Bloomberg Línea — A rápida adoção da inteligência artificial, como em outros casos de grandes mudanças tecnológicas, tem despertado medo sobre a substituição de empregos, ao mesmo tempo em que gera entusiasmo com mudanças em tarefas cotidianas.
Para Anthony Salcito, General Manager para Enterprise da plataforma global de cursos online Coursera, esse receio só pode ser enfrentado com maior foco em qualificação e com a integração entre IA e capacidades humanas.
Segundo ele, o futuro do trabalho dependerá cada vez mais da combinação entre tecnologia e habilidades como pensamento crítico, liderança e tomada de decisão.
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Essa tendência aparece no mais recente relatório de habilidades da companhia norte-americana, elaborado com base no feedback de cerca de 6 milhões de alunos da plataforma corporativa da empresa.
“Há demanda por IA, com certeza, mas também pelas competências que a complementam para colocar a IA em prática. E, no futuro, a IA que vemos hoje será apenas uma parte de algo que ainda nem conhecemos”, disse o executivo em entrevista à Bloomberg Línea, durante a Global Labor Market Conference, em Riad, na Arábia Saudita.
“Todas essas tecnologias foram recebidas com grande otimismo, mas também com medo sobre o que seria substituído, sejam empregos ou indústrias inteiras”, disse.
“Há outros paradigmas no horizonte, como a computação quântica, que realmente vai liberar uma nova escala e um poder computacional muito maior”, afirmou.
De acordo com o levantamento mencionado por Salcito, competências digitais e relacionadas à IA registraram crescimento superior a 300% na demanda em apenas um ano, o que evidencia o ritmo acelerado com que essas tecnologias vêm sendo adotadas no ambiente de trabalho.
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Ao mesmo tempo, cursos ligados a habilidades humanas tiveram expansão acima de 100%, o que indica que o futuro do trabalho tende a exigir uma combinação entre tecnologia e capacidades humanas.
“Competências digitais, as mudanças digitais e a IA são fundamentais no ambiente de trabalho. E certamente estamos vendo nossos alunos responderem a essa necessidade”, disse.
Esse avanço, no entanto, não se limita ao domínio técnico dessas ferramentas. Para Salcito, a tecnologia por si só não é suficiente para transformar o futuro do trabalho. O diferencial, segundo ele, está na forma como essas soluções são aplicadas.
“Ao longo da história humana, a tecnologia sempre criou a necessidade de novas qualificações. Mas é [uma necessidade sobre] como você aplica essas novas tecnologias para pensar de forma diferente sobre o trabalho que faz, as coisas que cria, como se relaciona. Isso é o que realmente faz a diferença”, afirmou.
Salcito assumiu o cargo de general manager para Enterprise na Coursera em outubro de 2025. Antes disso, trabalhou por 15 anos na Microsoft, em áreas ligadas à educação e ao desenvolvimento de soluções para educadores e estudantes com o uso de novas tecnologias.
A cada mudança tecnológica, se formaram lacunas entre as habilidades disponíveis e aquelas demandadas pelo mercado.
O que muda agora, segundo o executivo, é a escala e a velocidade das transformações, além da necessidade de integrar capacidades técnicas e humanas.
Mentalidade híbrida e resiliência
“Com as capacidades da IA, as pessoas podem realmente liberar suas paixões e aplicar suas ideias de forma concreta para gerar valor. Isso exige uma mentalidade híbrida.”
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Ao olhar para os próximos cinco anos, Salcito disse reconhecer que é difícil prever como será o futuro do trabalho, mas defendeu a noção de que a resiliência e o aprendizado contínuo estarão presentes.
“Tudo começa por estar sempre pronto para novas ideias, desenvolver novas habilidades e ter resiliência”, disse.
“Cada vez mais, no ambiente de trabalho, o que estamos vendo pelos alunos que usam a Coursera é que aprender não é algo pontual; é parte do próprio trabalho.”
Da Arábia Saudita ao Brasil
Na Arábia Saudita, onde o governo local tem implementado a estratégia Visão 2030 para diversificar a economia e reduzir a dependência do petróleo, a demanda por habilidades ligadas à IA cresce acima da média regional, segundo Salcito.
“A Arábia Saudita ocupa o segundo lugar na região em termos de crescimento ativo de matrículas em IA e IA generativa”, disse o executivo.
“Estamos vendo um enorme apetite e entusiasmo, em parte por causa do compromisso com qualificação não apenas do governo mas também das empresas.”
O Brasil, por sua vez, aparece no radar da Coursera como um dos mercados mais relevantes globalmente, com cerca de 7 milhões de alunos que acessam a plataforma de cursos online.
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“Temos mais de dez anos de atuação no Brasil, onde trabalhamos para alinhar as universidades e os parceiros da indústria às habilidades necessárias no mercado de trabalho”, disse.
A empresa trabalha com governos, sistemas universitários e empresas tanto no Brasil quanto na Arábia Saudita, o que permite uma leitura comparativa das necessidades de qualificação. Para o executivo, embora existam diferenças locais, a demanda por habilidades tecnológicas vem se espalhando de forma global.
“Vemos ambas as regiões como parceiros críticos para a Coursera e para o trabalho que fazemos de viabilizar oportunidades futuras para empresas e para o futuro da Arábia Saudita e do Brasil”, disse.
Qualificação
Com cerca de 140 milhões de alunos distribuídos globalmente, a Coursera tem buscado ampliar parcerias com instituições acadêmicas e parceiros da indústria, como Google, Microsoft, Anthropic e OpenAI, com foco em desenvolver conteúdos que combinam conhecimento teórico e aplicações práticas.
“Elas [as empresas] estão criando cursos dinâmicos que combinam conhecimento acadêmico com conteúdo do mundo real vindo de empresas que estão transformando a forma como treinam e escalam suas equipes”, disse o executivo.
Apesar da complexidade do cenário, Salcito afirmou que a tecnologia deve ser encarada como uma oportunidade, sem perder de vista o que torna o trabalho humano.
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“Haverá muita complexidade nos próximos cinco anos, mas é preciso encarar a tecnologia como uma oportunidade e, ao mesmo tempo, preservar o que nos torna humanos: criatividade, conexão, comunicação, colaboração e empatia.”
Segundo ele, esses valores seguem tão importantes hoje quanto em qualquer outro momento da história.
Para ele, reconhecer a importância da qualificação como um pilar estratégico, da Arábia Saudita ao Brasil, e em outras partes do mundo, será decisivo para moldar o futuro do trabalho.
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