Netflix mira eventos ao vivo no Brasil e vai crescer em videocasts, diz co-CEO global

Em entrevista à Bloomberg Línea em passagem pelo Brasil para inaugurar novo escritório em São Paulo, Greg Peters fala dos planos de crescer e contratar mais no país e aponta a HBO como ativo de destaque na compra da Warner Bros

GREG PETERS IN BRAZIL 2026. São Paulo, 26 de Janeiro de 2026. Cr. Marcos Serra Lima/Netflix © 2026
27 de Janeiro, 2026 | 07:00 AM

Bloomberg Línea — Em meio à negociação avançada para a aquisição da Warner Bros, Greg Peters, co-CEO da Netflix, não esconde o entusiasmo com a transação.

A expectativa é que a primeira fase do negócio seja concluída na primavera do hemisfério norte, entre março e junho deste ano, superando de vez a proposta de aquisição hostil da Paramount Skydance. O acordo também precisará passar por aprovação dos órgãos competentes e de acionistas.

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“Uma das coisas mais empolgantes sobre a aquisição da Warner Brothers é a HBO. É uma marca incrível. E é uma marca incrível porque tem entregado TV de prestígio, TV de alta qualidade há muito tempo. Os consumidores sabem o que esperar da HBO e de uma série da HBO”, afirmou Peters em entrevista à Bloomberg Línea (e mais dois jornalistas) nesta segunda-feira à tarde (26), em passagem pelo Brasil.

O co-CEO da Netflix veio ao país para conhecer e inaugurar o novo escritório da empresa na capital paulista, na avenida Rebouças, na zona oeste, que demandou investimento superior a R$ 140 milhões.

A visita também marca os 15 anos de atuação da plataforma de streaming líder global no país.

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Peters, que divide o comando global com Ted Sarandos, também falou sobre a busca e o ganho de relevância de novos formatos na plataforma de streaming, como eventos ao vivo e videocasts, o que inclui o mercado brasileiro (veja mais abaixo).

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Segundo o executivo, ao concluir a transação com a Warner, o trabalho da Netflix deve se voltar a apoiar as equipes de produções para que continuem com a “construção” de obras, como é o exemplo de “A Casa do Dragão”, spin-off de “Game Of Thrones”.

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A compreensão é a de que há um paradoxo a ser resolvido. Algumas séries, por maior que seja o reconhecimento global, ainda têm audiência limitada em diversos mercados.

“Uma das formas mais importantes de fazermos isso é pegando séries das quais provavelmente todos nós já ouvimos falar, mas que, quando percorremos o mundo, muitas pessoas ainda não assistiram”, disse Peters.

“Podemos realmente contar essas histórias e dar a elas a capacidade de encontrar um público maior. E, se fizermos isso, significa que, de repente, poderemos renovar e reinvestir na narrativa daquela equipe”, completou.

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Nova sede da Netflix no Brasil, na cidade de São Paulo, na avenida Rebouças (Foto: Marcos Serra Lima/Netflix)

A gigante do streaming teve a sua oferta pela Warner aceita no começo de dezembro, depois que a tradicional companhia de Hollywood foi colocada à venda em um processo competitivo de recebimento de ofertas.

A proposta final de US$ 82,7 bilhões da Netflix pelos estúdios Warner e os negócios de streaming - a HBO como ativo se insere nessa unidade principal de streaming & studios, que é o alvo do seu interesse - já recebeu aprovação do conselho de administração da Warner.

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Porém a Paramount Skydance, de David Ellison, busca fazer prevalecer a qualquer custo a sua proposta de US$ 108 bilhões por toda a Warner - incluindo o negócio de canais, que incluem marcas como CNN, Discovery e TNT -, em montante que inclui US$ 55 bilhões em dívida.

Nos últimos dias, a Netflix mudou os termos de sua oferta e se propôs a fechar a aquisição com pagamento integral em dinheiro.

A compra da Warner é vista na Netflix como uma forma de, além de aumentar a produção de conteúdo próprio, avançar no catálogo disponível para os assinantes da plataforma, que fechou o ano com mais de 325 milhões de usuários globalmente e alcance estimado de 1 bilhão de pessoas.

“Nós acreditamos que precisamos expandir o negócio, continuar a investir para fazer com que o serviço tenha mais entretenimento para os nossos assinantes”, afirmou Peters.

“Com esse acordo, basicamente, obtemos acesso a uma biblioteca de conteúdo que já existe, mas que atualmente não está sendo tão bem distribuída quanto poderia.”

O novo escritório da Netflix em São Paulo demandou investimentos de R$ 141 milhões

De eventos ao vivo a videocasts

Ao mesmo tempo em que pretende usar essa base de conteúdo da Warner quando a conclusão estiver aprovada, a plataforma começa a expandir os horizontes para novos formatos, como transmissões ao vivo, que começaram nos Estados Unidos e avançam para novos países a partir deste ano.

No último sábado (24), por exemplo, a companhia exibiu a escalada do alpinista norte-americano Alex Honnold (do documentário vencedor do Oscar Free Solo) no icônico edifício Taipei 101, em Taiwan, com 508 metros de altura, sem o uso de cordas, redes ou qualquer equipamento de segurança.

