consigam escapar da imunidade (adquirida por meio de uma infecção anterior ou vacinação). De fato, dados muito recentes mostram que os anticorpos de pessoas infectadas pela variante delta são quase incapazes de neutralizar a variante beta. Aplicar uma terceira dose da vacina – que não enxergo como reforço, mas como parte do esquema de vacinação básica – aumenta o nível de anticorpos o suficiente para neutralizar todas as principais variantes conhecidas. É muito provável que esse alto nível de imunidade reduza o risco de transmissão viral. Não temos dados sobre a carga viral ou risco de transmissão de pessoas tratadas com molnupiravir. A vacinação é uma estratégia muito mais duradoura do que a terapia medicamentosa.

Max Nisen: Quanto custará o tratamento e quem vai pagar?

Sam Fazeli: O tratamento de cinco dias com 40 comprimidos foi precificado em US$ 700, com base no contrato do governo dos EUA assinado em junho de 2021. O preço provavelmente será o mesmo para a maioria dos países ricos. Nos países emergentes, a Merck licenciou o medicamento para vários fabricantes de genéricos. As empresas provavelmente ainda tentarão obter algum lucro, embora isso não esteja claro.

Quanto a quem paga, acredito que nos EUA e na maioria dos outros países, pelo menos durante a pandemia, será o governo. Para a maioria dos pacientes, os comprimidos devem ser gratuitos.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

Sam Fazeli é analista sênior de produtos farmacêuticos na Bloomberg Intelligence e diretor de pesquisa para Europa, Oriente Médio e África.

Max Nisen é colunista da Bloomberg Opinion e escreve sobre biotecnologia, indústria farmacêutica e saúde. Anteriormente, escreveu sobre gestão e estratégia corporativa para a Quartz e a Business Insider.

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