Bloomberg Línea — O Grupo Fleury (FLRY3), que atua em medicina diagnóstica, iniciou o ano do seu centenário com um balanço que sublinha a tese de consolidação defendida pela gestão: expansão de volume via M&A com vigilância sobre as margens.
No primeiro trimestre de 2026, a companhia entregou uma receita bruta de R$ 2,4 bilhões (alta de 10,1%) e um lucro líquido de R$ 201,2 milhões, avançando 12,2% sobre o mesmo período do ano anterior.
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Para a CEO Jeane Tsutsui, o resultado valida o modelo que combina o legado premium com a agressividade em novas praças.
“O Fleury entrega um crescimento robusto, 10,1% de top-line, principalmente chamando a atenção do crescimento das nossas unidades de atendimento”, afirmou a executiva em entrevista à Bloomberg Línea.
Ela destacou que a marca Fleury mantém o vigor, crescendo 12,1%, mas que o salto de 28% das demais marcas de São Paulo reflete o acerto na integração de ativos.
A integração de gigantes adquiridos recentemente foi o pano de fundo da discussão sobre eficiência. Sobre o processo de maturação dessas operações, o CFO José Antonio Filippo destacou que o resultado atual já é um reflexo direto dessa execução.
“Isso está refletido, e a gente consegue rentabilizar a margem que nós temos mantido. [O resultado] reflete a capacidade de rentabilização dessa receita”, afirmou o executivo, referindo-se ao desafio de absorver estruturas robustas como as do Grupo Pardini e do Femme sem comprometer a última linha do balanço.
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O CFO reforçou que a captura de sinergias é o que permite manter o Ebitda em R$ 606 milhões, mesmo com um mix de serviços mais diversificado.
Apesar da escala, o mercado monitora a diluição de margens, já que novos ativos operam em segmentos de menor ticket médio. O CFO reconheceu o desafio.
“Temos tido um mix que tende a ser desfavorável pelo longo crescimento dos negócios, mas a gente tem conseguido manter a margem nos mesmos níveis”, disse.
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A estrutura de capital também foi central. Com alavancagem em 1,0x da dívida líquida/Ebitda, o grupo mantém um dos balanços mais conservadores do setor.
“Ainda vivemos essa situação de juros mais elevados. Isso tudo requer prudência para que não se tenha um impacto muito grande na despesa financeira”, justificou o CFO, sinalizando que a disciplina na alocação de capital é prioridade.
Sem visibilidade de novos drivers
A captura de sinergias da fusão com o Hermes Pardini, autorizada pelo Cade em abril de 2023, entra em sua fase final sem que o Grupo Fleury tenha conseguido consolidar um novo movimento transformacional, embora o discurso da gestão seja centrado em crescimento orgânico.
Diante do esgotamento desse ciclo de integração, o mercado observa uma crescente dificuldade da companhia em destravar sua agenda de M&A em negócios de maior complexidade, como a eventual transação com a Rede D’Or ou a joint venture com a Oncoclinicas, que não avançaram.
Essa realidade estratégica é o que fundamenta a cautela de Joseph Giordano, analista do JPMorgan, no relatório Saúde no Brasil: Prévia do 1T26, divulgado na última quarta-feira (6).
Ao reiterar a recomendação de underweight (exposição abaixo da média) e o preço-alvo de R$ 16, Giordano aponta que, sem novos drivers claros no horizonte, o foco dos investidores deve retornar aos fundamentos modestos da companhia.
O cenário é agravado por uma perspectiva de um perfil de crescimento relativamente mais lento e pela compressão das margens de longo prazo, reflexo de um mix de receitas que favorece segmentos menos rentáveis, tornando o prêmio de 20% no valuation atual, frente aos pares da América Latina, difícil de sustentar.
A ação do Fleury acumula valorização de 9,5% em 2026, desempenho inferior à alta do Ibovespa (14%) no período.
Um dos pontos de atenção do mercado tem sido a performance das unidades regionais, presentes em 10 estados, que apresentou o menor ritmo de expansão (+9,0%) entre as marcas, segundo o relatório do balanço.
A performance de ativos regionais recém-adquiridos passou a motivar conversas reservadas entre players do setor. O risco de o descredenciamento da Unimed Litoral em Santa Catarina, praça do Laboratório São Lucas, drenar valor do ativo adquirido em 2024, segundo relatou à Bloomberg Línea uma pessoa com conhecimento do setor, que pediu anonimato, pois não tem autorização para fazer comentários públicos.
Tsutsui explicou a situação: “A Unimed não era relevante para o São Lucas. E isso não tem impacto em nenhuma mudança das nossas unidades”, disse a CEO, pontuando ainda o peso relativo muito pequeno da praça no resultado geral de um grupo de alcance nacional e que o Fleury já havia feito a avaliação do cenário de saída da Unimed da receita do ativo.
Segundo ela, o foco na geografia do São Lucas, um das regiões mais ricas do Sul brasileiro, é o varejo de alta renda.
“Realmente temos outros pagadores. Essa região é de grande desenvolvimento socioeconômico“, completou.
Para sustentar o ROIC (Retorno sobre o Capital Investido) de 17,0%, o Fleury aposta na diversificação.
O projeto Marco 100, que recebeu R$ 35 milhões, foca em longevidade e medicina preventiva. Ao completar um século, o desafio do grupo, que tem o Bradesco como principal acionista, é manter a agilidade de uma growth company.
“Tudo isso sem perder o foco no cliente, sem perder a nossa disciplina em gestão financeira com uma alavancagem de uma vez”, disse Tsutsui.
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