Bloomberg Línea — A Alliança Saúde e Participações (AALR3), antiga Alliar, recorreu a um empréstimo de emergência de até R$ 76 milhões para evitar uma paralisação de suas operações.
A empresa de medicina diagnóstica, dona do Centro de Diagnósticos Brasil (CDB), sua rede de exames de imagem em São Paulo, e de cerca de 105 unidades de atendimento pelo país, admitiu nesta segunda-feira (18) que enfrenta o “esvaziamento praticamente total” de seu caixa, expressão usada pela própria companhia em comunicado.
O empréstimo foi captado pela Cura, subsidiária de diagnóstico que a Alliança comprou no ano passado, em condições que expõem o tamanho do risco.
O financiador, o fundo 287 FIP, tem assegurado retorno mínimo de 1,45 vez o valor aportado, além de juros que somam o CDI, a taxa básica do mercado, a mais 12% ao ano. Em troca, exigiu garantia dupla: bens dados como lastro e um terceiro que responde pela dívida se a emissora não pagar.
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Há cinco anos, ainda como Alliar, a empresa era um dos ativos mais cobiçados da saúde brasileira, disputada pela Rede D’Or (RDOR3) e pelo grupo Fleury (FLRY3).
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O empresário Nelson Tanure, conhecido por investir em companhias com dificuldades financeiras, venceu o páreo em 2022, pagando R$ 20,50 por ação, rebatizou a companhia de Alliança Saúde e prometeu transformá-la na maior rede de diagnóstico do país.
O plano não vingou. A ação, que chegou a valer quase R$ 35 em meados de 2023, é negociada esta segunda-feira em torno de R$ 3,24, uma desvalorização de 88% desde a estreia em bolsa e de mais de 52% só nos últimos 12 meses.
Hoje a companhia vale cerca de R$ 970 milhões, menos de um sexto do que custou cada papel na aquisição de controle. O capital em circulação no mercado, segundo a posição mais recente divulgada pela B3, equivale a 40% das ações e está pulverizado entre cerca de 3,9 mil pessoas físicas, 41 empresas e 46 investidores institucionais.
Tanure acabou perdendo o controle. Em fevereiro, credores tomaram suas ações para cobrir uma dívida de R$ 1,2 bilhão ligada à compra da Ligga Telecom, e a companhia passou às mãos da Tessai, fundo da gestora Geribá, especializada em situações de crise, que hoje detém 59,84% do capital.
Do calote ao socorro
O rombo nas contas ficou exposto em abril, quando a Alliança não pagou o principal e os juros de uma emissão de dívida que venceu no dia 4. O calote levou a Fitch Ratings a rebaixar a nota de crédito da empresa para o degrau imediatamente anterior ao da inadimplência formal.
A agência avisou que, se a companhia pedir recuperação judicial, a nota cai ao último nível da escala, e acrescentou que ainda não tem clareza sobre o que o novo controlador pretende fazer com o negócio, fator que aumenta o risco percebido.
No fim de setembro de 2025, a Alliança tinha R$ 124 milhões em caixa para fazer frente a R$ 295 milhões em dívidas que venceriam logo adiante, e devia R$ 545 milhões no total.
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A deterioração foi rápida, e o comando da companhia, instável. Sob Tanure, o reposicionamento da empresa foi tocado pelo CEO Pedro Thompson, que conduziu a troca de marca de Alliar para Alliança Saúde em 2023.
Depois da saída de Thompson, a presidência executiva chegou a ser ocupada interinamente pela filha do empresário, a médica Isabella Tanure, antes de passar a Ricardo Sartim, em 2025.
Em julho daquele ano, a Alliança anunciou a compra do Grupo Meddi, maior rede independente de diagnóstico do Nordeste, por cerca de R$ 252 milhões, e falou na época em “crescimento disciplinado” e “redução da alavancagem”.
Sartim, então CEO, projetava R$ 500 milhões a mais de receita anual. Dez meses depois, ele renunciou, a empresa segue sem presidente-executivo nomeado, e o discurso de expansão deu lugar ao pedido de socorro para manter as portas abertas.
Uma crise que não é só da Alliança
O caso da Alliança não é isolado. O setor de saúde no Brasil vive um ciclo difícil, em que empresas que cresceram à custa de aquisições e dívida barata agora pagam a conta de juros altos por um período prolongado e de margens espremidas por reajustes que não acompanham a inflação dos exames.
Entre o fim de abril e o início de maio, a rede oncológica Oncoclínicas (ONCO3) e a rede hospitalar Kora, controlada pela gestora HIG Capital, iniciaram ou prepararam pedidos de recuperação extrajudicial para reorganizar suas dívidas com credores.
A Oncoclínicas carrega passivos de R$ 4,8 bilhões e teve da Fitch o mesmo rating RD(bra) atribuído à Alliança. A diferença é que, no caso da Alliança, a mudança foi agravada por um problema externo: o endividamento bilionário de seu antigo controlador, Nelson Tanure, que arrastou a companhia para a crise.
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