Sexta à noite, empresas financeiras e RG: os padrões para fraudes com documentos

Tentativas de golpe estão espalhadas ao longo do ano e são classificadas principalmente como de baixa complexidade, segundo estudo da empresa tech idwall com dados de 2023

Tentativas de fraudes online se tornam uma preocupação crescente de empresas (Foto: Bloomberg Creative Collection)
24 de Fevereiro, 2024 | 08:45 AM

Bloomberg Línea — O recente golpe de US$ 25 milhões de criminosos que usaram a técnica chamada de deepfake com uso de IA (Inteligência Artificial) para enganar um funcionário de uma empresa em uma videoconferência e obter uma transferência desse valor em Hong Kong evidenciou os riscos de fraudes virtuais.

A estimativa é que fraudes virtuais custem a empresas da América Latina cerca de US$ 130 bilhões ao ano, segundo cálculos da McKinsey. Praticamente uma em cada três companhias brasileiras tiveram perdas equivalentes a mais de 10% do Ebitda (métrica de geração de caixa operacional).

O caso em Hong Kong não se trata de um caso isolado, segundo especialistas. Fraudes e tentativas de golpes estão presentes em diferentes setores e acontecem ao longo do ano para empresas brasileiras, segundo aponta um estudo recém-concluído pela idwall, empresa de tecnologia especializada em identificação digital (veja mais abaixo), e publicado pela Bloomberg Línea.

“O mercado vem evoluindo nos últimos anos. Muito da tecnologia foi desenvolvida a partir da necessidade de verificação de identidade no momento de cadastro, que é muito sensível para evitar a exposição a fraudes. E agora tem passado para outros momentos, como na validação de uma transferência”, disse Vitor Sabio, CFO da idwall, em entrevista à Bloomberg Línea.

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“O estudo mostra que não existe sazonalidade, o que significa que o tempo inteiro documentos estão sendo fraudados e há tentativas de golpes em cima disso”, disse o executivo e empreendedor. No recorte de ocorrências ao longo de 2023, por exemplo, houve praticamente empate nas taxas do primeiro e do segundo semestre, ambas em 1,3% do total de verificação de documentos.

Mas há momentos em que as tentativas de fraude são mais recorrentes, segundo o estudo “Fraud Report”, que considerou dados de mercado levantados pela idwall no ano de 2023.

A frequência aumenta especialmente a partir das 18h de sexta-feira e avança pelo fim de semana até o começo da manhã de segunda-feira. As duas janelas de tempo em que as fraudes são mais comuns são, respectivamente, a madrugada de sábado (0h00 às 5h59) e a noite de sexta (18h às 23h59).

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Empresas do setor financeiro, de forma até compreensível, dado o volume de recursos envolvidos, são os alvos mais comuns de fraudes em termos proporcionais, segundo o estudo. Na sequência estão as atividades de transportes, fantasy (como apostas), saúde e varejo (e-commerce).

O estudo leva em conta dados sobre a alteração de documentos existentes, o roubo de documentos com objetivos de fraudes e a criação de identidades falsas - caso do uso de deepfakes.

O estudo apontou que o RG é o documento mais fraudado por criminosos no país - em mais de 60% das vezes, em tentativas de alteração na foto, na perfuração e na tipografia. Essa preferência se dá em um contexto em que há 353 modelos diferentes de RG no país, dado que é um documento estadual em que versões distintas coexistem - o que dificulta a verificação de sistemas de segurança.

Outra conclusão do estudo é que documentos emitidos na região Norte são os mais visados por fraudadores, com uma taxa que chega a ser 50% maior do que os do Sudeste, por exemplo, ainda que, em termos absolutos, esta seja a região com o maior volume de ocorrências.

Segundo o estudo, 70% das fraudes barradas são classificadas como sendo de baixa complexidade, o que significa que há muitas evidências de alterações nos documentos - e muitas comuns de encontrar. Por outro lado, apenas 2% das tentativas de golpe são de alta complexidade, em que há apenas uma evidência de alteração e, em geral, ela envolve uma sofisticação maior.

A idwall, fundada em 2016 pelos empreendedores Lincoln Ando e Raphael Melo, desenvolve soluções de tecnologia para identificação digital - de uma plataforma integrada de validação de documentos com uso, por exemplo, de biometria a protocolos de redundância e de segurança. Tem cerca de 430 clientes (empresas), entre os quais, por exemplo, dois dos três maiores bancos do país.

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Marcelo Sakate

Marcelo Sakate é editor-chefe da Bloomberg Línea no Brasil. Anteriormente, foi editor da EXAME e do CNN Brasil Business, repórter sênior da Veja e chefe de reportagem de economia da Folha de S. Paulo.