Bloomberg — Philipp Navratil teve um início difícil em 2026.
Poucos meses depois de assumir o comando da Nestlé, o CEO da companhia suíça de alimentos enfrenta uma crise crescente de contaminação de fórmulas infantis que se espalhou de um pequeno número de países da Europa para mais de 50 ao redor do mundo em menos de uma semana.
Dezenas de produtos de marcas como BEBA, SMA e Alfamino estão sendo recolhidos, e diversas unidades produtivas foram afetadas após a detecção de cereulida — uma toxina que pode causar náuseas e vômitos — em um ingrediente fornecido por um dos fornecedores de óleo da empresa.
A Nestlé iniciou o recolhimento, nenhum bebê apresentou sintomas e a fabricante afirmou que o impacto financeiro será limitado, mas o dano à reputação já ocorreu.
No Brasil, onde a empresa também decidiu fazer o recolhimento voluntário, o recall envolve alguns lotes das marcas Nestogeno, NAN Supreme, Nanlac Supreme, Nanlac Comfor, NAN Sensitive e Alfamino. A companhia divulgou um comunicado no país detalhando cada lote.
As ações da Nestlé acumulam queda superior a 4% desde o início do recall, e analistas do Jefferies estimam um impacto negativo nas vendas de até 1,2 bilhão de francos suíços (US$ 1,5 bilhão).
A divulgação gradual de novos mercados afetados ao longo desta semana levantou questionamentos sobre a confiança em uma empresa com um histórico controverso quando o assunto é a comercialização de fórmulas infantis.
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Navratil, que assumiu o cargo no ano passado prometendo mais transparência após a saída de seu antecessor em meio a um escândalo envolvendo um relacionamento com uma funcionária da empresa, agora enfrenta seu primeiro grande desafio operacional ao mesmo tempo em que tenta cortar milhares de empregos e reverter o desempenho da companhia.
“É importante que a Nestlé se antecipe ao recall em termos de transparência”, afirmou Christopher Rossbach, diretor de investimentos da J. Stern & Co, acionista da Nestlé. “Um fornecedor falhou. Isso é algo que pode acontecer, mas é preciso transparência radical. É a única forma de lidar com a situação.”

Detecção da toxina
A notícia sobre a possível contaminação chegou ao conhecimento da Nestlé há mais de um mês, após testes realizados pela própria fabricante dentro de seus protocolos de segurança.
A empresa, que também produz café, ração para animais de estimação e chocolate, rastreou a origem da contaminação até um ingrediente conhecido como óleo de ácido araquidônico.
Essa descoberta desencadeou uma reação em cadeia, à medida que a Nestlé identificou os lotes afetados e informou as autoridades locais — um processo dificultado pelo período de festas de fim de ano. O nome do fornecedor não foi divulgado.
Navratil, de 49 anos e veterano da Nestlé, coordenou a resposta a partir da sede da empresa em Vevey, com o primeiro recall iniciado em 10 de dezembro.
“As orientações sobre como lidar com o caso partem do nível mais alto da empresa”, disse um porta-voz da Nestlé. “Philipp Navratil está diretamente envolvido, recebe atualizações diárias e acompanha cada decisão.”
A Nestlé recebeu milhares de ligações nesta semana de pais preocupados, com cada atendimento durando, em média, de alguns minutos a até meia hora, segundo o porta-voz. Ele acrescentou que protocolos rigorosos estão sendo seguidos, uma vez que a fórmula infantil é um produto altamente regulado.
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Uma das principais dificuldades para Navratil e para a Nestlé é que a detecção inicial da cereulida é complexa, e os testes são caros e sofisticados, segundo a professora Monika Ehling-Schulz, da Universidade de Medicina Veterinária de Viena. E, quando a toxina é identificada, o problema está apenas começando.
“Como a molécula é muito pequena, não pode ser removida por filtração. Além disso, devido à sua estrutura, ela resiste a temperaturas muito elevadas”, afirmou Ehling-Schulz, que co-desenvolveu um método padrão para a detecção e quantificação da cereulida. “Em um produto contaminado, portanto, é quase impossível removê-la. As instalações afetadas precisam passar por uma limpeza adequada.”