“As transmissões ao vivo representavam uma capacidade nova para nós, portanto tivemos basicamente que desenvolver o produto e a tecnologia. Há também alguns componentes de infraestrutura, em que você precisa, essencialmente, construir a capacidade de entrega para suportar esse pico de audiência”, contou Peters.

Estão previstos para este ano o World Baseball Classic, no Japão, além de eventos na Europa.

O co-CEO revelou que o Brasil será um dos países que contará com o modelo.

“O ponto não é se [vai acontecer no Brasil], é quando. É apenas uma questão de estruturar essa capacidade”, disse.

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A decisão sobre o tipo de conteúdo a ser transmitido dependerá de uma equação entre garantir a satisfação da audiência e a saudabilidade financeira do negócio.

Outras opções na mesa da Netflix para atrair ainda mais a audiência são produtos relacionados a formatos como podcasts em vídeo, conteúdo vertical e elementos de interatividade.

A empresa, segundo Peters, pretende disputar o que chama de conteúdo profissional - mesmo quando produzido por criadores que surgiram em outras plataformas digitais -, deixando de lado os materiais gerados por usuários comuns, como acontece em canais como o YouTube e o TikTok.

“Queremos, primeiro, competir por esses contadores de histórias, mesmo quando eles surgiram no YouTube ou no TikTok, e não apenas na escola de cinema ou na televisão, por assim dizer”, explicou.

“Isso significa expandir para formatos diferentes, como videocasts, que é um bom exemplo. Tiramos alguns videocasts do YouTube e os colocamos exclusivamente na Netflix — a parte em vídeo deles. Significa estar aberto a formatos diferentes, como vídeos curtos, vídeos verticais, coisas desse tipo que você associaria mais a um YouTube ou TikTok", disse o co-CEO da Netflix.

Em outubro do ano passado, a Netflix acertou um acordo com a Spotify para levar determinados programas de videocasts para a plataforma, o que acarretava retirá-los do YouTube; e negociava com a iHeartMedia uma parceria semelhante, segundo noticiou a Bloomberg News em novembro.

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Novos M&As

Os movimentos devem ser acompanhados por novas aquisições, como parte de uma estratégia de crescimento inorgânico que faz parte da trajetória da Netflix.

Nos últimos 15 anos, a companhia comprou 16 empresas, como os estúdios de jogos Next Games e Boss Fight Entertainment, os estúdios de animação e efeitos visuais Scanline VFX e Animal Logic e a de propriedade intelectual The Roald Dahl Story Company, que detinha os direitos de obras clássicas infantis, como “A Fantástica Fábrica de Chocolate”, “Matilda” e “O Bom Gigante Amigo”.

“Vocês nos verão fazer mais disso [aquisições] se entendermos que é a maneira correta de atingir esse objetivo”, disse o executivo, que acrescou que serão deals com valores bem menores do que a atual negociação com a Warner.

O Brasil na estratégia global

Segundo o executivo, o atual cenário e as perspectivas do negócio irão contribuir tanto para atrair mais público para a plataforma quanto para gerar mais produções locais. Segundo números internos, a Netflix trabalhou com mais de 40 produtoras brasileiras nos últimos três anos.

No ano passado, 25 produções brasileiras, entre originais e licenciadas, chegaram ao top 10 global em algum momento.

O filme "Caramelo" e a série “Os Donos do Jogo” impulsionaram a audiência global das produções locais, que avançou 60% no segundo semestre de 2025.

“Nós ainda temos muito o que fazer aqui. Precisamos continuar investindo, continuar trabalhando com criadores e continuar contando histórias incríveis”, afirmou Peters sobre o Brasil. A América Latina, particularmente o Brasil, foi o primeiro destino da plataforma depois da América do Norte.

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A região fechou o último trimestre de 2025 com faturamento de US$ 1,42 bilhão, alta de 20% em relação ao mesmo período de 2024 (excluindo os efeitos cambiais), atrás de Estados Unidos e Canadá, EMEA (Europa e África) e APAC (Ásia-Pacífico).

Segundo o co-CEO, a companhia observa a região mais pelo potencial de entrega do que necessariamente pela receita gerada.

‘Caramelo’: top 10 em 90 países

“Sinceramente, são produções que encontram um público realmente grande. 'Caramelo’ teve 50 milhões de visualizações globalmente e esteve no top 10 em 90 países ao redor do mundo. Esse é o tipo de alcance que nós podemos ter. Não pensamos tanto nisso como apenas aquela coisa simples de ‘qual é a receita’, afirmou.

No Brasil, o novo escritório no Jardim Paulistano é uma amostra do compromisso de longo prazo da empresa com o mercado brasileiro, segundo Peters.

“Talvez o mais importante seja que nosso time aqui cresceu 20% no último ano”, disse. A equipe atual reúne cerca de 300 profissionais.

“Estamos contratando mais pessoas aqui para fazer mais produções, mais parcerias, trabalhar com anunciantes. Construímos um prédio grande porque sentimos que vamos continuar crescendo. Estamos muito entusiasmados com isso.”

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