Como Marcelo Claure montou um império de investimentos de US$ 4 bi. E quer mais

Em entrevista à Bloomberg News, investidor deixa SoftBank e WeWork para trás e conta planos em negócios que vão da Shein e do Girona, no futebol, a ativos em IA e transição energética

Marcelo Claure, founder and chief executive officer of Claure Group
Por Devon Pendleton e Daniel Cancel
29 de Fevereiro, 2024 | 06:31 PM

Bloomberg — O currículo de Marcelo Claure está repleto de sucessos: fundou uma distribuidora multinacional de telefonia móvel, realizou a complexa fusão entre Sprint e T-Mobile e teve um êxito surpreendente no clube de futebol espanhol Girona, para citar alguns.

Por essa razão, o bilionário boliviano-americano de 53 anos se incomoda por provavelmente ser mais lembrado por sua ligação com a WeWork, a startup de espaços de trabalho compartilhados - coworking - que implodiu após alcançar um valuation de US$ 47 bilhões.

Claure foi enviado em 2019 por seu então chefe no SoftBank, Masayoshi Son, para estabilizar a empresa depois que ela cancelou uma oferta pública inicial de ações em meio a uma perigosa falta de caixa.

Ele supervisionou cortes de gastos e a diminuição da presença física do negócio, ao mesmo tempo em que professava total confiança na recuperação. Mas a pandemia desferiu o golpe final e a empresa continuou a perder bilhões mesmo no momento de sua abertura de capital via SPAC no final de 2021.

PUBLICIDADE

Agora, Claure molda seu próprio império de investimentos – com o que aprendeu da sabedoria e dos erros de Son –, que ele descreve com uma grandiloquência que lembra seu antigo chefe.

Seu family office, o Claure Group, está em busca de investimentos em inteligência artificial e energias renováveis (“você não pode ser um verdadeiro investidor se não estiver em IA e clima”), adquiriu uma participação significativa na empresa chinesa de fast fashion Shein (“uma das empresas mais icônicas dos nossos tempos”) e avalia formas de revolucionar o futebol nos Estados Unidos na esteira de seu sucesso improvável com o Girona FC (“provavelmente um dos melhores times no mundo do futebol”).

Embora Claure tenha deixado o SoftBank em 2022, enquanto a WeWork entrou com pedido de concordata pelo Chapter 11 (o equivalente à recuperação judicial) em 2023, o drama em torno da startup não desapareceu. No início deste mês, seu fundador, Adam Neumann, emergiu como possível comprador de sua antiga empresa quebrada.

PUBLICIDADE

O fato de Neumann, de 44 anos, ter capital para fazer uma oferta se deve em parte a Claure, que, como chairman da WeWork, negociou um pacote de saída que concedeu a Neumann US$ 291 milhões em dinheiro, mais US$ 578 milhões pela venda de suas ações na WeWork e um empréstimo de US$ 430 milhões do SoftBank.

Claure, que disse que Neumann já ligou para ele para pedir conselhos sobre sua oferta, não se lamenta. “Esse foi o preço a pagar para podermos retomar o controle do negócio”, disse ele em entrevista à Bloomberg News, observando que Son ditou os termos. “Adam não precisou entregar as chaves a ninguém”.

O desastre da WeWork ressalta o desafio de escapar da sombra do SoftBank, uma das empresas de investimento mais idiossincráticas do mundo, com US$ 413,6 bilhões em ativos em seu pico em março de 2021. Claure passou oito anos trabalhando para a empresa japonesa, primeiro como CEO da Sprint, que fazia parte do portfólio do grupo, e depois como diretor de operações (COO) do SoftBank.

Nessa função, ele ajudou a implementar planos de recuperação de empresas escolhidas a dedo por Son. Algumas delas foram adquiridas a preços elevados e depois afundaram em valor. Sua passagem por lá o tornou rico, mas não o suficiente para ele. Ele deixou o grupo por não conseguir chegar a um acordo com Son a respeito de um pedido de Claure por uma remuneração de US$ 1 bilhão.

Em um dia no final de janeiro, Claure estava sentado em uma sala de conferências em seu escritório no Meatpacking District, em Manhattan. Vestido todo de preto, sua roupa combinava com o ambiente em estilo industrial-chique. Sua passagem por Nova York era breve.

Claure, que reside em Miami, passa boa parte de seu tempo em viagens que costuma exibir no X, ex-Twitter, postando fotos de jatos particulares e posando com políticos, executivos, familiares e celebridades.

Só em 2024 até aqui, ele esteve em Las Vegas para o Super Bowl, em Madri para uma partida do Girona, em China, Singapura, Arábia Saudita - onde sua nova equipe de corrida de barcos elétricos perdeu para a de Tom Brady - Abu Dhabi, Doha, Brasil, Argentina, Davos, França e em várias ilhas do Caribe.

