Bloomberg — Desde que assumiu o comando da Domino’s Pizza Enterprises no último mês de julho, o bilionário do setor Jack Cowin, de 83 anos, reformulou a estratégia de “crescimento a qualquer custo” que havia derrubado os lucros e as ações da empresa. Os investidores ainda não estão convencidos de que está funcionando.
A Domino’s Pizza Enterprise é a maior franqueada da marca de fast food fora dos Estados Unidos.
A reformulação de Cowin gira em torno de reverter o foco da rede australiana em descontos, cupons e promoções do tipo “leve mais, pague menos”. Em vez disso, ele está cortando custos e apostando num cardápio mais simples com pizzas mais caras. Seu objetivo é gerar vendas mais lucrativas para as centenas de franqueados da Domino’s dos quais a empresa depende.
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Em entrevista em seu escritório em Sydney, Cowin disse que as vendas nas mesmas lojas (um indicador-chave acompanhado por analistas) estavam crescendo na Austrália nas duas semanas desde que a empresa divulgou sua atualização mais recente, em 25 de fevereiro.
Embora outros mercados do grupo Domino’s, que inclui Alemanha, França e Japão, estejam em fases diferentes da recuperação, Cowin afirmou que sua reestruturação foi em grande parte concluída.
“Se você consegue ter vendas lucrativas em vez de vendas com desconto, os franqueados ganham mais dinheiro”, disse ele. “É isso que está avançando”.

Para a Domino’s, a virada de Cowin representa uma mudança radical de estratégia. Por anos, a empresa perseguiu volume de vendas acima de quase tudo, inundando bairros com lojas e promoções de pizza para manter o caixa girando. Cowin quer ocupar um terreno mais lucrativo para enfrentar o aumento dos custos e a concorrência das plataformas de entrega de comida.
Dados de um teste recente em lojas da Domino’s na Austrália Ocidental, onde o novo modelo de preços foi introduzido, indicaram que cerca de 10% dos clientes, os mais sensíveis a preço, pararam de comprar pizzas, disse Cowin na entrevista. Mas os lucros naquelas lojas aumentaram, afirmou ele.
O mercado ainda não abraçou a visão de Cowin. As ações da Domino’s caíram quase 90% desde o pico em 2021, quando a pandemia de Covid gerou uma febre por comida via delivery. Na atualização de 25 de fevereiro, a Domino’s informou que as vendas nas mesmas lojas caíram 7,2% nas primeiras oito semanas do ano. As ações despencaram 11% naquele dia.
Os investidores precisam de mais evidências de que as vendas no critério mesmas lojas estão crescendo e gerando melhorias significativas na lucratividade dos franqueados, disse Craig Woolford, analista da MST Financial Services, de Sydney.
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“Neste momento, não estamos vendo esses resultados”, afirmou Woolford, que recomenda manter as ações da Domino’s. “A teoria é muito convincente, mas a realidade costuma ser mais desafiadora”.
No ano passado, um franqueado típico da Domino’s lucrou R$ 383 mil (cerca de 103 mil dólares australianos).
Ainda assim, está muito abaixo dos R$ 606 mil (163 mil dólares australianos) registrados durante a pandemia em 2021. Woolford disse que uma meta mais sustentável seria em torno de R$ 484 mil (130 mil dólares australianos).
Desde que Cowin assumiu o controle como presidente executivo em julho, as ações da rede de pizzarias caíram cerca de 10%, deixando a Domino’s avaliada em apenas R$ 6,3 bilhões (US$ 1,2 bilhão ou 1,7 bilhão de dólares australianos).
Forças econômicas mais amplas também pesam sobre o fast-food na Austrália. As taxas de juros voltaram a subir, agravando a pressão no custo de vida, e a guerra do Irã ameaça elevar ainda mais os preços ao consumidor. A concorrência também cresce, até as lojas de conveniência 7-Eleven estão vendendo pizzas e frango frito numa tentativa de se tornarem destinos de alimentação rápida.
A Domino’s é a segunda empresa com mais apostas contra ela no mercado financeiro, com quase 22% de suas ações em circulação nas mãos de investidores que apostam na queda dos papéis. Num sinal do pessimismo do mercado em relação ao setor, a rede de burritos Guzman y Gomez Ltd. é a ação mais visada por esse tipo de aposta, segundo dados compilados pela Bloomberg.

Cowin é o maior acionista da Domino’s Pizza Enterprises, a maior franqueada da Domino’s Pizza fora dos Estados Unidos. Ele também é dono da rede Hungry Jack’s, que detém a franquia master do Burger King na Austrália. Cowin tem patrimônio líquido de R$ 20,5 bilhões (US$ 3,5 bilhões), segundo o Índice de Bilionários da Bloomberg.
O veterano do McDonald’s Andrew Gregory deve assumir como novo CEO da Domino’s Pizza Enterprises no final de julho. Cowin disse estar disposto a dar a Gregory autonomia para tomar suas próprias decisões, mas o octogenário presidente não tem planos de se afastar. Ele se inspira no aparentemente imorredouro vocalista dos Rolling Stones.
“Tenho a mesma idade que Mick Jagger e fui a shows em que vi Mick Jagger tocando por três horas sem parar”, disse ele. “Enquanto você consegue aparecer, por que não fazer as coisas que gosta?”

Se alguma coisa, Cowin está mergulhando cada vez mais fundo nos detalhes da Domino’s. Para ter uma visão melhor da reestruturação, ele passou a exigir números de vendas diários, em vez de semanais, igualando a frequência das atualizações que recebe do Hungry Jack’s.
“Isso está sendo mudado agora para que possamos ter controle sobre isso”, afirmou.
Cowin aponta as operações da Domino’s na Alemanha e no Benelux, a união econômica da Bélgica, Holanda e Luxemburgo, como exemplos dos lucros que podem ser obtidos sem descontos e cupons.
“Elas não tinham essa mesma heroína nas veias”, disse ele. “Tiveram um negócio muito mais estável, sem ser movido por preço”.
O lucro operacional da Domino’s na Europa saltou 23% no segundo semestre de 2025.
Consequências da guerra
A guerra do Irã, que abalou os mercados de energia, pode ainda complicar a recuperação de Cowin. Preços mais altos de combustível vão encarecer a distribuição de alimentos e insumos às lojas. A escassez de gasolina representaria uma ameaça ainda maior.
“É um risco, mas não há muito que possamos fazer a respeito”, disse ele. “Se ficarmos sem gasolina, não estaremos sozinhos.” No fim, os custos mais altos — incluindo a inflação dos alimentos — seriam repassados em grande parte aos clientes, afirmou.
A Domino’s está mais bem preparada para um salto nos custos do que estava há um ano, segundo Cowin. Seu plano de reestruturação está retirando cerca de R$ 372 milhões em despesas com alimentos, tecnologia e outros itens do negócio.
E cortar gastos é território familiar. Cowin cresceu numa casa de dois quartos: seus pais num quarto, e ele e sua irmã no outro. Quando seu tio voltava do turno noturno na Ford Motor Co., tomava a beliche de baixo. “A cama nunca ficava vazia”, disse Cowin.
Uma lição importante desse período de frugalidade: “Não desperdice dinheiro”, afirmou.
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