Império de Tanure se desfaz em meio a investigação sobre laços com o Banco Master

Autoridades congelaram ativos do empresário, ações de suas empresas recuam e um aperto de crédito força vendas relevantes; representante diz que Tanure nunca foi sócio do Master e apenas se relacionou com a instituição como cliente

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Bloomberg — Por anos, Nelson Tanure foi um titã do empresariado brasileiro. Ele investiu em mais de 200 empresas em dificuldade e usou esses ativos para construir grandes grupos corporativos, em setores que vão de petróleo a telecomunicações.

Agora, enquanto investigadores apuram se ele foi um sócio oculto do Banco Master, que entrou em colapso, o império de Tanure começa a se desfazer: autoridades congelaram parte de seus ativos; um aperto de crédito o forçou a liquidar participação em seu principal negócio; e ações de várias de suas empresas caíram.

Tanure, de 74 anos, já esteve envolvido em controvérsias. Ele enfrentou acionistas minoritários na Justiça e foi multado por violações às regras do mercado de capitais.

Mas o escândalo do Banco Master o colocou no centro do que rapidamente se transforma em um dos maiores casos de corrupção da história do Brasil.

Estão sob análise uma série de transações financeiras que parecem ligá-lo ao banco e ao seu ex-CEO, Daniel Vorcaro, que está preso em Brasília.

“Há anos existem questionamentos sobre a escala e a origem de seu financiamento”, disse Cesar Fernandez, sócio da Alpha Credit Advisors, referindo-se a Tanure. “O que está emergindo da investigação sugere um ecossistema complexo e circular de recursos ligados ao Banco Master que parece ter sustentado muitas de suas posições empresariais.”

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Segundo documentos analisados pela Bloomberg News, Tanure investiu ao menos R$ 1,6 bilhão no Banco Master desde 2020, por meio de veículos como a Estocolmo e um fundo offshore chamado Aventti Strategic Partners LLP.

Esses veículos foram usados para comprar títulos da Banvox, uma holding cujo único investimento era o Banco Master. As aquisições foram seguidas rapidamente por aumentos de capital de valores semelhantes no Banco Master.

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Embora os títulos não fossem conversíveis em ações, desde dezembro de 2022 alguns passaram a poder pagar cupons com ações da Banvox. Ainda não está claro se esses pagamentos em ações chegaram a ocorrer, mas, caso tenham sido feitos, significariam que Tanure se tornou acionista do banco.

Um representante de Tanure disse que o empresário nunca foi sócio, controlador ou beneficiário direto ou indireto do Banco Master e apenas se relacionou com a instituição como cliente. O representante acrescentou que as debêntures emitidas pela Banvox não permitiam conversão em ações em caso de inadimplência, e que Tanure confia que os fatos serão esclarecidos pelas investigações em curso.

‘Introvertido’ discreto

Por volta de 2020, Tanure conheceu Vorcaro, então principal acionista do Banco Master, por meio de Maurício Quadrado, ex-sócio do banco, segundo pessoas com conhecimento do assunto que falaram com a Bloomberg News.

Os dois criaram laços apesar de estilos de vida muito distintos. Tanure se descreveu como “introvertido” e “solitário” e raramente concede entrevistas, preferindo tragédias de Shakespeare e música clássica a eventos sociais, segundo uma conversa em podcast com um gestor em 2024.

Ele é conhecido por vestir roupas discretas, sem marca, e afirmou, no mesmo podcast, ter orgulho de que seus quatro filhos sempre viajaram em classe econômica.

Já Vorcaro, de 42 anos, possui jato particular e costuma exibir sua riqueza em público — promovendo festas em iates durante o Grande Prêmio de Mônaco e uma festa de 15 anos para a filha que teria custado quase US$ 3 milhões.

Ele se relacionou com a influenciadora Martha Graeff e aparecia com frequência em publicações dela em destinos de luxo. Os dois chegaram a realizar uma festa de noivado em Roma, mas se separaram recentemente.

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O gosto por luxo também se refletia em presentes a amigos. Segundo mensagens de WhatsApp divulgadas pela Polícia Federal, Vorcaro deu a Tanure um relógio da marca suíça Jaeger-LeCoultre, de acordo com a imprensa. As mensagens também revelaram o apelido que Vorcaro usava para o empresário: “grande comandante”.

