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Internacional

Conheça a família bilionária acusada de fazer parte da crise de opióides dos EUA

Família é dona da farmacêutica que fabrica o OxyContin, analgésico opióide que viciou e ceifou centenas de milhares de vidas

OxyContin é um famoso opióide que atua como analgésico, com ação semelhante à da morfina, aprovado pela Food and Drug Administration (FDA) em 1995
Por Jeremy Hill, Sophie Alexander, Jef Feeley e Riley Griffin
11 de Setembro, 2021 | 08:25 am
Tempo de leitura: 12 minutos

Bloomberg — A família Sackler ganhou bilhões de dólares com a venda do analgésico OxyContin, da farmacêutica americana Purdue Pharma LP, antes que seu nome fosse finalmente manchado por uma crise de saúde pública sem precedentes nos Estados Unidos. Agora eles estão encerrando seu gigantesco negócio de drogas legalizadas como parte do acordo de falência da empresa, o que permitirá preservar grande parte - e até mesmo aumentar - sua fortuna, estimada hoje em US$ 11 bilhões.

Na semana passada, o juiz de falências Robert Drain aprovou o plano da Purdue para “solucionar” numa só tacada milhares de ações judiciais envolvendo o uso de opióides que levaram a empresa à insolvência - quando as dívidas do devedor são maiores do que seu patrimônio.

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Como parte do acordo, a família Sackler concordou em contribuir com cerca de US$ 4,5 bilhões, vender suas participações farmacêuticas e perder seu patrimônio na Purdue. Os próprios Sackler não são objeto do processo de falência envolvendo a Purdue Pharma, mas alguns membros da família foram nomeados nos processos civis. Em troca, eles vão receber imunidade vitalícia de responsabilidade civil por sua contribuição na crise de opióides que ainda acontece nos Estados Unidos.

O braço do Departamento de Justiça que supervisiona o tribunal de falências se opôs veementemente ao acordo, abrindo caminho para recurso. Matthew Gold, do escritório de advocacia Kleinberg Kaplan, falou em nome de alguns estados que ainda se opõem ao plano, e disse que o negócio tem “falhas fatais” que podem resultar em sua anulação em caso de recurso. Gold entrou com uma apelação em nome do estado de Washington e do Distrito de Columbia logo após o acordo ser fechado.

O juiz Drain, por sua vez, disse que um novo recurso custaria caro e ainda prejudicaria as comunidades que precisam de “alívio” através da substância, desviando dinheiro para custas judiciais em vez de orçamentos voltados ao monitoramento do uso da substância e da sua eficácia como tratamento.

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“Não é possível precificar uma vida ou o estrago por vício em opióides. No entanto, é isso que os tribunais fazem em relação a este tipo de lesão”, disse Drain. “O valor que os tribunais alcançam raramente é, em termos de dólares, uma compensação suficiente.”

O acordo silencia anos de pressão política e protestos envolvendo o OxyContin, opioide que atua como analgésico com ação semelhante à da morfina, que foi aprovado pela Food and Drug Administration (FDA) em 1995. Quase 250 mil pessoas nos EUA morreram por overdose de opióides entre 1999 a 2019, de acordo com os Centros para Controle e Prevenção de Doenças (CDC). No mesmo período, as mortes relacionadas a opioides prescritos mais do que quadruplicaram.

Críticos, incluindo o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, acusaram a Purdue de “ganância corporativa”, alegando pressão sobre os médicos para a prescrição de opióides em excesso.

Julgamento

O julgamento, que durou várias semanas e aconteceu via Zoom, proporcionou um raro momento de aparição da família, que ficou fora dos olhos do grande público nos últimos anos. Quatro membros testemunharam por videoconferência - às vezes se desculpando e defendendo suas ações.

“Nossa família se preocupa profundamente com o fato de o OxyContin fazer parte da crise dos opióides, mas não foi intencional”, disse David Sackler, neto do falecido co-proprietário de Purdue, Raymond Sackler. “Não acreditamos que nossa conduta seja ilegal de forma alguma e queremos ajudar.”

