Bloomberg Línea — A captura de Nicolás Maduro pelas forças armadas dos Estados Unidos no último sábado (3) abriu a perspectiva de um cenário de mudanças potenciais na economia venezuelana, com atenção particular de empresas brasileiras com operações no país vizinho - ou que tiveram negócios até poucos anos atrás.
Algumas companhias de setores como calçados, cosméticos e higiene pessoal que mantiveram presença no mercado venezuelano até o início dos anos 2010 avaliam que uma eventual estabilização política e econômica pode reabrir oportunidades comerciais, embora mantenham postura cautelosa neste primeiro momento.
“Em apenas dois dias, desde a notícia da captura de Maduro, já recebi oito ligações de empresários do Amazonas, do Nordeste e do Sul interessados em entender como vai ficar a estrutura econômica da Venezuela a partir de agora”, disse à Bloomberg Línea Eduardo Oestreicher, presidente da Câmara Venezuelana Brasileira de Comércio e Indústria do Estado de Roraima, que fica na fronteira.
Segundo ele, o interesse em desengavetar planos de investimento na Venezuela envolve empresas da indústria, do comércio e do setor de serviços. Oestreicher disse que planeja uma viagem ao estado venezuelano de Bolívar nas próximas semanas para prospectar negócios entre os dois países.
A mudança no cenário político pode representar oportunidade para empresas brasileiras que mantêm estratégias de internacionalização.
É o caso da Calçados Bibi, que teve movimentações pontuais com a Venezuela em 2025, em volumes que a empresa classifica como quase nulos.
“A Venezuela já foi, há mais de 15 anos, um dos principais destinos das exportações da Calçados Bibi, chegando a figurar entre o terceiro e o quinto maior mercado importador dos nossos produtos”, disse Andrea Kohlrausch, CEO da companhia, à Bloomberg Línea.
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Ao longo da última década, no entanto, especialmente a partir de 2010, o cenário econômico do país vizinho mudou de forma significativa, o que praticamente inviabilizou as operações comerciais da companhia, sobretudo em razão das dificuldades relacionadas a pagamentos e à instabilidade geral do mercado.
“Mesmo assim, encaramos qualquer retomada como um sinal positivo. Acreditamos que, caso haja uma estabilização econômica mais consistente e uma maior abertura do mercado, existe um potencial real para voltarmos a atuar com mais força na Venezuela”, indicou a executiva.
A CEO da Calçados Bibi disse reconhecer que o mercado venezuelano historicamente respondeu muito bem ao mix de produtos da companhia, com forte aceitação da marca pelos consumidores locais.
“A Venezuela sempre foi um país importante para a nossa história internacional, e acreditamos que um ambiente mais estável pode permitir não apenas o retorno das exportações mas também a reconstrução de uma relação comercial sólida”, avaliou a executiva.
Setor de higiene e cosméticos
A exemplo da Calçados Bibi, o setor de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos também mantém postura de monitoramento da situação na Venezuela.
O país sul-americano representa apenas 1,4% das exportações brasileiras do setor, sendo o 13º país no ranking de 2025, enquanto a Argentina lidera com 21,3%, segundo dados da ABIHPEC (Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos) enviados pela entidade à Bloomberg Línea.
“A ABIHPEC acompanha de forma contínua as discussões relativas à agenda de comércio exterior do setor, mas não observa impacto direto no momento atual”, informou a entidade.
A ABIHPEC congrega 400 empresas associadas que representam 90% do mercado brasileiro. Entre as principais companhias do setor no país estão Natura & Co, Grupo Boticário, Unilever, L’Oréal e Colgate-Palmolive, que juntas concentram cerca de 48% do mercado nacional de beleza e cuidados pessoais.
Lojas do Boticário
Com portfólio focado em produtos de perfumaria, maquiagem e cuidados com a pele, o Grupo Boticário mantém 13 lojas físicas na Venezuela, distribuídas em oito cidades, incluindo a capital Caracas, mesmo diante de condições econômicas que levaram outras empresas a reduzir o tamanho de suas operações. As informações constam do site local da companhia brasileira.
A presença em oito cidades representa uma cobertura geográfica significativa no país. A concentração de lojas em shopping centers venezuelanos sugere estratégia focada em público de maior poder aquisitivo, em um país onde a dolarização da economia afeta o consumo.
