Bloomberg — O CEO da WiseTech, Zubin Appoo, disse que as economias impulsionadas pela inteligência artificial devem, com o tempo, se estender a toda a empresa, poucas horas após a desenvolvedora de software para o setor de frete anunciar planos de cortar cerca de 30% de sua força de trabalho nos próximos dois anos.
“Analisaremos todas as funções do negócio”, disse Appoo em entrevista na quarta-feira. “Tenho uma convicção forte de que a IA e os grandes modelos de linguagem vão impulsionar a produtividade em todas essas áreas. Não posso dizer se isso será 50%, 70% ou 30%.”
Alguns projetos que antes levavam seis ou sete meses já podem ser concluídos em um único dia, afirmou Appoo. A implementação de capacidade alfandegária global em um novo país, que antes demorava até dois anos, pode agora ser realizada seis ou sete vezes mais rápido graças à IA, disse ele.
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Os planos de Appoo de eliminar 2.000 cargos — de um total de cerca de 7.000 funcionários — como parte da reestruturação orientada por IA representam os maiores cortes desse tipo na Austrália.
Embora gigantes de tecnologia como a Amazon.com e a Meta Platforms estejam investindo centenas de bilhões de dólares para adotar a IA, poucos estão promovendo reduções tão rápidas ou profundas quanto a WiseTech, com sede em Sydney.
Em uma adoção ampla e transparente da IA, Appoo detalhou o que descreveu como benefícios sem precedentes para a WiseTech.
“Este é um dos pontos de inflexão mais importantes em nossos mais de 30 anos de história”, afirmou anteriormente em teleconferência após a divulgação de resultados.
IA significa mais produtividade, em menos tempo e com menos pessoas, disse ele.
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A base de custos da empresa será enxugada, e a economia do desenvolvimento de software será remodelada. Em algumas áreas da força de trabalho, como atendimento ao cliente, um em cada dois funcionários deixará a empresa, acrescentou Appoo.
“Estou preparado para dizer isso claramente: a era do código escrito manualmente como principal atividade da engenharia acabou”, declarou Appoo.
A IA está “desbloqueando níveis de ganhos de eficiência em toda a WiseTech que antes estavam fora de alcance”.
As ações da WiseTech chegaram a subir 11% nas negociações em Sydney na quarta-feira.
Até então, os papéis acumulavam queda de 37% no ano, pressionados por preocupações de que a inteligência artificial tornaria redundante o software de frete da empresa.
Os cortes ocorrem poucos dias após a Citrini Research reacender o chamado “comércio assustador da IA” ao traçar um cenário hipotético que incluía ruptura corporativa em larga escala impulsionada por IA, desemprego em massa, inadimplência em empréstimos lastreados em software e contração econômica.

Appoo afirmou que funcionários da WiseTech que lidam diretamente com clientes ou atuam em vendas ainda exigem alto nível de contato pessoal.
No entanto, empresas ao redor do mundo vêm citando cada vez mais a IA como fator que permite reduzir quadros e desacelerar contratações.
Desenvolvedores de software podem estar entre os mais afetados, já que sistemas avançados de IA conseguem executar tarefas tradicionalmente realizadas por humanos, como programação.
No Reino Unido, empresas relataram que a IA levou a uma perda líquida de 8% dos empregos no ano passado, segundo estudo do Morgan Stanley divulgado no mês passado — o nível mais alto entre companhias alemãs, americanas, japonesas e australianas analisadas.

Durante a teleconferência da WiseTech, Appoo afirmou que a IA permitirá à empresa entregar mais valor e integrar seus produtos de forma mais profunda às operações dos clientes. Os cortes ocorrerão neste e no próximo ano fiscal.
A apresentação divulgada na quarta-feira retrata um futuro em que profissionais com habilidades e conhecimento especializado continuam essenciais, mas atuando ao lado de “enxames” de agentes de IA supervisionados por humanos.
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A WiseTech desenvolve softwares que ajudam empresas — de transportadoras a companhias de logística — a planejar e gerenciar o fluxo global de mercadorias, desde o rastreamento de contêineres até processos alfandegários.
Appoo reconheceu que a IA representa ameaça para outras empresas de software que cobram por número de usuários, mas disse que esse risco não se aplica à WiseTech.
O software da companhia está no centro do comércio e da logística globais e não pode ser substituído, afirmou. “Não é uma sobreposição.”
Segundo o que a WiseTech descreve como “transformação profunda de IA”, funcionários das áreas de produto e desenvolvimento, além de atendimento ao cliente, serão os primeiros afetados, inclusive na E2open, sediada nos EUA, adquirida no ano passado na maior compra da história da companhia.
O lucro líquido subjacente subiu 2%, para A$ 114,5 milhões (US$ 81 milhões), nos seis meses encerrados em 31 de dezembro.
A receita total avançou 76%, para A$ 672 milhões, incluindo cinco meses de contribuição da E2open. Em base orgânica, as vendas cresceram 7%.
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Antes de os temores relacionados à IA pressionarem as ações, a WiseTech já havia enfrentado um período turbulento após alegações, surgidas no fim de 2024, sobre a conduta do então CEO e fundador Richard White.
Appoo foi nomeado CEO em julho do ano passado, em parte para responder às preocupações de governança dos investidores. White atualmente ocupa o cargo de presidente da WiseTech.
--Com a ajuda de Ville Heiskanen.
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