Justiça encerra recuperação judicial da Americanas três anos e nove meses após fraude

Sentença da 4ª Vara Empresarial do Rio declara cumpridas as obrigações do plano no prazo de dois anos e rejeita objeções de bondholders; decisão ainda cabe recurso, e as frentes criminais contra ex-executivos seguem abertas

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Bloomberg Línea — A Justiça do Rio de Janeiro decretou na segunda-feira (19) o encerramento da recuperação judicial da Americanas (AMER3), três anos e nove meses após a revelação de uma fraude contábil de R$ 25,3 bilhões. A fraude levou a varejista a pedir proteção contra credores com dívidas de R$ 43 bilhões.

Com a decisão, a companhia deixa de operar sob supervisão judicial e poderá retirar a expressão “em Recuperação Judicial” de sua denominação nos registros oficiais.

Em abril, executivos da companhia disseram à Bloomberg Línea esperar que o fim do processo levasse analistas de bancos a retomar a cobertura da ação, que não era acompanhada por nenhum deles desde a crise.

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A sentença, do juiz Arthur Eduardo Magalhães Ferreira, da 4ª Vara Empresarial do Rio, declara cumpridas as obrigações do plano com vencimento em até dois anos após a homologação, ocorrida em 26 de fevereiro de 2024.

A decisão vale também para três subsidiárias: B2W Digital Lux, JSM Global e ST Importações. Ela foi proferida após pareceres favoráveis da administração judicial e do Ministério Público do Rio de Janeiro e permanece sujeita a recursos, segundo fato relevante divulgado à noite.

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“O encerramento da recuperação judicial representa um marco importante na trajetória da Companhia e inaugura uma nova etapa de seus negócios”, afirmou a Americanas em comunicado ao mercado, assinado pelo diretor financeiro e de relações com investidores, Sebastien Durchon.

As ações da varejista fecharam a segunda-feira em alta de 6,99%, a R$ 5,97.

Ações da Americanas (AMER3)

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Objeções rejeitadas

A Americanas pediu o encerramento do processo em 25 de março. Na reta final, credores titulares de títulos de dívida emitidos no exterior, os bondholders, contestaram a saída. Eles alegaram que seus créditos haviam sido convertidos de dólares para reais sem sua anuência, o que teria resultado em pagamento a menor.

Titulares de bonds já haviam questionado em 2024 o critério de conversão cambial, com pedido de pagamento adicional de US$ 10 milhões, como mostrou a Bloomberg Línea na época.

O juiz rejeitou a objeção. Na sentença, ele afirma que a conversão seguiu uma cláusula do plano conhecida pelos credores ao menos desde maio de 2024, quando a administração judicial divulgou o resultado do leilão reverso.

Segundo a decisão, os objetores aprovaram o plano em assembleia sem ressalvas e assinaram os instrumentos de adesão. O magistrado também apontou que a homologação de 2024 não foi impugnada por eles, o que torna preclusa a tentativa de rediscutir as cláusulas.

O juiz também afastou, como obstáculo ao encerramento, manifestações de fornecedores e locadores de imóveis que tratavam de pagamentos, pedidos de informação e habilitações de crédito. Para ele, o exame nessa etapa se limita a verificar o pagamento das obrigações vencidas no biênio e não depende da consolidação do quadro geral de credores.

A sentença ressalva que qualquer credor que se considere prejudicado por descumprimento do plano poderá pedir a execução específica ou a falência, como prevê a Lei de Recuperação Judicial. Os incidentes de habilitação e impugnação de crédito pendentes seguirão na mesma vara. A administração judicial tem 15 dias para apresentar relatório sobre a execução do plano e 30 dias para a prestação de contas.

Prazo além do previsto

A decisão chega mais tarde do que os executivos projetavam. Em entrevista à Bloomberg Línea em abril, Durchon estimou que o aval da Justiça sairia até julho. “A saída antecipada da recuperação judicial é um recado forte de confiança no futuro”, disse na ocasião. Em junho, o CFO passou a trabalhar com a expectativa de uma sentença no terceiro trimestre.

Na mesma entrevista de abril, o CEO Fernando Soares reconheceu que nenhum analista de banco cobria a ação e disse esperar a retomada dessa cobertura após o fim formal do processo. “Enquanto estamos em recuperação judicial é complicado. O analista de banco não quer cobrir uma empresa em recuperação judicial”, afirmou.