Procurada pela Bloomberg Línea, a companhia não quis se manifestar sobre o assunto.
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As lojas venezuelanas do Boticário estão localizadas em shopping das principais cidades do país. Em Caracas, a marca opera seis unidades: Sambil Chacao, La Candelaria, Millennium Mall, El Recreo, Los Próceres e Galerías Los Naranjos.
As demais estão em Valencia (Sambil Valencia), Puerto Ordaz (Orinokia Mall), Barquisimeto (Sambil Barquisimeto), Maracay (Parque los Aviadores), San Cristóbal (Sambil San Cristóbal), Maracaibo (Sambil Maracaibo) e La Guaira (zona de embarque do aeroporto nacional e internacional).
A concentração em shopping da rede Sambil (seis das 13 lojas) indica uma parceria comercial que facilita operação logística e reduz custos. O formato também oferece segurança adicional em ambiente econômico instável.
Passados 15 anos desde o anúncio do plano de internacionalização, a presença do Grupo Boticário varia entre os mercados incluídos na estratégia original. Alguns países receberam investimentos em infraestrutura física e digital, enquanto outros mantêm operações reduzidas ou foram descontinuados.
Na América Latina, o Grupo Boticário mantém centros de distribuição na Colômbia (Bogotá) e estrutura operacional em países vizinhos.
Distribuição dos produtos da Natura
A presença de 13 lojas físicas do Boticário na Venezuela contrasta com a estratégia de outras empresas brasileiras do setor.
A Natura (NATU3), outra empresa líder do setor de beleza e cuidados pessoais, não possui mais operação estruturada no país sul-americano, mas produtos da marca aparecem em dezenas de anúncios do Mercado Livre na Venezuela, indicando distribuição por meio de revendedores independentes.
A empresa não vende nem entrega produtos para nenhuma empresa com sede ou comercialização na Venezuela, segundo uma pessoa a par da situação, que pediu anonimato por não ter autorização para falar publicamente do tema.
A presença de produtos Natura no mercado venezuelano ocorre por meio de distribuidores de países hispânicos que adquirem produtos da empresa e os levam para a Venezuela, sem envolvimento direto da companhia brasileira nessa operação, segundo a mesma fonte. A Natura informou apenas que não tem operação direta no país.
A empresa operou no mercado venezuelano por meio do modelo de venda direta até meados da década de 2010. A empresa, que atua também com consultoras que comercializam produtos porta a porta, chegou a ter revendedoras cadastradas na Venezuela durante o período de maior estabilidade econômica.
A empresa brasileira, que tem como bandeiras a sustentabilidade e o uso de ingredientes da biodiversidade amazônica, encontrou no mercado venezuelano consumidores receptivos aos produtos, principalmente as linhas Ekos e Tododia, entre as mais vendidas da Natura no Brasil.
Já o Mercado Livre (MELI) informou que mantém uma operação estável na Venezuela, com 25 funcionários locais e sem viagens de negócios ativas.
“Os escritórios permanecem temporariamente fechados como medida preventiva e a segurança dos colaboradores está sendo monitorada de forma contínua, sem registro de incidentes até o momento”, informou a empresa de tecnologia de origem argentina, com sede no Uruguai, em nota enviada à Bloomberg Línea.
Proximidade geográfica
A proximidade geográfica, a ausência de barreiras linguísticas significativas e o histórico de relacionamento comercial são fatores que podem facilitar a retomada de negócios entre Brasil e Venezuela, segundo Oestreicher.
A expectativa de um novo governo sob orientação dos EUA no país vizinho cria uma dupla esperança para a nação venezuelana, segundo especialistas: a saída do regime autoritário então liderado por Nicolás Maduro e a aplicação de uma gestão voltada para reerguer a economia venezuelana, afirmou o presidente da Câmara Venezuelana Brasileira de Comércio e Indústria de Roraima.
No entanto empresários ressaltam que qualquer movimento depende de sinais concretos de estabilização.
A normalização dos mecanismos de pagamento, a garantia de conversibilidade cambial e a segurança jurídica para investimentos são condições mencionadas como fundamentais para viabilizar o retorno das operações.
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