Bloomberg — O Brasil está novamente importando grandes volumes de diesel com descontos elevados da Rússia, em detrimento das remessas dos Estados Unidos.
A mudança é explicada, em grande parte, por uma recuperação na produção das refinarias russas, depois de uma série de ataques punitivos da Ucrânia.
O Brasil faz parte de uma lista relativamente pequena de destinos para o combustível russo devido às sanções.
Os embarques de diesel russo para o Brasil foram, em média, de cerca de 151 mil barris por dia em janeiro, o maior volume desde junho do ano passado e um aumento de quase três vezes em relação aos cerca de 58 mil barris de dezembro, de acordo com dados da Vortexa.
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Enquanto isso, as importações dos EUA caíram cerca de 20.000 barris por dia mês a mês, outro possível ponto problemático para as refinarias americanas, que já enfrentam a queda das exportações para o México.
“O fornecimento da Rússia é muito barato”, disse Samantha Hartke, chefe de análise de mercado da Vortexa. “Ele tem que ser descontado para fazer essa viagem de longa distância e é um barril em dificuldades.”
Essa é a segunda mudança radical nos “hábitos de compra” de combustível do Brasil em menos de um ano.
O país ponderou os fortes incentivos econômicos para adquirir destilados russos contra as preocupações de ser punido por isso e sua tensa relação comercial com os EUA.

O Brasil passou a importar os combustíveis russos a partir de 2023, com barris com desconto retirados dos mercados europeus.
Mas, no verão do hemisfério norte passado, as tensões entre os EUA e o Brasil aumentaram.
O presidente Donald Trump aumentou as tarifas comerciais sobre o Brasil para 50% antes de publicar uma longa lista de produtos isentos meses depois.
Pouco tempo depois, Trump dobrou separadamente as tarifas sobre os produtos indianos para 50% como penalidade pelas compras de energia russa feitas pelo país. Isso fez com que o setor de petróleo do Brasil avaliasse suas próprias cadeias de suprimentos.
Na mesma época, começou uma onda de ataques ucranianos às refinarias de petróleo russas, prejudicando a capacidade do país de produzir diesel, enquanto a produção nas refinarias dos EUA começou a aumentar com margens favoráveis, disse James Noel-Beswick, chefe de commodities da Sparta.
A participação da Rússia no diesel importado pelo Brasil, que era de cerca de 70% em junho do ano passado, caiu para 19% em novembro. No mesmo período, a participação dos EUA cresceu de 20% para mais de 50%.
Mas essa reversão agora parece ter sido de curta duração.
Com a nova proibição da União Europeia sobre as importações de produtos refinados feitos com petróleo bruto russo, as refinarias da Rússia estão funcionando com dificuldade, disse Hartke.
E com poucos destinos para o combustível além da Turquia e de algumas nações do norte da África, o desconto ficou grande demais para ser ignorado pelos importadores brasileiros, já que o país começa a temporada de colheita de soja.
“De modo geral, estamos vendo a UE se afastar dos barris de diesel russo”, disse o diretor de operações da Valero Energy, Gary Simmons, na teleconferência de resultados da empresa na quinta-feira (29).
“A grande área para a qual vimos que alguns desses barris estavam indo é a América do Sul.”

Se o diesel dos EUA continuar a perder terreno no Brasil, há alguns outros destinos naturais para ele, disse Noel-Beswick.
A longo prazo, o produto americano poderia suplantar os fluxos de diesel indiano perdidos após a proibição da União Europeia sobre as importações de produtos refinados feitos de petróleo bruto russo.
“Desde que a Europa aderiu às sanções contra o diesel russo e o petróleo russo, ela tem impulsionado cada vez mais níveis de diesel dos EUA”, disse Noel-Beswick.
Se os fluxos da Índia para a Europa realmente diminuírem, o país pode acabar enviando mais barris para a África Ocidental e, assim como a Rússia, para o Brasil também.
Com os EUA oferecendo mais alívio tarifário ao Brasil em novembro, o país sul-americano está agora traçando um caminho incerto.
“Há um elemento em que o Brasil está querendo se mostrar um pouco mais agressivo” com os EUA, disse Hartke.
“Há também uma linha muito tênue que o Brasil está percorrendo. Eles querem levar esse produto barato, mas não querem dar muitos sinais de alerta”.
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