Como a produção de petróleo na Venezuela afetaria o cenário de investimento no Brasil

Em cenário global de excesso de oferta da commodity, gigantes petroleiras estão mais criteriosas na escolha de projetos, o que pode favorecer o país vizinho em que pesem as incertezas ainda existentes, apontam especialistas à Bloomberg Línea

PDVSA
06 de Janeiro, 2026 | 06:19 AM

Bloomberg Línea — A concretização do cenário de avanço da produção de petróleo na Venezuela nos próximos anos, sob a orientação do governo dos Estados Unidos, acirraria a disputa por novos investimentos de forma considerável na indústria global.

Nesse contexto, a indústria brasileira terá desafios para atrair recursos suficientes para desenvolver novos campos, em um cenário de aumento dos custos na cadeia produtiva e tendência de preços do barril em baixa, segundo especialistas ouvidos pela Bloomberg Línea.

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De acordo com dados da Administração de Informação de Energia (EIA, na sigla em inglês), do governo dos Estados Unidos, a Venezuela possuía cerca de 17% das reservas globais de petróleo provadas ao final de 2023. No entanto o país produziu apenas 0,8% do petróleo bruto globalmente no período.

Na visão do sócio diretor da A&M Infra, Rivaldo Moreira, no médio e no longo prazo, a Venezuela pode se tornar mais um player importante na disputa por recursos para projetos de escala global.

“O Brasil tem que se preocupar em ser cada vez mais competitivo para continuar a investir na exploração de novas reservas. Pode haver um redirecionamento de recursos do mercado, com um país importante [a Venezuela] entrando na briga pelos investimentos globais”, disse Moreira à Bloomberg Línea.

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O executivo ressaltou que as chamadas companhias petrolíferas internacionais (IOCs, na sigla em inglês), que operam globalmente em diversas etapas da cadeia produtiva, formam um grupo restrito. “Existem poucas IOCs no mundo e a Venezuela pode ser mais um destino para esse mesmo capital.”

O petróleo da Venezuela é controlado e produzido atualmente, em sua maior parte, pela estatal PDVSA, maior fonte de receita para o governo local.

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A commodity produzida localmente tem origem em bacias onshore e em águas rasas, diferentemente do perfil da produção majoritária do Brasil, que ocorre em águas profundas e ultraprofundas. Nesse sentido, os desafios exploratórios são muito diferentes.

“Há muita reserva já descoberta e parada na Venezuela, não tem muito o que pesquisar [e explorar]”, afirmou Moreira.

De acordo com o analista de geopolítica e mercados de petróleo da Rystad Energy, Raphael Faucz, os custos de produção de petróleo bruto e da cadeia de suprimentos do setor têm crescido, ao passo que os preços do barril vêm caindo nos últimos anos, o que tem levado ao adiamento de projetos.

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“Isso torna a competição por investimentos e disponibilidade na cadeia de fornecimento mais acirrada. Até o momento, a [produção] na Margem Equatorial ainda é uma hipótese e, como nova fronteira, vai demandar muitos recursos”, afirmou em referência à área exploratória na região da Foz do Amazonas.

Segundo o relatório da EIA, a Venezuela produziu cerca de 742 mil barris por dia (bpd) de petróleo bruto em 2023, em dados mais recentes disponíveis. Desde então, com o aumento das sanções por parte dos Estados Unidos na administração de Donald Trump, os volumes vêm sendo afetados.

Nos cálculos da Rystad, os investimentos necessários somente para manter os atuais níveis de produção na Venezuela, com leve declínio, estão na casa dos US$ 36 bilhões entre 2026 e 2040.

Na avaliação de Faucz, acelerar a produção para aproximadamente 1,4 milhão de bpd no país vizinho não seria uma tarefa complexa, mas demandaria recursos adicionais no período referido.

“Com as reservas e os campos atuais da Venezuela, seria possível, já em 2027, atingir um aumento de 40% da produção em relação aos níveis atuais”, disse. Mas os recursos teriam que entrar no país nos próximos 18 meses, alertou.

Para retornar ao patamar de 3 milhões de bpd, pico de produção registrado na Venezuela em meados da década de 1970, seriam necessários recursos totais na casa de US$ 180 bilhões no período de 2026 a 2040, estima a Rystad.

Diferenças de produto

O parque global de refinarias não tem a mesma capacidade de processar os diferentes tipos de petróleo produzidos no mundo. No caso da Venezuela, o produto é basicamente do tipo “pesado”. No Brasil, Faucz explicou que o petróleo está em uma faixa intermediária entre o “leve” e o “pesado” com o avanço do pré-sal.

