Bloomberg Línea — Na contramão do discurso dominante de que a inteligência artificial eliminará postos de trabalho, o especialista Denis Pennel avalia que ainda não há evidência concreta de que a tecnologia esteja redesenhando o mercado de trabalho no ritmo sugerido por executivos e investidores.
“Todo mundo fala que a IA vai destruir empregos, mas simplesmente ainda não vemos isso acontecer”, disse o especialista no futuro de trabalho à Bloomberg Línea durante a terceira Conferência Global do Mercado de Trabalho (GLMC), realizada em janeiro, em Riad, na Arábia Saudita.
Para ele, a transformação no mercado de trabalho é provável, mas seu alcance e seu ritmo ainda são incertos.
“Ela [a IA] vai mudar o mundo do trabalho, sem dúvida. Mas ainda estamos longe de entender como, quando e em que escala.”
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Pennel argumenta que parte dos cortes anunciados por grandes companhias - McKinsey e Amazon foram algumas que fizeram layoffs recentemente - tem sido atribuída à IA de forma imprecisa.
Na avaliação de Pennel, muitas dessas demissões refletem ajustes ligados ao ciclo econômico, à desaceleração global e à incerteza geopolítica, e não necessariamente ganhos diretos com a automação.
“As empresas estão investindo bilhões de dólares, mas, honestamente, ainda não sabem quais serão os resultados”, disse. “É cedo demais para falar em criação ou destruição de empregos.”
Para Pennel, o impacto da IA tende a ser gradual e mais concentrado na reorganização das funções e das tarefas dentro das empresas do que na eliminação direta de postos de trabalho.
“Estamos falando muito mais de tarefas do que de empregos”, disse o ex-presidente da World Employment Confederation que vê as atividades repetitivas, operacionais ou excessivamente burocráticas como as primeiras a sofrerem a automação.
Esse processo, disse ele, pode aumentar a produtividade e liberar tempo para funções que exigem capacidade de julgamento, criatividade e interação humana.
Em setores como cuidados com idosos, educação e serviços, o componente humano continuará central. “Você pode usar tecnologia para apoiar, mas não substituir completamente a relação humana.”
Se a IA não configura, neste momento, um vetor claro de destruição de empregos, Pennel vê outro risco estrutural no horizonte: o aprofundamento das desigualdades.
Segundo estimativas da União Internacional de Telecomunicações (UIT), agência especializada da ONU, cerca de 2,2 bilhões de pessoas ainda não tinham acesso à internet em 2025, enquanto aproximadamente 6 bilhões, o equivalente a 74% da população mundial, já estão conectados.
“Estamos criando uma nova divisão no mundo do trabalho entre quem tem acesso à tecnologia e quem não tem.”
A informalidade, explica, está concentrada em setores de baixa produtividade: como agricultura, construção civil, ambulantes e parte dos serviços urbanos.
Há ainda a questão da formalidade.
De acordo com o pesquisador, cerca de 60% da força de trabalho global atua na economia informal, o que representa mais de 2 bilhões de pessoas sem contratos formais ou acesso pleno à proteção social.
A solução, segundo Pennel, não passa por tentar formalizar de forma integral todos os trabalhadores de uma vez, mas por construir um sistema híbrido, que ofereça pelo menos uma base mínima de proteção social, com acesso à seguridade básica, por exemplo, mesmo para quem permanece fora de contratos tradicionais.
“Trazer todos para o modelo completo pode ser impossível no curto prazo. Mas podemos começar oferecendo alguma proteção.”
Nesse contexto, ele defende marcos regulatórios mais flexíveis, que facilitem a transição para a formalidade. Leis excessivamente rígidas, avalia, podem inibir contratações e ampliar a informalidade.
Ao mesmo tempo, sugere ampliar a diversidade de arranjos contratuais, como trabalho temporário, parcial ou programas de aprendizagem, para incorporar diferentes perfis ao mercado formal.
Pennel também vê a questão demográfica como mais um vetor estrutural de transformação nas próximas décadas.
Segundo ele, a população mundial pode começar a encolher até o fim do século, com queda acumulada próxima a 30% até 2100 - em linha com o projetado pela ONU.

“Vamos enfrentar uma escassez massiva de trabalhadores.”
O desafio, segundo ele, tende a ser menos o desemprego em relação à tecnologia e mais sobre a falta de pessoas em idade ativa.
Nesse contexto, os fluxos migratórios devem ganhar peso crescente. Economias com população ativa em queda terão de buscar mão de obra em países mais jovens, especialmente em partes da África, para sustentar seus sistemas produtivos.
Para que esse rearranjo funcione, disse o especialista, será necessário preservar algum grau de cooperação internacional, justamente em um momento de avanço do protecionismo e de maior fragmentação geopolítica.
Na leitura de Pennel, o risco atual não está em subestimar a inteligência artificial, mas em superestimá-la no curto prazo e tomar decisões estratégicas com base em expectativas ainda não comprovadas.
O mercado de trabalho, afirmou, está sendo transformado por vetores que atuam ao mesmo tempo, entre eles o avanço tecnológico, as desigualdades estruturais, o envelhecimento da população e as tensões geopolíticas. Nesse conjunto de pressões, a inteligência artificial é apenas um dos elementos, e não necessariamente o “mais determinante”.
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