Bloomberg Línea — A operação da Intel na América Latina vive um momento positivo apesar as turbulências que afetaram a matriz nos últimos anos, de acordo com o novo chefe da fabricante de chips para a região, o brasileiro João Bortone.
Em entrevista à Bloomberg Línea, o executivo afirmou que a penetração da marca no Brasil e nos demais países da América Latina chega a superar a de mercados mais maduros, como a Europa, onde a competição é mais acirrada.
“O negócio continua sendo saudável e continua em crescimento. Poderia ser mais? Poderia. Mas a questão de supply também nos afeta, logo que não conseguimos suprir 100% de um mercado no momento”, disse Bortone, sem abrir números. “Estamos em um excelente momento.”
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O executivo assumiu a operação latino-americana há pouco mais de três meses, se reportando a Caitlin Anderson, vice-presidente corporativa e diretora-geral de vendas para as Américas.
O movimento marca um retorno de Bortone à Intel, onde já havia trabalhado no início dos anos 2000. Ele assumiu oficialmente o cargo em 4 de maio, no lugar de Gisselle Ruiz Lanza, que passou a comandar a empresa na região Europa, Oriente Médio e África (EMEA).
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Sua chegada ocorre em uma fase desafiadora para a Intel (INTC). Os últimos anos ficaram marcados pelo turnaround liderado pelo CEO Lip-Bu Tan, pelos rompantes de Donald Trump sobre a companhia – que já foi um dos símbolos de inovação americana – e pela decisão da Casa Branca de adquirir uma participação de 9,9% na fabricante de chips.
Bortone descreveu uma Intel “em fase de transformação”, tentando reencontrar tração num mercado dominado pela disputa por capacidade de fabricação e pela corrida da inteligência artificial — pano de fundo também da recente entrada do governo dos Estados Unidos como acionista da companhia e das negociações para fabricar chips para clientes como Apple e Nvidia.
“Estamos no meio de uma transformação, que não tem um prazo para acabar, mas estamos nos adaptando às novas condições de mercado, econômicas e geopolíticas. Estamos em um momento bom, tanto na percepção de mercado em relação à companhia quanto na nossa performance em vendas”, afirmou.
Inferência e senso de urgência
Bortone chegou em um momento de dicotomia entre a necessidade de crescer da companhia e a escassez de chips no mercado, um fenômeno global que tem impactado toda a indústria, tanto pelo lado dos data centers quanto em relação aos PCs.
“Do lado de PCs, nós temos trabalhado bastante e talvez consigamos uma normalização no curto prazo. Diria que a situação no segundo semestre pode melhorar um pouco”, afirmou o executivo.
Segundo ele, os prazos de entrega variam muito de acordo com os compradores, projetos e os modelos adquiridos. “Nós temos conseguido atender bem os nossos clientes, menos do que gostaríamos, óbvio”.
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O quadro é diferente para as demandas relacionadas aos data centers, que devem ter um longo caminho até a normalização. O mercado está com os olhos fixos na etapa de treinamento de modelos de IA — fase que consome GPUs (Unidade de Processamento Gráfico) em profusão e turbina a demanda por data centers de ponta.
A grande aposta da Intel é no universo das CPUs, espaço em que a companhia detém predominância, e para inferência, a fase posterior ao treinamento de modelos de IA.
Um levantamento do Citigroup estima que o mercado de CPUs para servidores será de aproximadamente US$ 132 bilhões até 2030, versus US$ 29,3 bilhões em 2025, expansão puxada principalmente pelas CPUs agênticas.
Segundo a projeção do Citi, a companhia americana deve chegar em 2030 com uma participação de 47% no mercado total de CPUs. A Advanced Micro Devices (AMD), com 34%, ficaria na sequência, acompanhada pela ARM e outros concorrentes com os 19% restantes.
“A inferência, essa grande onda, é muito maior do que o treinamento”, disse Bortone, argumentando que é nessa fase que “os agentes de IA chegam à ponta, chegam às empresas, chegam ao governo, chegam aos consumidores finais. Quando a IA já aprendeu e consegue executar os programas”.
Ao apresentar o balanço trimestral da companhia em abril, Lip-Bu Tan, CEO global, disse que a companhia permanece focada em maximizar a sua rede de fábricas para aumentar a oferta disponível e atender os clientes. “Essa mudança (para a inferência) está aumentando significativamente a necessidade das CPUs da Intel, bem como de nossas ofertas de wafers e encapsulamento avançado”.
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E é aí que a Intel enxerga espaço para crescer com processadores. E Bortone, que se descreve como uma pessoa competitiva, característica alinhada à sua paixão por esportes, pretende levar essa mentalidade para o time comercial. “Trabalhando com vendas, você aprende a ter senso de urgência. O senso de urgência para mim é tudo”, afirma.
Para manter a trajetória de crescimento, o executivo, que também passou por Google e Dell, pretende estar “ainda” mais próximo dos seus clientes, como fabricantes de PCs, como Lenovo, Dell e Positivo, e as plataformas de nuvem, como Azure (da Microsoft), AWS (Amazon) e Google Cloud.
“O papel da Intel é mover o mercado, independente da construção de cada negócio”, disse. Em meio à turbulência da matriz, o desafio regional de Bortone será mostrar que as nuvens que pairam sobre Santa Clara, a cidade sede da Intel, não restringem os movimentos da companhia ao sul.