Resultados e venda de ativos

A Americanas sai da recuperação judicial menor do que entrou. A rede tinha 1.863 lojas em setembro de 2022 e encerrou março de 2026 com 1.448 unidades.

Em 2025, a companhia registrou lucro líquido de R$ 98 milhões nas operações regulares, ante prejuízo de R$ 182 milhões em 2024. Pela primeira vez desde o escândalo, o caixa de R$ 2,5 bilhões, incluindo recebíveis de cartão, superou a dívida bruta, de R$ 2 bilhões.

O quadro mudou neste ano. No segundo trimestre de 2026, a Americanas teve prejuízo líquido de R$ 274 milhões, ante perda de R$ 98 milhões no mesmo período de 2025. A receita líquida caiu 1,7%, para R$ 3,3 bilhões, em um trimestre afetado pela Páscoa, que deslocou vendas para os três primeiros meses do ano.

No semestre, as vendas mesmas lojas avançaram 9,3%. A companhia encerrou junho com dívida líquida de R$ 1 bilhão, depois de ter fechado 2025 com caixa líquido de R$ 488 milhões.

O programa de desinvestimentos incluiu a venda da Uni.co, dona da Imaginarium e da Puket, à BandUP!. A operação foi concluída em julho, pelo preço final de R$ 162 milhões.

Em maio, a Americanas acertou a venda de dez lojas da rede Hortifruti Natural da Terra ao Grupo Fartura, dono do Oba Hortifruti, por R$ 69,3 milhões. O valor equivale a cerca de 3,3% dos R$ 2,1 bilhões pagos pela rede inteira em 2021, sob a gestão do ex-CEO Miguel Gutierrez.

Para elevar a receita das lojas, a varejista passou a ceder espaço a marcas parceiras, como WePink e Panini, no modelo conhecido como store in store. A empresa também lançou a Americanas Ads, unidade de mídia que explora a base de 37 milhões de clientes identificados. “Não estamos abrindo lojas em volume. Estamos otimizando metragem das que já temos”, disse Soares à Bloomberg Línea em junho.

Da fraude ao plano de recuperação judicial

A crise começou em 11 de janeiro de 2023, quando a Americanas comunicou “inconsistências contábeis” estimadas em R$ 20 bilhões. O valor foi revisado depois para R$ 25,3 bilhões. Sergio Rial, que havia assumido o comando havia menos de duas semanas, renunciou no mesmo dia, e as ações caíram 77% no pregão seguinte.

Oito dias depois, a empresa pediu recuperação judicial com dívidas de R$ 43 bilhões e 16.300 credores. O plano foi aprovado em assembleia em dezembro de 2023. Ele previa descontos de até 80% para parte dos credores e um aumento de capital de R$ 24,5 bilhões, com aporte em dinheiro de R$ 12,3 bilhões dos acionistas de referência Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira. Bancos credores converteram parte da dívida em ações.

O fim da recuperação judicial não encerra os desdobramentos da fraude em outras esferas. Gutierrez foi preso pela Interpol em Madri em junho de 2024, no âmbito da Operação Disclosure, da Polícia Federal, e liberado no dia seguinte pela Justiça espanhola. A ordem de prisão foi revogada depois pelo Tribunal Regional Federal da 2ª Região. Em outubro daquele ano, a CVM acusou o ex-CEO e outros sete ex-executivos de uso de informação privilegiada. O ex-CEO nega irregularidades.

Em 25 de junho deste ano, a PF deflagrou a segunda fase da operação. Entre os alvos de mandados de busca e apreensão estavam Sicupira e Paulo Alberto Lemann, filho de Jorge Paulo Lemann. Executivos e ex-executivos de Itaú, Santander e Bradesco também estavam entre os investigados, segundo a Bloomberg News. Um porta-voz da LTS Investments, family office que representa Sicupira e Lemann, disse na época que os acionistas foram “repetidamente enganados pela antiga gestão”.

Na semana passada, a Justiça Federal tornou réus 12 ex-executivos da Americanas acusados de envolvimento na fraude. Em nota, a Americanas afirmou ter sido vítima de uma fraude “estruturada e de natureza dolosa” cometida por ex-executivos.

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