Bloomberg Línea — Os cosméticos sul-coreanos ganharam espaço no Brasil pelas redes sociais e pelo comércio eletrônico e agora disputam a prateleira das farmácias.
No início de outubro, a farmacêutica Cimed apresentou uma linha de skincare fabricada na Coreia do Sul, com investimento de R$ 80 milhões. Paralelamente, a rede Nissei começou a vender, com exclusividade no canal farmacêutico, uma marca nascida em Seul. Os dois movimentos ocorrem enquanto as grifes tradicionais de luxo perdem faturamento no varejo de beleza de prestígio.
O avanço já redistribui as forças no mercado brasileiro de beleza. O faturamento das marcas coreanas de cuidados com a pele cresceu 67% no primeiro semestre de 2026 no varejo de prestígio do país, segundo dados da consultoria Circana. No mesmo período, a receita das grifes tradicionais de luxo recuou perto de 10%. O conjunto que reúne marcas asiáticas, rótulos de apelo natural e clínico e marcas digitais brasileiras avançou 50%, como a consultoria já havia divulgado.
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Batizada de Mili, a linha da Cimed reúne sete produtos à base de exossomos, partículas produzidas pelas células e usadas em cosméticos para ajudar na renovação da pele. Os preços vão de R$ 100 a R$ 200, e a meta é faturar R$ 150 milhões no primeiro ano. Para apresentá-la ao varejo, a farmacêutica levou a Seul uma comitiva de mais de 200 pessoas, com representantes de redes que somam cerca de 60% das farmácias brasileiras.
A Nissei estreou 31 itens da Prettyskin, marca sul-coreana de cuidados com a pele presente há dez anos em Seul, em sua loja de beleza na avenida Paulista e no comércio eletrônico.
As duas iniciativas respondem a uma demanda em forte alta. As exportações de cosméticos sul-coreanos para o Brasil somaram US$ 54,36 milhões em 2025, mais de dez vezes o valor de 2020 (US$ 5,17 milhões), segundo dados do serviço aduaneiro da Coreia do Sul publicados em agosto pelo jornal Korea JoongAng Daily.
No primeiro semestre de 2026, as vendas ao Brasil cresceram 237,4% sobre o mesmo período do ano anterior, de acordo com o Ministério de PMEs e Startups do país asiático, citado pelo mesmo jornal.
As vendas em farmácias ainda ficam fora das estatísticas da Circana. O canal de prestígio monitorado pela consultoria abrange varejistas especializados, lojas de departamento, vendas diretas ao consumidor, comércio eletrônico e outros pontos premium, mas não inclui farmácias e drogarias. O consolidado do terceiro trimestre deve sair no início de novembro, informou a consultoria.
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Dentro do canal monitorado, a internet responde por 26% das vendas das marcas coreanas e cresce 1,6 vez mais rápido que as lojas físicas, segundo a Circana.
Para Ana Seccato, diretora comercial e analista de beleza da consultoria no Brasil, o interesse acompanha um movimento global de consumidores mais conectados e abertos a testar marcas e ingredientes novos, impulsionado também pela influência da cultura sul-coreana na música, no cinema e na gastronomia.
“As marcas coreanas conquistaram relevância ao trazer inovação constante, alta percepção de eficácia e rotinas de skincare que dialogam com a busca atual por cuidados mais personalizados e orientados por resultados”, afirmou Seccato à Bloomberg Línea.
Fórmula e fábrica coreanas
Presente em mais de 98% das farmácias do país e líder em antigripais e vitaminas, a Cimed escolheu a fabricante da Mili depois de três meses de imersão da equipe na Ásia, período em que mapeou mais de 60 fornecedores. A produção ficará inteiramente na Coreia do Sul.
“O diferencial não está só no selo K-beauty. Está na tecnologia, na formulação, na cultura de inovação e na capacidade que a Coreia tem de desenvolver novas soluções”, afirmou João Adibe, CEO da Cimed, em respostas enviadas à Bloomberg Línea.
Para manter o preço abaixo do importado, a farmacêutica conta com a escala. Segundo Adibe, ganhar volume permite reduzir preços e ampliar a distribuição de tecnologias ainda concentradas no topo da pirâmide de consumo. A Cimed atende diretamente mais de 90 mil pontos de venda.
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A ligação da Cimed com a Coreia começou no consultório. Em março de 2023, Adibe contou à Bloomberg Línea que a farmacêutica entraria no mercado de ácido hialurônico, usado em harmonização facial, com um parceiro sul-coreano e vendas voltadas a clínicas de estética. Hoje, a Milimetric, marca de preenchedores e injetáveis fabricada no país asiático, projeta faturar R$ 400 milhões em 2026, ante R$ 150 milhões em 2025, informou a empresa.
Adibe trata as duas marcas como pontas da mesma jornada. A Milimetric chega ao paciente pelo dermatologista, e a Mili leva o cuidado para a rotina do consumidor, com produtos de uso diário vendidos na farmácia, segundo o CEO.
“No fim, é unir as duas pontas: a credibilidade técnica do profissional com a escala e o desejo do consumidor”, disse Adibe.
Farmácia e procedência
No varejo, a Nissei, oitava maior rede de farmácias do país pelo ranking da Abrafarma (Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias), seguiu outro caminho: em vez de criar uma marca, trouxe uma pronta.
A Prettyskin está há dez anos em Myeongdong, polo de compras de Seul, e chega com cremes 5 em 1, que reúnem cinco etapas da rotina em um só produto.
“Ainda existe uma percepção de que esses produtos são restritos a um público de maior poder aquisitivo. Com a Prettyskin, conseguimos ampliar essa oferta e tornar esse universo mais acessível”, afirmou Alexandre Maeoka, CEO da Nissei, em comunicado.
Além do preço, a rede usa a origem como argumento de venda. As embalagens trazem QR Code com informações sobre ativos e modo de uso, e a exclusividade reforça a farmácia como ponto seguro de compra, segundo a empresa.
Outras redes seguem na mesma direção. A RD Saúde (RADL3), maior do país, abriu loja-conceito de beleza premium em agosto, e a Drogaria Araujo passou a vender produtos coreanos em Belo Horizonte.
Em São Paulo, a Drogaria Iguatemi, voltada ao público de alta renda, inaugurou em agosto uma unidade em Moema com marcas exclusivas de beleza, muitas delas asiáticas, informou a empresa. Nessa operação, dermocosméticos, perfumaria e itens sem receita já respondem por cerca de 60% do faturamento, como mostrou a Bloomberg Línea em julho
O movimento repete o que ocorre nos EUA, onde a CJ Olive Young, maior varejista de beleza da Coreia do Sul, abriu em maio sua primeira loja fora do país. Para Adibe, a farmácia brasileira deixou de ser apenas o lugar do medicamento.
“O que queremos é que o varejo volte de lá não só conhecendo novos produtos, mas entendendo o tamanho dessa oportunidade e construindo essa categoria junto com a gente”, afirmou.
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