Bloomberg Línea — Enquanto se prepara para a substituição do fundador Bruno Ferrari como CEO, a Oncoclínicas (ONCO3) enfrenta o desafio de lidar com a necessidade de rolar ao menos R$ 1 bilhão em dívidas em 2026 para honrar vencimentos e cobrir o consumo de caixa projetado para o período.
A rede de clínicas de tratamento do câncer planeja anunciar o nome de seu novo líder executivo nos próximos dias, segundo uma pessoa a par do assunto que falou à Bloomberg Línea e pediu anonimato por discutir informações restritas, após um processo de seleção realizado com a consultoria Spencer Stuart.
A saída de Ferrari ocorre em meio a um processo de redesenho de governança. O fundo Josephina III, veículo da Centaurus Capital, que absorveu a posição original do Goldman Sachs, é o maior acionista, com 18,32%, segundo dados da B3 de 13 de fevereiro.
A gestora Latache detém 14,62%, e Ferrari, 5,01%, participação já diluída após o aumento de capital de novembro de 2025. O Goldman Sachs chegou a deter 60% da Oncoclínicas desde seu primeiro investimento em 2015.
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A mudança de liderança coincide com momento de deterioração do perfil financeiro da empresa, o que levou a dois rebaixamentos consecutivos da Fitch.
O rating da Oncoclínicas caiu de BBB(bra) para CCC-(bra) em 26 de fevereiro, e sete séries de CRIs emitidos pela Opea Securitizadora lastreados em debêntures da companhia foram cortados de BBBsf(bra) para CCC-sf(bra).
No mesmo movimento, a agência rebaixou os ratings da nona, da 11ª e da 12ª emissões de debêntures quirografárias da companhia. O rebaixamento atravessou múltiplos degraus da escala em uma única ação. A distância entre BBB e CCC- representa a diferença entre grau de investimento e risco de inadimplência iminente.
Procurada pela Bloomberg Línea para comentar as informações sobre a mudança de CEO e o rebaixamento da Fitch, a Oncoclínicas não respondeu até a publicação desta reportagem.
A ação da Oncoclínicas acumula queda de 18% neste ano, até o pregão desta terça-feira (3), e desvalorização de 56,5% em 12 meses. A companhia é avaliada em R$ 2,9 bilhões na B3.
A Fitch estima que a Oncoclínicas encerrará 2025 com saldo de caixa inferior a R$ 100 milhões, excluindo R$ 494 milhões em CDBs (certificados de depósito bancário) emitidos pelo Banco Master, classificados pela agência como caixa restrito diante da liquidação extrajudicial da instituição.
Em meio ao redesenho de governança, a Oncoclínicas nomeou Camille Loyo Faria como diretora financeira e de relações com investidores. Faria foi responsável pelas finanças da Americanas no período em que a varejista atravessou sua recuperação judicial.
Nesta terça-feira (3), ela assinou comunicado informando que a companhia obteve decisão judicial para impedir que o BRB (Banco de Brasília) negocie ações da Oncoclínicas que estão em disputa.
O BRB recebeu essas ações após a liquidação extrajudicial do Master, instituição que chegou a deter 15% da companhia.
Necessidade de rolagem de R$ 1 bi
Em setembro de 2025, a dívida bruta da Oncoclínicas era de R$ 4,8 bilhões, composta por debêntures (48%), CRIs (32%), empréstimos bancários (13%) e contas a pagar por aquisições (7%). Para 2026, vencem R$ 745 milhões em dívidas. Em 2027, o volume sobe para R$ 810 milhões.
A Fitch incorpora no cenário-base a necessidade de rolar ao menos R$ 1 bilhão em 2026 para honrar esses vencimentos e cobrir o fluxo de caixa livre negativo projetado para o período, estimado em torno de R$ 275 milhões.
O resultado financeiro de 2025 tem divulgação marcada para o dia 30 de março. O fluxo de caixa das operações deve fechar 2025 negativo em cerca de R$ 600 milhões e permanecer negativo em 2026, em torno de R$ 200 milhões, de acordo com a Fitch.
A alavancagem bruta, que chegou a 8,0 vezes nos 12 meses encerrados em setembro de 2025, deve recuar para 6,0 vezes ao fim de 2025 e para 5,4 vezes em 2026, segundo projeções da agência.
A capitalização de R$ 1,4 bilhão realizada em novembro de 2025, via troca de dívidas por ações, aliviou temporariamente a estrutura de capital da companhia, mas não eliminou o risco de refinanciamento, na avaliação da Fitch.
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A agência aponta ainda R$ 865 milhões em recebíveis em atraso da Unimed-Ferj, renegociados para pagamentos com desconto em até dez anos. A venda de participações no Complexo Hospitalar Uberlândia, concluída em fevereiro de 2026, e no Instituto Materno Infantil de Minas Gerais, ainda pendente, deve gerar aproximadamente R$ 290 milhões.
A Fitch avalia o valor como insuficiente para reduzir de forma relevante o risco de refinanciamento. Do lado operacional, a Fitch projeta Ebitda de R$ 600 milhões em 2025 e R$ 700 milhões em 2026, com margens entre 10% e 12%.
A companhia tem como pano de fundo uma demanda estruturalmente crescente: o Instituto Nacional do Câncer registra cerca de 700 mil novos casos de câncer por ano no Brasil, com expectativa de aumento de 66% até 2040.
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