Negócios

Os modelos que o Mercado Livre estuda para vender importados no Brasil

Gigante do comércio eletrônico diz que regras do governo Lula de isenção de impostos a importados podem levá-lo a essa alternativa e que experiência mexicana é exemplo

Centro de distribuição do Mercado Livre no Brasil: capacidade de vender de fornecedores locais e estrangeiros
02 de Setembro, 2023 | 04:16 PM

Bloomberg Línea — Nos últimos dias, o Mercado Livre (MELI) promoveu alterações em sua landing page para vendedores do exterior que desejam ter seus produtos comercializados no Brasil. A empresa adicionou novas categorias e quase 4,2 milhões de anúncios, em um momento em que seus executivos apontam para oportunidade de aumentar a base de importados após o novo programa de tributação do governo federal.

O governo Lula recentemente zerou a alíquota de imposto de importação sobre produtos importados por pessoas físicas no valor de até US$ 50. A medida, que beneficia diretamente grandes varejistas estrangeiras como Shein, Shopee e Alibaba, recebeu críticas de empresas varejistas que vendem produtos fabricados no país, que pagam uma série de tributos e encargos trabalhistas.

Com o programa, os estados poderão agora exigir o ICMS sobre as operações de importação, o que até então não acontecia.

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Segundo o Mercado Livre, produtos importados têm um peso pequeno no volume total de vendas no Brasil, seu maior mercado. Mas isso pode mudar com as novas regras, segundo executivos.

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“Defendemos a isonomia de concorrência entre fabricantes e vendedores nacionais e fabricantes e vendedores internacionais. Mas com um imposto que passou de 60% para 0, e agora 17% por causa do ICMS, no nosso ponto de vista, nas nossas contas, não há isonomia com 17%”, disse o principal executivo do Mercado Livre no Brasil, Fernando Yunes, em entrevista para jornalistas na última quarta-feira (30).

“Dificilmente [a alíquota] deve voltar para 60%, mas deveria mover para buscar essa isonomia. Se não houver isonomia, o que vai acontecer é que os estrangeiros vão acabar com vantagens versus os locais. A partir do momento em que estrangeiros têm vantagem e a concorrência começa a andar nessa direção, inevitavelmente o Mercado Livre vai começar a ter fornecimento de fora também”, disse Yunes.

O executivo, que é também vice-presidente sênior (SVP) da gigante de tecnologia, apontou que, “se houver produtos cujos custos importando sejam mais baixos, aos poucos o Mercado Livre pode buscar trazer esse sortimento para o Brasil”.

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Exemplo do México

O Mercado Livre tem experiência com o modelo de negócios de também vender importados em escala maior em outros mercados, ressaltou o executivo.

No México, produtos importados respondem por cerca de 15% do volume de vendas da empresa nesse mercado, segundo Yunes. Em sua última conferência de resultados trimestrais, o Mercado Livre disse que o negócio de produtos importados no México “está performando muito bem”.

“Acredito que seja um ótimo exemplo de como, quando focamos no comércio transfronteiriço e desenvolvemos o produto, podemos obter resultados sólidos. O GMV [Valor Total de Mercadorias transacionados] transfronteiriço no México tem crescido cerca de duas vezes mais do que o GMV local. E isso é um negócio lucrativo”, disse o então CFO Pedro Arnt em conferência no início do mês. O executivo depois deixou a empresa depois de 12 anos e assumiu como co-CEO fintech dLocal.

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Assim como marketplaces que passaram a combinar sellers locais e estrangeiros como Shein, Shopee e AliExpress, o Mercado Livre também tem em sua base vendedores de produtos importados, mas o líder da empresa para o Brasil disse que o volume ainda é “desprezível”, sem revelar os dados.

No México, no Chile e na Colômbia, o Mercado Livre disse que tem observado um crescimento significativo nas vendas de produtos importados.

Os executivos apontaram que estão dispostos a investir nesse segmento no Brasil, desde que os recursos permitam, visando explorar todas as oportunidades e maximizar a sua presença no mercado.

O novo programa de tributação do governo federal, segundo Ariel Szarfsztejn, vice-presidente executivo de Comércio do Mercado Livre, aumenta a carga de impostos para todos.

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“Ainda acreditamos que os cenários ideais em termos de prazos ainda estarão longe da nossa proposta de valor de entrega no mesmo dia e no próximo dia que oferecemos atualmente no Brasil”, disse Szarfsztejn durante a conferência com analistas sobre os resultados do segundo trimestre. “Mas, ao mesmo tempo, o novo programa também apresenta uma oportunidade para o Mercado Livre.”

“Acreditamos que podemos construir e expandir um sólido negócio de comércio transfronteiriço aproveitando nossas próprias forças, como nosso tráfego, a confiança em nossas marcas, nossa infraestrutura de pagamentos, nossa logística local”, disse Szarfsztejn durante a call.

No Chile e na Colômbia, o Mercado Livre disse que está crescendo a venda de importados “em [um ritmo de] três dígitos em cada um desses países”.

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Isabela  Fleischmann

Isabela Fleischmann

Jornalista brasileira especializada na cobertura de tecnologia, inovação e startups