Velvet, de venda de ações em startups, agora quer ser menos LatAm e mais global

Carlos Naupari, CEO da Velvet, conta à Bloomberg Línea por que decidiu mudar o foco da empresa e deixar de operar na América Latina quase dois anos depois de levantar US$ 200 milhões

Guilherme Marins e Carlos Naupari
05 de Dezembro, 2023 | 09:00 AM

Bloomberg Línea — A Velvet, fintech que opera uma plataforma de compra e venda de participação em startups em uma espécie de mercado secundário digital, decidiu mudar o foco do negócio e irá deixar de operar na América Latina com a queda dos negócios na região.

O objetivo agora é relançar o produto e se voltar para startups globais inovadoras, segundo Carlos Naupari, CEO e fundador da fintech, em entrevista à Bloomberg Línea. Com isso, a empresa espera atrair investidores de alta renda de family offices que desejem investir em startups dos Estados Unidos de capital fechado.

Para realizar a mudança de estratégia, a Velvet fechou parceria com a Templum, uma empresa de tecnologia do empreendedor Christopher Pallotta, sediada em Nova York, que desenvolve sistemas para a negociação de ativos nos mercados privados e de alternativos.

“Hoje o nosso investidor, que tem patrimônio acima de US$ 10 milhões, já tem contas no exterior e busca uma diversificação, além dos produtos de prateleira do mercado financeiro tradicional do Brasil. Com essa parceria, a gente oferece uma segunda via. A gente consegue oferecer investimentos pontuais, em coisas que não é todo mundo que tem”, disse Naupari, ex-country manager da Easy Taxi na Cidade do México e ex-private banker do UBS em Nova York.

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Segundo o fundador, a colaboração com a Templum proporcionará aos investidores acesso a empresas como SpaceX, OpenAI e Neuralink. “São empresas verdadeiramente exponenciais que impactam a humanidade”, segundo ele. A meta da Velvet é atingir US$ 250 milhões em transações até 2024.

Entre os concorrentes, estão empresas como Carta e a Nasdaq Private Market, que também atuam como marketplaces que facilitam a negociação de participações em empresas privadas.

A decisão de focar em startups de capital fechado globais em vez de em empresas latino-americanas ocorre em um momento de baixa no mercado de venture capital na região, que levou a uma redução do valor de alguns unicórnios (startups avaliadas em US$ 1 bilhão ou mais). Com isso, os papéis das empresas latinas negociados no mercado secundário tiveram fortes perdas.

“Os grandes unicórnios da América Latina são empresas que digitalizaram alguma coisa. As empresas proptechs, por exemplo. Elas alcançaram valor de US$ 3 bilhões, US$ 5 bilhões, após receberem financiamento, mas ninguém mais acredita nesses valores no mercado secundário”, disse Naupari.

“Quase toda semana recebo mensagem de algum ex-funcionário ou funcionário de um grande unicórnio da América Latina perguntando sobre secundária. A gente não faz mais secundária de empresas da América Latina simplesmente porque não tem demanda, não tem apetite do outro lado. Afinal das contas, a gente tem que focar em trazer retornos para os nossos investidores”, completou.

A Velvet nasceu em 2021 como uma plataforma financeira para investidores de transações secundárias de ativos ilíquidos. A empresa vende as participações acionárias de funcionários, ex-funcionários ou investidores de unicórnios da América Latina que desejavam se desfazer parte de sua posição. Os compradores em geral são clientes de private banking e gestão de patrimônio.

O serviço era oferecido às próprias startups como uma maneira de dar a opção para os funcionários se capitalizarem com as ações recebidas como bônus.

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Parecia um ótimo negócio em um ano em que a injeção de capital de risco na América Latina atingiu US$ 15,7 bilhões, mais do que a região levantou na década anterior inteira, segundo dados da Lavca (Associação para Investimento em Capital Privado na América Latina). Mas o foco na região deixou de fazer sentido no momento em que as taxas de juros elevadas afastaram os investidores de ativos de risco.

Em fevereiro do ano passado, a Velvet levantou US$ 200 milhões em financiamento de risco em um acordo liderado pela Yolo Ventures. Antes, a fintech tinha captado US$ 3,5 milhões em financiamento inicial em um acordo liderado pela Global Founders Capital em dezembro de 2021.

A nova plataforma nasceu na parceria com a Templum, de Christopher Pallotta. “Ele é grande amigo meu, justamente da época que eu estava em Nova York de 2008 a 2013″, disse Naupari. O pai de Christopher é James (Jim) Pallotta, bilionário fundador do Raptor Group, empresa de investimento privado. Ele foi um dos primeiros investidores do Uber e do Airbnb e também foi dono do Roma, clube de futebol da Itália.

No início deste ano, Naupari disse que estava em Miami onde se encontrou Christopher Pallotta. “Conversa vai, conversa vem, e pensamos por que não fazer uma parceria com a tecnologia que a Templum já tinha desenvolvido, com o nome que a Velvet tem construído?”.

Depois de reduzir a equipe em resposta às mudanças do mercado, Naupari acredita no potencial da nova estratégia, destacando seus relacionamentos sólidos no Brasil e no exterior. “Temos caixa suficiente para financiar esse novo produto”, disse.

-- Atualizada às 10h42 do dia 5/12 para corrigir que a Rivercrest Global, veículo de Carlos Naupari, não investiu na rodada de 2022

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Isabela  Fleischmann

Jornalista brasileira especializada na cobertura de tecnologia, inovação e startups