PUBLICIDADE

Claure disse que tem US$ 4 bilhões em ativos em sua empresa privada, um número que inclui um nível variável de dívida que ele não quis especificar. Com a ajuda de seu diretor de investimentos, Diego Dayenoff, ex-executivo do Key Square Group, Claure apostou em diversos setores, incluindo imóveis, tecnologia e moda.

Seu investimento de maior destaque é a Shein, que se prepara para um IPO nos EUA (ou em Londres), apesar de enfrentar preocupações sobre supostas violações de direitos de propriedade intelectual e sobre o fornecimento de algodão da região chinesa de Xinjiang, que tem sido associada a trabalho forçado.

No ano passado, ele comprou uma participação majoritária em uma empresa de engenharia australiana, a Ausenco, ao lado do bilionário Todd Boehly, da Eldridge, para aprimorar seu conhecimento do setor de mineração. Ele tem um plano de longo prazo de extrair lítio no Chile, na Argentina e, eventualmente, na Bolívia. O país natal de Claure abriga as maiores reservas mundiais de lítio, atualmente controladas pelo estado.

“Dificilmente na história do mundo houve um país que controlasse um terço da matéria-prima mais importante, que impulsionará a transição energética”, disse ele. O governo boliviano permitiu que certas empresas privadas estrangeiras fizessem parceria com a mineradora estatal no processamento e na extração, mas o metal ainda não foi produzido em quantidades comerciais.

PUBLICIDADE

“Quero ter certeza de que meu país utilize esses ativos de maneira adequada”, disse Claure. Seu sonho é que suas minas de lítio alimentem uma gigafábrica de carros elétricos no México ou no Brasil.

Apostas na América Latina

Claure, que já comandou o fundo do SoftBank para a América Latina, continua a apostar na região em sua carreira solo. Ele fundou a Bicycle Capital, empresa de capital de risco com foco na América Latina, em junho passado, com Shu Nyatta, ex-colega do SoftBank, e com o apoio do fundo soberano de Abu Dhabi, o Mubadala.

Ele também comprou uma grande participação na empresa de investimentos brasileira EB Capital em outubro.

Claure está competindo – e, em alguns casos, unindo forças – com seu ex-empregador quando se trata de negócios. Tanto a Bicycle quanto o fundo do SoftBank para a América Latina, por exemplo, investiram na startup brasileira Gympass.

PUBLICIDADE

Ele disse que a Bicycle e o fundo do SoftBank colaboram em negócios e descartou qualquer conflito de interesses. “Só espero que eles se saiam bem”, disse ele.

Claure elogiou Son como “um gênio” por sua capacidade de enxergar tendências que mudam o mundo, como a IA.

PUBLICIDADE

Mas se irrita com o fato de que os retornos fracos da unidade Vision Fund prejudicaram a reputação do SoftBank, apesar de seus sucessos – muitos dos quais, ele rapidamente salientou, ocorreram durante sua gestão.

Claure quase ingressou na equipe do Vision Fund em 2019, mas mudou de rumo após confrontos com o CEO Rajeev Misra. Em vez disso, ele focou nas operações, o que incluía ajudar a administrar a Sprint, a ARM Holdings, o Fortress Investment Group e a SoFi Technologies.

A primeira tarefa de Claure foi um turnaround na Sprint, que envolveu atravessar um emaranhado de preocupações regulatórias relacionadas à sua fusão com a T-Mobile em 2020. A missão reforçou sua experiência em relações governamentais, que foram úteis em seu papel de auxiliar na expansão global da Shein. Também lhe rendeu uma participação na T-Mobile que agora vale mais de US$ 1,1 bilhão.

PUBLICIDADE

O SoftBank emprestou US$ 515 milhões a Claure para ele comprar sua participação. O empréstimo vence em julho e Claure disse que pretende quitá-lo na integra. Ele também deve ao SoftBank US$ 196 milhões por um empréstimo para comprar ações da empresa.

No SoftBank, Claure era conhecido como o homem das operações, que executava e implementava. Agora, a característica que definiu sua atuação é exatamente o que ele pretende evitar ao administrar seu family office.

“O tema recorrente é que não administramos nada”, disse Claure sobre seus investimentos globais em vários setores. “Este é o momento de maior sucesso da minha vida, quando tenho o poder de fazer o que quero, com quem eu quero.”

PUBLICIDADE

- Com a colaboração de Tom Maloney, James Attwood e Sergio Mendoza.

Veja mais em Bloomberg.com

Leia também

PUBLICIDADE

André Esteves e David Vélez, do Nubank, investem em novo fundo de Marcelo Claure

Marcelo Claure se torna sócio de empresa de investimentos em tech Hedosophia