De fraude a ameaça a jornalista: segunda prisão de Vorcaro amplia crise do Master

Empresário é acusado de fraude, de ameaçar um jornalista e de monitorar rivais, além de supervisionar acesso não autorizado a sistemas do FBI e da Interpol, segundo investigadores; defesa de Vorcaro diz que a prisão ocorreu sem que tivesse tido acesso prévio aos detalhes que a justificariam

Daniel Vorcaro em São Paulo, em 27 de fevereiro. Fotógrafo: Victor Moriyama/Bloomberg.
Por Rachel Gamarski - Matheus Piovesana - Daniel Carvalho
05 de Março, 2026 | 02:29 PM

Bloomberg — Daniel Vorcaro acordou na quarta-feira (4) no sofisticado bairro Jardins, em São Paulo — em uma casa com vários jardins e carros de luxo — apenas para ser escoltado de volta a uma cela de prisão pela segunda vez em cerca de três meses.

O ex-presidente-executivo do Banco Master enfrenta acusações de fraude desde novembro. Agora, as alegações também incluem ameaçar atacar um dos jornalistas mais conhecidos do Brasil, supervisionar funcionários que obtiveram acesso não autorizado a sistemas operados pelo FBI e pela Interpol, e interferir em investigações em andamento sobre o escândalo bancário.

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Dois funcionários do Banco Central, um deles ex-membro da diretoria, teriam dado conselhos a Vorcaro sobre como lidar com reguladores e foram pagos por meio de contratos fictícios de consultoria, segundo um documento judicial divulgado na quarta-feira.

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Investigadores afirmam que também descobriram uma tentativa de intimidar e possivelmente silenciar membros da imprensa, como parte de um padrão mais amplo de ameaças e violência.

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O resultado: Vorcaro agora se encontra de volta a um centro de detenção provisória no interior de São Paulo. A segunda prisão de Vorcaro, e os detalhes que vieram à tona, mostram como o escândalo passou a envolver ainda mais pessoas e instituições no Brasil.

O documento judicial apresentado na quarta-feira ofereceu um dos primeiros indícios de como Vorcaro teria conquistado influência sobre o principal órgão de supervisão financeira do Brasil.

Ele pagou ao ex-diretor do Banco Central Paulo Sérgio Neves de Souza e a Belline Santana, que chefiava a área de supervisão bancária da autoridade monetária, para aconselhá-lo em questões regulatórias, segundo os investigadores.

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Vorcaro teria inclusive oferecido a Souza guias turísticos em suas viagens aos parques temáticos Disney e Universal, na Flórida, de acordo com o documento.

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Em nota, o Banco Central afirmou que suspendeu dois funcionários durante uma revisão interna do processo de liquidação do Banco Master e enviou à Polícia Federal uma comunicação sobre as evidências de crimes.

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A defesa de Vorcaro afirmou que sua prisão ocorreu sem que tivesse tido acesso prévio aos detalhes que a justificariam. A equipe disse ter apresentado um pedido ao Supremo Tribunal Federal (STF) para obter informações que sustentem sua solicitação relacionada à prisão.

‘Grandes amigos’

Mensagens de texto encontradas no telefone de Vorcaro também indicam os laços próximos que o banqueiro mantinha com políticos e até com um ministro do Supremo Tribunal Federal.

Nas trocas de mensagens, reunidas como parte de uma investigação sobre o banco conduzida por uma comissão do Congresso, Vorcaro se refere ao senador Ciro Nogueira como um “grande amigo”, menciona um encontro com o ministro Alexandre de Moraes e descreve um jantar com Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados.

Trechos das mensagens foram publicados pela imprensa local na quinta-feira — alguns deles também analisados pela Bloomberg News.

Embora as conexões políticas de Vorcaro em Brasília já fossem conhecidas há muito tempo, as mensagens agora divulgadas oferecem uma noção mais clara do grau de proximidade que ele mantinha com autoridades de alto escalão.

Em uma conversa de maio de 2024 com sua namorada, Vorcaro se refere ao senador Nogueira, que anteriormente foi ministro da Casa Civil do ex-presidente Jair Bolsonaro, como “um amigo muito próximo”, segundo um dos trechos analisados.

“Quero apresentar você”, escreveu Vorcaro. “Um dos meus grandes amigos da vida.”

