Bloomberg Línea — O Ministério de Portos e Aeroportos prevê realizar em dezembro o leilão de repactuação da concessão do Aeroporto de Brasília, que passará a incorporar dez aeroportos regionais ao contrato atual. Em abril, a pasta havia indicado que o certame poderia ocorrer em novembro.
A concessionária Inframerica, formada por Corporación América Airports (51%) e Infraero (49%), administra o terminal de Brasília desde 2012. A concessão ficou deficitária após a crise econômica, a pandemia e a demanda aquém do esperado.
Em vez de relicitar a operação, o Tribunal de Contas da União (TCU) e o governo optaram por repactuar a concessão, com outorga variável de 5,9% da receita bruta, R$ 557 milhões de entrada e dez aeroportos regionais.
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O aeroporto da capital federal é o terceiro mais movimentado do país, atrás apenas de Guarulhos e Congonhas, em São Paulo. Em 2025, foram 157.135 pousos e decolagens, 6,2% a mais que no ano anterior, segundo dados da Aeronáutica.
A maior parte do movimento vem de voos comerciais, que somaram 116.404 operações e cresceram 7% no ano passado. A aviação geral, formada por jatinhos e aeronaves particulares, teve 31.838 operações, com alta de 8,5%. Já os voos militares caíram quase 9%, para 8.893.
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O processo de repactuação está na fase de consulta pública do edital, segundo a assessoria de comunicação da pasta.
A medida amplia o modelo já testado no Galeão, no Rio de Janeiro, e cria uma alternativa de gestão para terminais de menor porte que hoje têm dificuldade de atrair investimento isolado.
Os aeroportos incluídos são Juína, Cáceres e Tangará da Serra, em Mato Grosso; Alto Paraíso de Goiás e São Miguel do Araguaia, em Goiás; Bonito, Dourados e Três Lagoas, em Mato Grosso do Sul; Ponta Grossa, no Paraná; e Barreiras, na Bahia.
O gatilho da repactuação é o modelo adotado desde a concessão do Galeão, em que o operador de um hub maior assume terminais regionais deficitários como forma de viabilizar sua operação conjunta.
Paralelamente, a pasta conduz estudos técnicos para uma segunda etapa do programa AmpliAR, voltado à gestão de aeroportos de menor porte, que deve trazer um novo conjunto de terminais além dos dez já definidos para Brasília.
Há hoje um cenário de crescimento consistente da aviação doméstica. O Brasil saiu de 98 milhões de passageiros em 2022 para quase 130 milhões em 2025, com 44,3 milhões registrados nos quatro primeiros meses de 2026.
Entre janeiro e maio, foram mais de 42 milhões de passageiros em rotas domésticas, alta de 5,6% ante o mesmo período do ano anterior, com Norte e Nordeste puxando o crescimento, segundo o ministério.
O aumento de cerca de 50% no preço do querosene de aviação pressiona a estrutura de custos das companhias aéreas, mas o ministério afirma que o principal desafio dos aeroportos regionais não é a saturação da infraestrutura, e sim a ampliação da oferta de voos e da conectividade entre as regiões atendidas.
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Outra frente de repactuação em curso é o aeroporto de Viracopos, em Campinas, cujo acordo está em negociação no Comitê de Autocomposição conduzido pela Anac (Agência Nacional de Aviação Civil).
Diferentemente do modelo de Brasília, essa via não prevê abertura de leilão concorrencial. Os leilões aeroportuários, segundo o ministério, permanecem abertos à participação de investidores nacionais e estrangeiros sem restrições.
Análise do setor
Para o setor de aviação geral, a ampliação do modelo de repactuação é lida como pré-requisito de qualquer política de aviação regional, e não como consequência dela.
A avaliação é de Flávio Pires, presidente da ABAG (Associação Brasileira de Aviação Geral), para quem o desenho do AmpliAR responde a uma limitação de caixa do poder público na manutenção de terminais de menor porte.
“O governo não tem competência para cuidar, não tem braço, não tem dinheiro, não tem recurso”, disse Pires à Bloomberg Línea.
A ordem dos fatores é o ponto de atenção apontado por ele. Antes de operar malha regional, esses aeroportos precisam ter terminal de passageiros, estacionamento, sanitários e separação entre áreas de carga e de embarque, além de sinalização horizontal, cerca perimetral e auxílio meteorológico em funcionamento, itens que afetam diretamente a segurança operacional. “O berço vem primeiro que o bebê”, disse.
O interesse da aviação de negócios nesse pacote é direto. A maior parte dos terminais regionais incluídos em programas de repactuação hoje não recebe voos das grandes companhias aéreas Latam, Gol ou Azul, e é utilizada sobretudo por aeronaves executivas, agrícolas e de táxi aéreo, o que faz com que o investimento em infraestrutura destinado à aviação comercial se converta em ganho operacional para o segmento privado.
Pires também avalia que a seleção dos terminais precisa observar vocação econômica local, com prioridade para destinos turísticos e regiões de maior concentração de negócios e industrialização, sob risco de replicar aeroportos ociosos.
Sobre quem deve assumir os ativos, a leitura da ABAG é de predominância do capital estrangeiro, com operadores como Aena, Fraport, Zurich Airport e Vinci Airports, movimento reforçado pela saída da Motiva, ex-CCR, do negócio aeroportuário.
A companhia vendeu toda a sua operação de 20 aeroportos, sendo 17 no Brasil, para a mexicana Aeropuerto de Cancún, subsidiária do Grupo Aeroportuario del Sureste, em transação de R$ 11,5 bilhões anunciada em novembro de 2025 e aprovada pela diretoria colegiada da Anac em 12 de junho de 2026.
Procuradas pela reportagem, a ZurichAirport International respondeu que não comenta eventual participação em oportunidades específicas ou avaliações de mercado em andamento.
“O que podemos dizer é que o Brasil segue sendo um mercado estratégico e prioritário para o grupo, e continuamos acompanhando oportunidades alinhadas à nossa estratégia de longo prazo e aos nossos critérios de investimento”, disse a companhia, por meio de sua assessoria de imprensa.
Aena e a Vinci não responderam imediatamente ao pedido de comentário. A Fraport informou que não vai se manifestar sobre o tema.
Investimento de R$ 17 bi em infraestrutura
O pacote de investimentos em infraestrutura de transportes para 2026 soma cerca de R$ 17 bilhões entre portos, aeroportos e hidrovias, segundo o Ministério de Portos e Aeroportos.
Na área aquaviária, a pasta avança na concessão da Hidrovia do Paraguai, que prevê viabilizar a navegabilidade em pouco mais de 600 quilômetros do Tramo Sul do rio, com potencial para uso turístico além do transporte de cargas.
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