Procuradores de nove estados americanos e da capital Washington lutam contra o acordo por meio de documentos judiciais que dão à Purdue e aos Sacklers total responsabilização pelo papel que eles desempenharam na “criação e exacerbação” da epidemia de opioides. Ao mesmo tempo, quase todos os estados americanos concordaram com o acordo, e os registros de votação - parte padrão do procedimento de falência - mostram que mais de 95% dos credores de Purdue votaram a favor do plano.

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“Este plano certamente não é perfeito”, disse Marshall Huebner, advogado de Purdue, no tribunal. Mas as alternativas - um “turbilhão de anos de litígio” e uma luta infinita entre os credores - seriam muito piores, argumentou.

O procurador-geral de Connecticut, William Tong, um democrata que se opôs aos termos que protegem os Sackler de ações judiciais futuras, disse que a família continuará a acumular e a aumentar sua riqueza.

“Eles não precisaram vender nenhum carro, barco, casa, arte”, disse Tong. “Eles vão financiar isso com seus retornos médios de investimento. E isso não é apenas ultrajante, isso é injusto”, disse.

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Após a aprovação do acordo, membros da família do falecido Mortimer Sackler disseram que, embora “contestem as denúncias feitas sobre nossa família, abraçamos esse caminho para ajudar no combate a uma grave e complexa crise de saúde pública. "

Em uma declaração separada, a família do também falecido Raymond Sackler disse que “a resolução do caso é um passo importante para fornecer recursos substanciais para pessoas e comunidades necessitadas, e esperamos que esses fundos ajudem a atingir esse objetivo”.

Um representante de Jillian Sackler, viúva de Arthur Sackler, deixou claro que nem Arthur, nem seus herdeiros lucraram com OxyContin, e que eles não foram mencionados em nenhum dos processos movidos contra Purdue ou membros da família Sackler.

A fortuna dos Sackler

Os Sackler já foram considerados um exemplo notável do capitalismo americano moderno, surgindo das raízes mais humildes do Brooklyn para a publicidade e a indústria das drogas legais. Eles acumularam uma das maiores fortunas familiares do mundo e se tornaram titãs da filantropia global, com seu nome estampado em museus em Nova York e Paris, bem como em prédios de Oxford e Harvard.

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Com o tempo, eles direcionaram os lucros da indústria farmacêutica para uma ampla gama de empreendimentos. De 2008 a 2017, a família lucrou US$ 10,8 bilhões líquidos da Purdue, embora quase metade desse valor tenha ido para os impostos, de acordo com documentos judiciais.

Como parte do acordo de falência, os Sacklers abrirão mão de seu patrimônio na Purdue; até 2019, não havia nenhum membro da família remanescente no conselho ou em cargos gerenciais. Eles também contribuirão com US$ 4,325 bilhões em dinheiro e perderão o controle sobre negócios familiares no valor de US$ 175 milhões.

Os valores serão distribuídos até 2030, o que de pronto reduz seu impacto imediato. Uma testemunha especialista contratada pelo Estado de Washington estimou em um relatório apresentado ao tribunal que a fortuna de Sackler poderia aumentar para US$ 14,6 bilhões no momento em que a última parcela fosse paga.

Quando questionado no tribunal se sua família acabaria saindo do negócio com mais dinheiro do que tinha entrando, David Sackler recuou.

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“Acho que ninguém pode dizer isso com certeza”, disse Sackler. “Como você sabe, os mercados sobem e descem.”

Para financiar a maior parte dos pagamentos em dinheiro - e como parte do acordo para sair do setor - os Sacklers concordaram em vender suas participações farmacêuticas fora dos EUA dentro de sete anos. Essa venda pode gerar algo em torno de US$ 3 bilhões com impostos, de acordo com declarações fornecidas ao tribunal. O restante do acordo virá dos US$ 8,7 bilhões em ativos que os Sackler ainda controlam fora da indústria farmacêutica.