Tanure confirmou, por meio de seu representante, que recebeu o relógio como presente de aniversário de 70 anos, em 2021.

Vorcaro foi preso pela segunda vez no início de março, sob acusações de ter ameaçado atacar um dos jornalistas mais conhecidos do Brasil, de supervisionar funcionários que acessaram sistemas do FBI e da Interpol sem autorização e de interferir nas investigações do caso Banco Master.

Por meio de seus advogados, ele se recusou a comentar. Na semana passada, firmou um acordo de colaboração com autoridades federais, informou a Bloomberg News.

Operações com títulos

Muitas das transações sob análise dos reguladores ocorreram nos últimos anos, à medida que os negócios de Tanure e o Banco Master parecem ter se tornado cada vez mais interligados.

Um exemplo é a rede de supermercados Dia, que Tanure adquiriu em recuperação judicial em 2024 com recursos geridos pelo Banco Master.

Em dezembro de 2025, a empresa informou ter usado cerca de 70% de seu caixa — aproximadamente R$ 163,3 milhões à época — para comprar títulos do Letsbank, instituição do grupo Master, segundo documentos da companhia.

A Empresa Metropolitana de Águas e Energia (Emae), da qual Tanure era acionista, também adquiriu R$ 140 milhões em títulos do Banco Master, o equivalente a 5,88% dos ativos totais da companhia em novembro de 2025.

Um representante de Tanure afirmou que, durante o período em que o empresário foi cliente do Banco Master, não havia indícios de irregularidades nas atividades da instituição.

As aquisições ocorreram quando os títulos apresentavam bom retorno e seguiram padrão adotado por outras empresas, disse.

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A área técnica da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) apontou atuação “interdependente e coordenada” entre Tanure, o Banco Master e o CEO da Ambipar para adquirir ações da empresa de gestão de resíduos e elevar seu preço em 2024, segundo relatório do regulador. Todos negaram irregularidades.

A operação contribuiu para elevar o valor da participação do Banco Master na empresa, segundo a CVM, enquanto Tanure utilizou ações da Ambipar como garantia em uma estrutura de dívida para financiar a aquisição da Emae.

O representante de Tanure afirmou que ele comprou ações da Ambipar após os eventos analisados pela CVM, razão pela qual foi excluído do processo sobre eventual oferta pública obrigatória. O regulador acabou não tomando medidas contra ele.

Tanure e Tercio Borlenghi Junior, CEO da Ambipar, perderam o controle da Emae após o não pagamento da dívida. A Ambipar entrou com pedido de recuperação judicial em outubro, e credores, incluindo o Bradesco, moveram ação para responsabilizar a administração por uma possível “fraude ostensiva”.

Banco Master e Tanure também utilizaram serviços e fundos da gestora Trustee DTVM, controlada por Quadrado. Fundos administrados pela Trustee são investigados pela Polícia Federal em operação para desarticular esquemas de lavagem de dinheiro ligados à distribuição de combustíveis.

Os advogados de Tanure afirmaram que o empresário não é responsável pelas operações de bancos, corretoras ou gestoras das quais foi cliente.

Assumindo riscos

Ao longo de dois anos, a partir de 2021, Tanure utilizou fundos geridos pela Trustee para assumir o controle da Alliança Saúde, com a corretora do Banco Master atuando como sua representante em leilão na B3.

Em 2023, ele pagou R$ 891 milhões para adquirir o restante da companhia. Em dezembro, a CVM reabriu investigação sobre a operação, segundo a imprensa local, para apurar por que a oferta pública não foi iniciada dentro do prazo de 30 dias.

Na semana passada, a Alliança Saúde obteve proteção judicial emergencial contra credores ao enfrentar dificuldades para honrar pagamentos de dívida.

O representante de Tanure afirmou que a oferta pública sempre fez parte do plano de aquisição e foi executada com recursos disponíveis.

“Assumi riscos. Acho que a capacidade de assumir riscos é importante e deve ser mais desenvolvida”, disse Tanure no podcast de 2024, ao comentar sua trajetória. “É o risco que gera riqueza.”

