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Varejo é deixado de lado por investidores e luta para sobreviver no Brasil

Empresas com endividamento elevado e maior dependência de lojas físicas enfrentam cenário desafiador antes que o início da queda de juros surta efeitos na demanda

Loja da Casas Bahia: rede tradicional enfrenta desafio financeiro e operacional
Por Vinícius Andrade e Giovanna Bellotti Azevedo
24 de Outubro, 2023 | 01:49 PM

Bloomberg — Varejistas brasileiras lutam para sobreviver pelo tempo suficiente para aproveitar os benefícios da queda de juros.

Empresas do setor possuem endividamento elevado, assim como seus clientes. A concorrência de players on-line como a Amazon continua a se intensificar.

E o refinanciamento de dívida ficou mais caro no país e no exterior em meio ao avanço dos yields americanos, enquanto os investidores ainda digerem os impactos do escândalo contábil da Americanas (AMER3).

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“Talvez seja o momento mais desafiador que o varejo vive desde 2013, quando eu comecei a cobrir o setor”, especialmente para aquelas empresas expostas às classes C e D, disse Thiago Macruz, analista de varejo e chefe de pesquisa de ações para Brasil do Itaú BBA.

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Algumas rachaduras já apareceram. A Casas Bahia (BHIA3), anteriormente conhecida como Via, teve que vender ações com desconto acentuado no mês passado para ajudar a endereçar sua alavancagem.

A Tok&Stok disse no final de junho que reestruturou cerca de R$ 350 milhões em dívidas com bancos e recebeu uma injeção de capital de R$ 100 milhões liderada pelo seu controlador Carlyle após não cumprir algumas obrigações.

Outros pares, como Magazine Luiza (MGLU3) e C&A (CEAB3), possuem debêntures que negociam no mercado secundário com um prêmio de risco de ao menos 300 pontos-base.

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A chilena Falabella — que opera ao redor da região incluindo no Brasil — poderá ter sua nota de crédito rebaixada para grau especulativo à medida que sua receita encolhe, disse a S&P Global Ratings, em agosto. As ações de Americanas, Via e Magazine Luiza todas negociam abaixo de R$ 2.

O Banco Central tenta aliviar parte da pressão com o início do ciclo de cortes na taxa Selic, mas o alívio poderá não chegar a tempo.

Empresas do setor aumentaram seus níveis de endividamento nos anos anteriores à pandemia, aproveitando a queda dos juros e uma forte demanda por seus títulos localmente.

Um grupo de varejistas brasileiras cobertas pela Fitch Ratings tinha cerca de R$ 34 bilhões em dívidas com vencimento entre 2023 e 2024, e mais de R$ 51 bilhões em dívida com vencimento a partir de 2025.

Ao mesmo tempo, companhias ofereceram mais crédito aos clientes, expandindo suas operações de serviços financeiros, permitindo até que consumidores sem cartão de crédito conseguissem financiar suas compras.

Em alguns casos, varejistas aprovavam os crediários por conta própria e arcavam com o risco de perdas por inadimplência. No curto prazo, as condições de crédito mais flexíveis permitiram às empresas impulsionarem sua receita.

No longo prazo, essas vendas podem se mostrar ilusórias, quando os clientes começam a atrasam os pagamentos. A Lojas Renner divulgou prejuízo de R$ 396 milhões em sua unidade de serviços financeiros no segundo trimestre, uma perda 41% maior em relação ao ano anterior.

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Segundo dados do Banco Central, cerca de 28% da renda das famílias está agora comprometida com pagamentos de dívida, perto de uma máxima histórica.

Para navegar esse cenário, varejistas restringiram a concessão de crédito. “As empresas perceberam que não é um bom negócio entregar crescimento com inadimplência mais alta”, disse Alexandre Muller, gestor de crédito da JGP Asset Management. Isso é “tirar de um bolso para colocar no outro.”

Mesmo com essas pressões, alguns investidores vêem oportunidades na dívida corporativa do setor. Muller favorece debêntures da Guararapes (GUAR3), dona da Riachuelo.

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Embora muitos varejistas tenham relativamente poucos ativos físicos, a empresa opera um shopping center no Rio Grande do Norte, que na prática poderia servir como garantia para um eventual financiamento.

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Enquanto isso, varejistas online também sofrem com a forte competição de grupos como Mercado Livre (MELI), Amazon (AMZN), Shein e Shopee. Um programa estabelecido recentemente permite a isenção de impostos federais sobre a importação para vendas de produtos no valor de até US$ 50.

Mas, para as empresas cujos títulos e ações despencaram, o pior pode já ter passado, segundo alguns investidores. Além da queda de juros, o programa para renegociação de dívidas negativadas Desenrola pode trazer alguma ajuda adicional.

“O setor de consumo discricionário está meio largado, ninguém gosta”, disse Alessandro Arlant, sócio da Dahlia Capital, em evento em São Paulo na semana passada. “Mas tem que separar o joio do trigo. Tem muita oportunidade se o cenário melhorar.”

- Com a colaboração de Davison Santana e James Crombie.

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