Os padrões de segurança alimentar em muitos países determinam tolerância zero para a cereulida em produtos, o que significa que nenhum nível detectável é aceitável.
A Holanda teve experiência direta com isso há cerca de 15 anos, quando mais de 100 estudantes adoeceram por intoxicação alimentar após consumirem um prato de arroz contaminado com cereulida. Mesmo quantidades mínimas podem afetar um grande número de pessoas.
“Segurança, qualidade e conformidade não são negociáveis para a Nestlé”, afirmou a empresa em comunicado enviado por e-mail.
A companhia acrescentou que todas as fábricas afetadas foram completamente limpas e “retomaram as operações com gestão de qualidade reforçada, em total conformidade com as exigências das autoridades locais”.
Plano de retomada
O recall representa um desafio inesperado para Navratil, ex-chefe da Nespresso, que tenta revitalizar o desempenho da Nestlé.
Desde que assumiu, ele anunciou planos para cortar 16 mil postos de trabalho, dos quais 4 mil na área de manufatura.
Seu objetivo é redirecionar o foco da empresa para o aumento dos volumes de produtos e do fluxo de caixa, ao mesmo tempo em que busca reconquistar clientes, reduzir a dívida e preservar o dividendo.
Ele também pretende elevar os gastos com publicidade para permitir apostas em menos iniciativas, porém de maior escala.
Enquanto a Nestlé tenta conter os efeitos do recall, a pressão para manter os custos sob controle em toda a empresa tende a aumentar, a fim de garantir o cumprimento das metas estabelecidas.
Esta não é a primeira vez que a Nestlé enfrenta um recall, e alguns episódios foram bem mais graves. Em 2022, duas crianças morreram na França após consumirem pizzas Buitoni Fraîch’Up contaminadas com E. coli.
Ainda assim, o Ministério da Saúde da Áustria descreveu o atual episódio como o maior da história da Nestlé, tendo se expandido de uma ação regional limitada para um alcance que envolve seis continentes.
A Nestlé também enfrentou anos de críticas e boicotes por suas práticas de marketing de fórmulas infantis desde a década de 1970 em países em desenvolvimento, onde o acesso limitado à água potável contribuiu para problemas generalizados de saúde.
Um escândalo ocorrido na China em 2008, envolvendo fórmulas de um fabricante local, alimentou preocupações com segurança no maior mercado mundial desse tipo de produto.
A Nestlé retirou 41 lotes de produtos do mercado. Na quinta-feira (8), autoridades chinesas instaram a empresa a agir rapidamente para proteger os direitos e interesses dos consumidores do país.

Um pequeno alívio para Navratil é o fato de o grande e lucrativo mercado dos Estados Unidos não estar incluído no recall.
O mercado americano de fórmulas infantis é altamente concentrado em poucos fabricantes, e qualquer paralisação temporária das instalações de um fornecedor pode afetar o abastecimento, como ocorreu em 2022, quando a Abbott Laboratories recolheu várias marcas, expondo a fragilidade da cadeia de suprimentos.
Ainda assim, a escala do recall e o tamanho do potencial impacto financeiro são maiores do que parecia inicialmente e do que a Nestlé comunicou no início, segundo Kai Lehmann, analista sênior de pesquisa da Flossbach von Storch, investidora da empresa.
Embora a Nestlé ainda não tenha contabilizado o custo total, a companhia afirmou que o recall representa bem menos de 0,5% das vendas anuais do grupo.
“Analistas estimam um prejuízo três vezes maior”, disse Lehmann. “Quando Philipp Navratil assumiu o cargo, prometeu mais transparência. Ainda que seja compreensível que a empresa precise de algum tempo para organizar tudo, eu esperava mais atualizações até agora.”
A Nestlé afirmou que está focada em conduzir o recall e, ao mesmo tempo, em garantir a manutenção do fornecimento de fórmulas — um ponto de preocupação central para as autoridades locais.
O porta-voz disse que a empresa identificou rapidamente um novo fornecedor de óleo de ácido araquidônico, que passa por processamento adicional em uma unidade produtiva na Suíça.
“A fábrica que processa o óleo opera 24 horas por dia, sete dias por semana, desde segunda-feira”, afirmou. “Podemos conviver com a falta de chocolate nas prateleiras, mas isso não se aplica à fórmula infantil.”
-- Com a colaboração de Sonja Wind e Lisa Pham, e informações adicionais da Bloomberg Línea sobre o recolhimento no Brasil.
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