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Na mesma conversa, ele afirmou que passou a investir em ativos em dificuldade por falta de capital. Se tivesse recursos, disse, teria comprado ações de empresas como Alphabet e Microsoft.

“Eu não tinha um centavo”, afirmou. “Tive que buscar negócios em que minha capacidade de trabalhar, produzir — seja esforço físico ou intelectual — fizesse diferença.”

Tanure nasceu na Bahia e se formou em administração em meados da década de 1970 em uma universidade pública do estado. Estudou por um período em Paris e depois passou a trabalhar na empresa imobiliária de seu pai.

Insatisfeito com as poucas oportunidades na Bahia, mudou-se para o Rio de Janeiro em 1977 e começou a investir em empresas em dificuldade. Um de seus primeiros investimentos foi uma participação minoritária na Sequip, empresa de serviços de petróleo e gás.

Ao longo dos anos 1990, investiu em companhias de engenharia e do setor naval, incluindo Verolme e Ishibras. Em 2001, comprou a Companhia Docas do Rio de Janeiro, que transformou em uma de suas holdings mais conhecidas, a Docas Investimentos SA.

Após incursões menores em telecomunicações, ganhou notoriedade ao tentar adquirir a Oi, que em 2016 enfrentava um dos maiores processos de recuperação judicial da história do Brasil.

Comprou os jornais Jornal do Brasil e Gazeta Mercantil, mas afirmou não ter conseguido torná-los lucrativos e os fechou pouco depois.

Também investiu em imóveis, integrou o conselho da Gafisa em 2019 e ajudou a transformar a Prio em uma das maiores empresas de petróleo do país.

Tanure também adquiriu participação na Light, distribuidora de energia do Rio de Janeiro, usando fundos geridos pela Trustee.

O Banco Master também comprou ações da Light, que foram vendidas ao BTG Pactual quando o banco buscava levantar recursos em 2025.

Nem todas as investidas de Tanure em ativos em dificuldade resultaram em negócios. Em 2023, perdeu para outro empresário brasileiro na tentativa de adquirir as operações da UnitedHealth Group no país. No ano seguinte, desistiu de planos de ser investidor âncora na privatização da Sabesp.

No ano passado, Tanure planejava adquirir o controle da Braskem, uma das maiores petroquímicas do mundo.

Sua participação gerou preocupação entre investidores, que temiam uma reestruturação da dívida. Ele abandonou o plano diante do possível impacto de um desastre em Alagoas sobre o balanço da empresa, segundo seu representante.

Ao tentar comprar o Grupo Pão de Açúcar (GPA) em 2024, Tanure utilizou recursos da Reag Trust Administração de Recursos, segundo a Bloomberg News e a imprensa local.

A gestão desses fundos foi transferida para a Trustee em janeiro de 2025. A Reag também é investigada pelas autoridades brasileiras no âmbito da operação de lavagem de dinheiro.

O advogado de Tanure afirmou que ele nunca foi cliente da Reag.

Pressões financeiras

No ano passado, os juros mais altos do Brasil em duas décadas começaram a pressionar o portfólio de empresas altamente alavancadas de Tanure, bem como a série de empréstimos contraídos com ações dadas em garantia para financiar novas aquisições.

Mais recentemente, com o agravamento dos problemas no Banco Master, Tanure passou a enfrentar um aperto de crédito.

Em fevereiro, credores iniciaram a execução de parte de suas participações na Alliança Saúde e na Light. Tanure já havia vendido quase toda sua fatia na Prio — considerada a joia de sua carteira — e também sua empresa de telecomunicações Ligga Telecomunicações para pagar dívidas.

Tanure continua em busca de boas oportunidades e segue comprometido com o crescimento das empresas em que investiu, disse seu representante.

“A capacidade de recuar e mudar de direção é uma grande virtude. Já recuei muitas vezes na vida”, afirmou no podcast. “Quando você percebe que vai perder, não há problema. Recuar, se fortalecer — e voltar.”

-- Com a ajuda de Daniel Carvalho, Mariana Durão e Leda Alvim.

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