Bloomberg — A Cogna Educação viveu seu momento de “meme stock” durante a pandemia.
Investidores brasileiros compraram ações da companhia de educação com fins lucrativos em massa, o que deu impulso a um rali exagerado.
Quando o movimento perdeu força e os preços desabaram, muitos acabaram acumulando perdas.
Agora, são os gestores de fundos que conduzem um rali frenético.
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Os otimistas com a recuperação da Cogna (COGN3) após anos de prejuízos e de um preço de ação estagnado levaram o papel para uma alta de mais 200% no ano passado — o maior ganho do Ibovespa.
Neste ano, as ações da empresa já subiram mais 13%, mesmo após devolverem parte dos ganhos nos últimos dias.
Algumas gestoras locais, incluindo a Inter Asset e a XP Asset Management — uma das dez maiores do país —, têm aumentado a posição na companhia.
A tese de investimento é que a Cogna, um dos maiores grupos de educação do país, com unidades espalhadas pelo Brasil, tenha superado os desafios financeiros após reduzir o endividamento e reorganizar as operações. Em 2025, por exemplo, a empresa pagou seu primeiro dividendo desde 2019.
“Eu ainda acho que tem mais espaço para esse rali, porque parte relevante dessa alta até agora foi revisão de lucro para cima”, disse Marcos Peixoto, gestor na XP Asset — que tem R$ 200 bilhões em ativos e começou a aumentar sua posição na Cogna em 2024.
“O preço está bem barato, relativo com outros setores domésticos da bolsa”, afirmou.
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As ações continuam voláteis — caíram cerca de 22% desde que atingiram a máxima em cinco anos em janeiro.
Ainda assim, permanecem em patamar mais que duas vezes superior ao de um ano atrás, impulsionadas também pelo desempenho das ações brasileiras e, de forma mais ampla, dos ativos de mercados emergentes.
O desempenho das ações “reflete o reconhecimento do mercado aos anos de reestruturação com método e foco em aprendizagem apoiada por tecnologia”, disse Roberto Valerio, CEO da Cogna, em comentário enviado por email à Bloomberg News.
A Cogna, com sede em São Paulo, começou oferecendo cursos pré-vestibulares, antes de expandir para programas de ensino fundamental e médio, além de cursos de graduação em áreas que vão da medicina à contabilidade.
A empresa abriu capital em 2007, quando ainda se chamava Kroton Educacional, e opera em todos os estados do país. A companhia afirma ter mais de 1,2 milhão de alunos de graduação e pós-graduação.
Juntamente com pares como a Yduqs e a Anima, a Cogna prosperou no início da década passada, com apoio do Fies, programa federal que oferecia empréstimos estudantis subsidiados com juros baixos e longos prazos de carência.
Com o aumento expressivo das matrículas e das receitas, a Cogna realizou várias aquisições, tornando-se uma das maiores provedoras de educação privada com fins lucrativos do Brasil.
No entanto esse modelo de negócios desmoronou depois que o governo começou a reformular o Fies no final de 2014, limitar o acesso a empréstimos e mudar os cronogramas de pagamento.
A mudança causou prejuízos particularmente graves para a Cogna, que havia sido agressiva na captação de recursos.
Etapas da reviravolta
As raízes da recuperação financeira da Cogna remontam a 2019, quando a companhia se reorganizou e traçou um plano estratégico de cinco anos para recuperação da rentabilidade e do crescimento. Também adotou seu nome atual.
A empresa se transformou em uma holding, com unidades de negócios para áreas como ensino superior e educação básica.
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A pandemia interrompeu esta recuperação, já que a transição para o ensino remoto corroeu a receita enquanto a empresa lutava contra custos fixos, como instalações de campus.
No entanto as ações tiveram um curto alívio em 2020 em meio a um rali especulativo, diante de comentários nas redes sociais e por pequenos investidores.
O entusiasmo cresceu tanto que os investidores criaram um grito de guerra: “Conga é 10”, uma referência ao sucesso brasileiro dos anos 80 “Conga, Conga, Conga” da cantora Gretchen, e à esperança de que as ações da Cogna chegassem a R$ 10, aproximadamente o dobro do valor registrado em meados do ano.
A demanda pelo papel também impulsionou a abertura de capital da sua subsidiária Vasta na Nasdaq, nos Estados Unidos, em julho daquele ano.
No entanto o pessimismo sobre a capacidade da Cogna de gerar mais caixa em meio à pandemia freou o ímpeto das ações. O mesmo aconteceu com a decepção diante do desempenho ruim subsequente das ações da Vasta.
Levou até 2024 para que os esforços de recuperação surtissem resultado de modo mais evidente, após o fechamento de alguns campi, a renegociação de contratos de aluguel, a redução da alavancagem e o retorno à lucratividade depois de quatro anos de prejuízos.
“Hoje temos uma visibilidade muito melhor do fluxo de caixa da empresa nos próximos dois anos”, disse Rafael Cota Maciel, gestor de ações em Belo Horizonte da Inter Asset, que administra cerca de R$ 22 bilhões e comprou ações da Cogna nos últimos meses.
A ação tem outro atrativo: seu valuation é menor que o do mercado em geral. A Cogna é negociada a cerca de 7,5 vezes o lucro estimado para os próximos 12 meses, em comparação com 11,5 vezes no caso do Ibovespa.
O próximo foco para a Cogna será em março, quando a empresa divulgará os resultados do quarto trimestre.
O Bradesco BBI rebaixou a recomendação da ação de outperform para neutra nesta semana, citando expectativas de números ligeiramente fracos.
Outros estão mais positivos em relação à empresa. Nesta semana, o Jefferies iniciou a cobertura da ação como compra e o UBS elevou o papel de neutra para compra.
O JPMorgan também elevou a Cogna de neutra para overweight em janeiro. O Itaú BBA vê um quadro geral sólido para a companhia, mesmo diante de alguma pressão sobre as margens.
“A empresa mostra um crescimento ainda melhor do que o restante do setor”, disse o analista do Itaú BBA Vinicius Figueiredo. “Isso, junto com a geração de caixa no curto prazo, é uma bela combinação”.
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