A família Sackler pagará separadamente US$ 225 milhões para resolver as alegações civis apresentadas pelo Departamento de Justiça sobre as táticas de marketing e venda do OxyContin.

A fortuna de várias gerações, dividida entre os descendentes dos irmãos Raymond e Mortimer Sackler, é administrada por pelo menos quatro family-offices e abrange mais de 100 fundos e uma rede de holding, parcerias e jurisdições. Seus ativos incluem bilhões investidos com gestores de private equity e fundos de hedge e centenas de milhões em imóveis. Eles também possuem uma pequena empresa de petróleo e gás avaliada em US$ 313 milhões.

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Colecionadores de arte assíduos, os Sackler possuem centenas de milhões de dólares em pinturas, joias e outros itens de colecionador. Só a coleção de arte de Theresa Sackler, esposa de Mortimer, vale mais de US$ 50 milhões, de acordo com relatórios do tribunal, enquanto a coleção de Richard Sackler é estimada em cerca de US$ 26 milhões. Outros US$ 100 milhões em obras de arte pertencem a fundos de investimento da família.

Futuro da epidemia de opióides

Enquanto isso, a crise de opióides foi sentida em todos os Estados Unidos e seus efeitos tomaram maior proporção com a pandemia do coronavírus. Em 2020, as mortes por overdose de drogas nos Estados Unidos atingiram um recorde histórico de mais de 93 mil num único ano, de acordo com dados provisórios do CDC. O número foi impulsionado por um aumento rápido nas mortes envolvendo opioides sintéticos ilícitos, como o fentanil, por exemplo.

“As coisas nunca estiveram tão ruins e os números não mentem”, disse Caleb Alexander, epidemiologista da Escola de Saúde Pública Johns Hopkins, em Baltimore, e diretor fundador do Centro para Segurança e Eficácia de Medicamentos. “O acordo marcará o encerramento de um capítulo, mas há muitos mais a serem escritos.”

De acordo com o epidemiologista, de 50 estados, 47 viram as overdoses de drogas aumentarem em 2020. Ele também explica que o aumento nas mortes por overdose relacionadas aos opióides sintéticos teve um impacto especialmente maior nas populações negras e hispano-americanas e de índios americanos.

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No entanto, os opióides prescritos por médicos ainda são alguns dos analgésicos mais eficazes disponíveis. “A menos que alguém desenvolva um produto melhor, a alternativa é uma dor excruciante”, disse o juiz Drain sobre o OxyContin em 2019. Alexander reconheceu que, embora possam ser extremamente prejudiciais, os opióides podem ser extremamente valiosos: “Como um martelo ou uma lâmina de barbear, trata-se de como ele é dosado. "

A taxa crescente de mortes por overdose é um desafio em todo o país, disse Roger Crystal, diretor executivo da Opiant Pharmaceuticals Inc., de Santa Monica, na Califórnia, e inventor do Narcan, um spray nasal usado em emergências para tratar overdoses de opióides.

“As comunidades em todo o país deveriam ter esse dinheiro convertido no financiamento de uma resposta significativa à saúde pública”, disse.

Les Burris, um morador de Orlando, na Flórida, entrou com uma ação de US$ 4,2 milhões depois de perder sua esposa de 50 anos, Julia, para uma overdose de opiáceos. Burris acredita que a família Sackler está tentando “comprar uma saída” para não ser responsabilizada pelos danos causados pelo OxyContin. “É absolutamente terrível e isso não é responsabilizá-los”, disse.

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Futuro da Purdue

Purdue é uma das várias empresas farmacêuticas que enfrentaram litígios por causa de seu envolvimento na epidemia de opióides, mas é a primeira a efetivamente enfrentar um processo de falência. Ainda assim, o acordo vai dissolver a Purdue Pharma, mas seu legado vai perdurar.

Os ativos serão transferidos para uma sociedade limitada chamada NewCo, em documentos judiciais cujos executivos serão escolhidos pelos governos estaduais que processaram Purdue. O objetivo da nova empresa será gerar receita que possa ser distribuída aos governos estaduais e locais, bem como fundos que se concentram em minorias.