Mensagens publicadas pela imprensa local também mostram Vorcaro oferecendo seu helicóptero para levar Nogueira — que também preside o Progressistas — e Antonio Rueda, presidente do partido União Brasil, da corrida de Fórmula 1 em São Paulo em 2024.

Nogueira afirmou em nota que troca mensagens “com centenas de pessoas, o que não o torna próximo de alguém apenas por eventualmente interagir com elas”.

Ele disse não ter preocupações em relação à investigação da Polícia Federal e que “não pratica nem nunca praticou qualquer conduta imprópria relacionada ao caso em análise”.

Vorcaro também mencionou um encontro com Moraes, ministro do Supremo, em uma troca de mensagens de abril de 2025.

“Vou me encontrar com Alexandre Moraes perto da minha casa”, escreveu. “Ele está passando o feriado aqui”, acrescentou mais tarde.

Os gabinetes de Motta e Moraes não responderam a pedidos de comentário enviados na quinta-feira. Rueda também não respondeu a um pedido de comentário, enquanto um integrante da equipe de defesa de Vorcaro se recusou a comentar as mensagens.

‘Todos os dentes’

A nova investigação também foi além dos crimes de colarinho branco dos quais Vorcaro vinha sendo acusado anteriormente. Investigadores afirmaram que ele monitorava supostos rivais — de funcionários que o chantageavam a jornalistas — e que teria ameaçado alguns deles.

“Quero mandar alguém dar uma surra nele. Quebrar todos os dentes dele. Em um assalto”, escreveu Vorcaro em um grupo de WhatsApp. O alvo era um jornalista — Lauro Jardim, um conhecido repórter do jornal O Globo.

Um dos integrantes desse grupo de WhatsApp, Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, foi citado pelos promotores como o associado que teria obtido acesso não autorizado a bases de dados de órgãos de aplicação da lei. Ele foi preso na quarta-feira e tentou suicídio na prisão, segundo autoridades federais.

Ele foi declarado com morte cerebral, informou a Folha de S.Paulo. A Polícia Federal disse não poder confirmar a informação. O advogado de Mourão não respondeu a um pedido de comentário.

Para justificar a decisão de colocar Vorcaro novamente atrás das grades, autoridades brasileiras afirmaram que havia risco de que ele e um grupo de pessoas ao seu redor interferissem nas investigações sobre o Banco Master, segundo decisão do Supremo Tribunal Federal.

O Banco Master havia sido um dos destaques recentes do setor bancário no Brasil.

A instituição cresceu ao vender produtos a pequenos investidores que ofereciam rendimentos superiores aos dos bancos tradicionais.

Mas, ao enfrentar dificuldades financeiras, tentou transferir parte de suas carteiras para o Banco de Brasília, um banco regional controlado pelo governo do Distrito Federal. Autoridades brasileiras afirmaram que esses ativos eram fabricados.

Em determinado momento, o BRB tentou comprar o Master, mas o negócio foi rejeitado pelo Banco Central.

A queda de Vorcaro mobilizou executivos do setor financeiro e políticos no Brasil, depois que o pequeno banco que ele controlava entrou em colapso deixando um rombo no Fundo Garantidor de Créditos (FGC) que, segundo o Itaú Unibanco, pode chegar a R$ 55 bilhões.

O Banco Central supervisiona a liquidação da empresa, e autoridades investigam supostos vínculos com um dos maiores grupos criminosos do Brasil, além de conexões com fundos de pensão de estatais que investiram no Banco Master.

Enquanto a Justiça brasileira avalia o destino final de Vorcaro, o banqueiro acostumado a um estilo de vida luxuoso enfrenta uma nova realidade.

Durante sua passagem anterior pela prisão, Vorcaro reclamou repetidamente das condições físicas da cadeia e da qualidade da comida, segundo pessoas próximas a ele que falaram com a Bloomberg News.

Agora, em sua segunda passagem pela prisão, sua cabeça foi raspada, de acordo com uma pessoa familiarizada com o assunto que pediu para não ser identificada por se tratar de informação privada.

Ele cumpre detenção em uma prisão que abriga mais de 400 pessoas, incluindo detentos de alto perfil, como o ex-jogador de futebol brasileiro Robson de Souza, conhecido como Robinho, e o ex-médico Roger Abdelmassih, condenado por dezenas de casos de estupro.

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