“Aumentar a produção na Venezuela não tira necessariamente market share do Brasil”, disse o especialista. O mesmo raciocínio vale para as exportações de outros países neste momento ainda de incertezas na Venezuela.

“A situação atual não resulta necessariamente em aumento das exportações do Brasil para destinos que deixarão de ser atendidos, por ora, pela Venezuela.”

Segundo a consultoria global Argus, as refinarias independentes da China absorvem a maior parte das exportações de petróleo venezuelano — 430 mil barris por dia em 2025, segundo estimativas da empresa com base em dados de rastreamento e informações de players do mercado.

Já as estatais chinesas não importam petróleo venezuelano, a despeito do amplo desconto devido ao status das sanções, de cerca de US$ 11 a US$ 12 por barril abaixo da referência para entregas em janeiro deste ano.

Os Estados Unidos são o segundo maior destino do produto hoje, de acordo com a Argus, com cerca de 120 mil barris importados em dezembro. A Chevron (CVX), que continua a operar na Venezuela, é a única importadora norte-americana do petróleo venezuelano.

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Há também a perspectiva do frete.

Faucz disse que, diante do cenário em que os preços para navios petroleiros (tankers) já vêm sendo pressionados após o aumento das sanções contra a Rússia por causa da guerra contra a Ucrânia, é possível que o modelo de negociação dos contratos de transporte de óleo caminhe em direção aos preços spot [à vista], que são mais elevados.

Nesse sentido, segundo ele, a Petrobras (PETR3, PETR4), é menos exposta ao mercado spot, uma vez que contrata fretes com prazos maiores.

Segundo o executivo responsável por precificação de petróleo nas Américas da Argus, Gustavo Vasquez, as exportações da commodity da Venezuela têm sido transportadas principalmente pela chamada “frota sombra” – navios envolvidos em comércio ilícito desde a imposição de sanções pelos Estados Unidos.

Essas embarcações operam fora do mercado convencional de petroleiros que transportam produto do Brasil, Guiana, Argentina e Colômbia.

Petróleo venezuelano e a China

Vasquez explicou que a China exerce atualmente influência crucial na indústria petrolífera venezuelana.

“A China expressou forte indignação com a prisão de [Nicolás] Maduro, em parte porque empresas chinesas têm investimentos significativos na indústria upstream da Venezuela e porque o país latino ainda deve cerca de US$ 12 bilhões ao parceiro asiático em transações de empréstimos atrelados ao petróleo”, disse.

Ele acrescentou que, dado que não há uma escassez da commodity no mercado global atualmente - pelo contrário -, um impacto nos preços “é improvável”.

De acordo com cálculos da Rystad, mesmo com o aumento do risco geopolítico, o Brent ainda opera na casa de US$ 61 a US$ 62. “O mercado ainda vai ter excesso de oferta em 2026, com pouca demanda adicional”, disse Faucz.

A consultoria não considera em sua modelagem atual uma invasão da China sobre o território de Taiwan na esteira do ataque dos EUA à Venezuela.

“Não consideramos [o conflito] China-Taiwan como um cenário provável, mas uma eventual invasão pode tornar o cessar-fogo entre Rússia e Ucrânia mais distante, criando um ambiente internacional mais propício para ataques e testes militares”, avaliou Faucz. “Mas, mesmo se não fosse o risco geopolítico, os níveis de preços do petróleo estariam ainda mais baixos”, ressaltou.

O especialista da Rystad Energy disse que a transição no país vizinho ao Brasil é uma incógnita. “Não sabemos se o processo vai ser suave e se haverá um cenário mais aberto de investimentos privados na Venezuela, com consequente aumento da produção e do acesso a novos mercados”, disse.

Moreira, da A&M Infra, apontou que o real estado de conservação das instalações da indústria de petróleo da Venezuela é algo incerto, já que há pouca transparência. Em um contexto de transição imposta pelos Estados Unidos, sem clareza sobre o futuro, as incertezas sobre novos investimentos são grandes.

“É difícil imaginar que haja uma retomada [da produção] imediata”, afirmou.

Vasquez, da Argus, acrescentou a visão de que não há perspectiva realista de aumento imediato da produção venezuelana.

“Um investimento significativo de empresas internacionais [em operação no país] no médio e no longo prazo exigiria o fim das sanções e mudanças profundas no ambiente legal e empresarial da Venezuela, o que é uma perspectiva duvidosa diante da provável instabilidade após a deposição de Maduro.”

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