A Purdue diz que este plano vai colocar mais de US$ 10 bilhões na mesa para o combate ao abuso de opiáceos. Quase metade desse valor é derivado de iniciativas planejadas de saúde pública, ou seja, a distribuição de medicamentos anti-overdose e tratamentos para a dependência da substância. No entanto, isso já tem data pra acabar. Os gerentes da nova Purdue são obrigados a vender a empresa até dezembro de 2024 para maximizar a quantidade de dinheiro que poderia ser distribuída para resolver os problemas dos opióides.

O OxyContin tem sido o mais conhecido e, às vezes, o mais prescrito medicamento para o tratamento de dores fortes o suficiente para exigir tratamento 24 horas por dia. Desde o momento em que o produto foi lançado, a Purdue se defendeu da concorrência dos genéricos por meio de uma estratégia robusta de patentes e litígios constantes.

A fórmula da droga também foi ajustada ao longo do tempo. Em 2010, a Purdue construiu um comprimido que não podia ser facilmente esmagado e cheirado, e que não se desmancharia se em contato com outros líquidos. Essas salvaguardas que impedem o abuso permitiram novas patentes e, portanto, um período mais longo de exclusividade no mercado.

O OxyContin gerou US$ 2,3 bilhões em vendas líquidas em 2010. “Em 2018, esse número caiu mais da metade para US$ 820 milhões e, em 2020, caiu ainda mais para US$ 517 milhões”, disseram executivos da Purdue. Espera-se que as vendas do OxyContin continuem caindo em 2025 e em 2027, quando as proteções de patentes finalmente expirarem.

Os Sackler

Durante a maior parte de suas vidas, a conexão dos Sackler com a fonte de sua riqueza permaneceu pouco conhecida. O que foi totalmente intencional: quando Mortimer e Raymond Sackler compraram o Purdue Frederick por US$ 50.000, em 1952, eles decidiram manter o nome, de acordo com “Empire of Pain”, a biografia da família escrita pelo jornalista investigativo Patrick Radden Keefe.

Ao longo de décadas, por meio de doações e parcerias com alguns dos museus e universidades mais prestigiados do mundo, a família tornou-se conhecida como filantrópica, em vez de fabricante de drogas altamente viciantes e prescritas em excesso.

No entanto, o poder das suas contribuições caridosas diminuiu. O Metropolitan Museum of Art, o Louvre e outras instituições apagaram o nome da família e se distanciaram deles. O nome ainda permanece na Biblioteca Sackler em Oxford e no Instituto Raymond e Beverly Sackler de Ciências Biológicas, Físicas e de Engenharia em Yale. Mas em 2019, Yale decidiu parar de aceitar as doações da família.

De John Rockefeller a Andrew Carnegie, há muito os americanos ricos usam a filantropia para maquiar os rastros de negócios duvidosos, diz Maribel Morey, historiadora da filantropia e diretora executiva do Instituto de Ciências Sociais de Miami.

No caso de Carnegie, um industrial do aço e filantropo escocês-americano do início do século passado, não houve uma repreensão pública tão generalizada, e muitas bibliotecas e universidades ainda levam seu nome.

Com os Sackler é diferente. “Uma família que destruiu tantas vidas não deveria ser capaz de colocar seu nome em nossas instituições”, disse a procuradora-geral de Massachusetts, Maura Healey, em um comunicado por e-mail. “Você não pode comprar o seu caminho para a redenção divina ou um nome limpo, não importa quanto dinheiro você tenha.”

Morey disse que essa “cultura” de atrelar seus nomes à filantropia ainda é um caminho viável e atraente para os Sackler, que podem ser recebidos de volta por quaisquer universidades e organizações sem fins lucrativos, que oferecerão seu nome exposto em troca de grandes recompensas e, claro, por alguma necessidade.

Uma adição tardia ao acordo de falência agora proíbe os direitos de nomenclatura da família - por uma década.

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