Mais caixa, menos dívida: o plano do Magazine Luiza após desalavancagem, segundo o CFO

Em entrevista à Bloomberg Línea, Roberto Bellissimo explica como a varejista saiu de uma posição de risco para encerrar 2025 com mais caixa do que dívida, e o que muda a partir de agora

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Bloomberg Línea — O Magazine Luiza (MGLU3) passou dois anos dizendo que estava pronto para o momento em que o vento mudasse de direção. O caixa cresceu, a dívida encolheu, e esse momento parece que chegou.

A varejista encerrou 2025 com caixa total de R$ 8 bilhões e dívida bruta de R$ 4,9 bilhões, resultado num caixa líquido ajustado de R$ 3,1 bilhões.

Em entrevista à Bloomberg Línea, o CFO Roberto Bellissimo detalhou a estratégia por trás dos números e o que a empresa planeja fazer agora que o ciclo de desalavancagem começa a mostrar resultado.

“Aumentamos o caixa e reduzimos a dívida ao mesmo tempo”, disse. “Nosso objetivo é seguir amortizando essa dívida com geração de caixa.”

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O caixa líquido da varejista saiu de R$ 3,3 bilhões em dezembro de 2024, caiu para R$ 1,6 bilhão em setembro e voltou a R$ 3,1 bilhões no fechamento do ano.

A queda no meio do caminho tem uma explicação, segundo o executivo. Em outubro, o Magalu amortizou R$ 1 bilhão da 10ª emissão de debêntures, incluindo juros. Foi uma saída de caixa intencional e planejada, recomposta no quarto trimestre pela própria operação, de acordo com ele.

“No trimestre, pagamos R$ 900 milhões de dívida e ainda assim o caixa cresceu”, disse Bellissimo.

O cronograma de vencimentos da dívida estão distribuídos ao longo dos próximos anos. São R$ 1 bilhão em 2026, R$ 1,3 bilhão em 2027, R$ 1,6 bilhão em 2028 (o maior vencimento do ciclo), R$ 700 milhões em 2029 e R$ 300 milhões em 2030.

A objetivo é evitar uma concentração de curto prazo e um risco de refinanciamento imediato.

A estratégia da empresa busca reduzir a exposição gradualmente, sem depender de nova captação e sem apostar na queda da taxa Selic como condição necessária.

A despesa financeira líquida subiu quase 47% no último trimestre porque a Selic foi de 10,75% para 15% ao longo de 2024 e 2025.

Bellissimo separa os dois efeitos: parte está atrelada à dívida de balanço e diminui na medida em que é amortizada. A outra parte está atrelada ao desconto de recebíveis, inerente ao modelo de vendas a prazo.

“Antes da pandemia, tínhamos margem Ebitda de 8% e despesa financeira equivalente a 2% da receita líquida. Esse é o patamar que queremos voltar a ter”, afirmou Bellissimo.

Hoje a despesa financeira consome 5,3% da receita, mais que o dobro do nível histórico confortável da companhia. Reduzir essa proporção é o principal desafio financeiro do novo ciclo.

Visão do sell side

Sobre o balanço, o Itaú BBA reconhece a melhora estrutural da Magazine Luiza, mas faz ressalvas. Em relatório distribuído após o resultado, a equipe do banco classifica o quarto trimestre como “negativo” e mantém preço-alvo de R$ 10,00 para o final de 2026.

O ponto central da crítica não é o caixa nem a dívida, é o e-commerce. Enquanto o mercado online brasileiro ainda cresce cerca de 20%, o GMV (volume bruto de mercadorias) online da Magazine Luiza contraiu 5,3% no quarto trimestre.

Para o banco, a diferença em relação aos concorrentes está aumentando justamente onde a intensidade competitiva é maior.

Bellissimo não desvia da questão, mas reposiciona o argumento. “Foi uma escolha estratégica, não uma perda de competitividade”, disse à Bloomberg Línea.

“Escolhemos desacelerar em categorias que tinham margem de contribuição muito negativa, ticket muito baixo, com frete grátis, onde o custo de frete às vezes era mais caro do que o valor do produto”, disse.

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O relatório do Itaú aponta um movimento específico que eleva o nível de risco competitivo para o Magalu: a parceria entre Casas Bahia e Mercado Livre leva eletrodomésticos, eletrônicos e móveis, o núcleo histórico da varejista, para a plataforma do Mercado Livre, aproveitando a vantagem logística da Casas Bahia em itens volumosos.

Na avaliação do banco, isso preenche uma lacuna histórica do Mercado Livre em categorias pesadas e eleva a competição diretamente no nicho no qual o Magalu sempre foi mais forte.

Para o CFO, a resposta está no reposicionamento como branded place, um marketplace de curadoria, com produtos de marca e alto valor percebido. “O Magalu não tem vocação para vender produtos sem marca, sem procedência, sem qualidade”, afirmou.

Aposta na financeira do grupo

O Itaú BBA alerta para duas provisões não recorrentes que melhoram a base de comparação para 2026: uma baixa contábil de R$ 299 milhões em estoques, que reduzirá o custo dos produtos vendidos e elevará a margem bruta em cerca de 0,7 ponto percentual, e um ajuste de R$ 135,9 milhões na equivalência patrimonial da Luizacred, referente à carteira inadimplente acima de 360 dias.

Bellissimo enquadra o movimento como limpeza com efeito positivo à frente. “Ao zerar as expectativas de recuperação dessa carteira, qualquer valor que se recuperar entra direto no resultado da Luizacred”, disse o CFO.

Para Bellissimo, o argumento mais revelador sobre o que esperar de 2026 não está nos números do passado, mas está numa mudança silenciosa que o balanço ainda não captura inteiramente.

Até o final de março, o Magalu prevê migrar 100% da operação de crediário direto ao consumidor para dentro do MagaluPay, a financeira própria independente da parceria com o Itaú.

“A carga tributária é menor, o custo de funding é mais barato e estamos tornando o produto mais robusto”, disse o CFO.

“O CDC [crediário direto ao consumidor] já é muito rentável dentro do varejo. Dentro da financeira, ele tende a ser mais rentável ainda.”

É a aposta de que o próximo ciclo não será vencido apenas por quem vender mais, mas por quem financiar melhor.

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