Carros elétricos usados ganham impulso após disparada dos combustíveis nos EUA

Com o custo para abastecer um tanque superando até US$ 200 - ou mais de R$ 1.000 -, cada vez mais americanos têm procurado alternativas nos modelos elétricos usados; vendas saltaram 17% nos primeiros quatro meses do ano

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Bloomberg — O americano Eric Flickinger chegou ao seu limite recentemente enquanto abastecia sua picape Ram 1500 com diesel que custava US$ 7,39 o galão - cerca de US$ 1,95 por litro ou aproximadamente R$ 9,87. Quando a bomba desligou, ela marcava exatamente US$ 200 (R$ 1.015).

Como se isso não fosse doloroso o suficiente, quando Eric voltou para sua picape e ligou o carro, o ponteiro do marcador de combustível ainda não chegava ao máximo.

Acontece que seu banco só pré-autoriza um máximo de US$ 200 numa bomba de combustível. Completar o tanque de 33 galões (124,92 litros) teria exigido quase US$ 50 a mais (R$ 256).

“Eu pensei: que diabos é isso?”, disse Flickinger, de 47 anos, engenheiro mecânico que mora nos arredores de Seattle. “Isso me fez pensar de verdade: ‘OK, o que posso fazer para resolver isso?’ Porque não vejo os preços caindo tão cedo.”

Sua resposta? Ele comprou uma picape elétrica Ford F-150 Lightning com quatro anos de uso.

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Flickinger é um dos americanos que cada vez mais encontram refúgio da disparada do combustível em um mercado de usados repleto de carros elétricos acessíveis que as montadoras tiveram dificuldade de vender a preços mais altos quando eram novos.

Perto de 40% dos carros usados movidos a bateria atualmente nos pátios das concessionárias nos Estados Unidos têm preço abaixo de US$ 25 mil (R$ 127 mil), segundo a empresa de pesquisa Cox Automotive, cerca da metade do preço médio de um carro zero quilômetro nos EUA.

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Elétricos seminovos agora estão disponíveis em mais formatos e tamanhos do que era possível encontrar há apenas alguns anos.

E mais de um milhão deles devem chegar aos pátios de usados até o final do próximo ano, muitas vezes com anos de cobertura restante na garantia original de fábrica, aliviando preocupações sobre a longevidade das baterias dos elétricos que afastaram alguns compradores de primeira viagem.

As vendas de elétricos usados saltaram 17% nos Estados Unidos nos primeiros quatro meses do ano. Isso contraria uma queda de quase 27% nas vendas de elétricos novos e um recuo de 7% nas entregas gerais de veículos novos.

E não é apenas o público mais jovem e habituado à tecnologia que corre aos pátios de elétricos usados. Compradores comuns que não teriam considerado o elétrico no passado agora fazem justamente isso.

“Estou vendo pessoas de 50 e 60 anos chegando e comprando elétricos agora, o que é uma loucura”, disse Jay Clark, diretor de carros usados das concessionárias Ron Marhofer em Cuyahoga Falls, no estado de Ohio.

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Muitas montadoras reduziram suas ambições elétricas, que ficaram bem aquém das expectativas conforme os consumidores resistiram a pagar preços altos.

Em dezembro, a Ford cancelou a próxima versão elétrica de sua icônica F-150 ao registrar US$ 19,5 bilhões em baixas contábeis sobre ativos elétricos de desempenho insatisfatório.

Mas os elétricos agora ganham força no pátio de usados, refletindo uma demanda genuína dos consumidores por carros movidos a bateria nos EUA, se o preço estiver certo.

Como líder escoteiro que regularmente leva suas duas filhas adolescentes e os colegas de tropa para acampamentos, Flickinger sempre se interessou por picapes elétricas, mas seus preços elevados estavam “fora de questão”.

Mas a US$ 44 mil (R$ 223 mil), a Lightning usada custou menos da metade de seu preço de tabela original. E com o valor de troca de seu Ram de seis anos, Flickinger conseguiu comprar o Ford sem assumir uma nova prestação de carro.

“Fazendo as contas no guardanapo, fechou”, disse ele.

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O concessionário californiano Jeremy Beaver vê movimento intenso em seu pátio de usados bem abastecido.

“Para os consumidores, o custo de tudo subiu, e eles buscam algo que economize dinheiro com gasolina e não seja um carro novo de US$ 50 mil”, disse Beaver. “Há um apetite real de alguém que quer entrar num elétrico pela primeira vez e ter uma prestação mensal razoável.”

O preço médio de tabela de um elétrico usado fica em torno de US$ 35 mil, (R$ 178 mil) apenas cerca de US$ 1.000 a mais que um carro seminovo equivalente movido a gasolina, segundo a Cox Automotive.

Num financiamento de seis anos, a diferença de US$ 20 nas prestações mensais é insignificante para muitos compradores. No segmento de alto volume de SUVs compactos, a diferença de preço quase desaparece entre modelos movidos a bateria e a gasolina.

A disparidade média de preço fica mais próxima de US$ 6.000 no mercado geral de carros novos.

“Estamos bem próximos da paridade de preço com elétricos usados, e isso é uma mudança enorme”, disse Stephanie Valdez Streaty, diretora de insights da indústria na Cox, em entrevista.

Ironicamente, alguns dos fatores que ajudam a tornar os elétricos usados um negócio tão bom são os mesmos problemas que prejudicaram as vendas de elétricos novos.

Os valores de revenda são pressionados pela disponibilidade de locais de recarga, medo de ficar sem energia na estrada e preocupações sobre quanto tempo as caras baterias durarão.

Para superar parte dessa inquietação do consumidor, Beaver envia sua equipe a leilões de veículos usados especificamente em busca de elétricos de baixa quilometragem que ainda estejam na garantia.

“Num mundo dos sonhos, o preço fica na casa dos US$ 20 mil e é um carro que ainda tem alguma garantia de fábrica completa”, disse Beaver, presidente-executivo do Del Grande Dealer Group na região de São Francisco. “Nosso foco é em carros de 18 a 36 meses.”

Há bastante estoque que se encaixa nessa descrição atualmente. Cerca de 1,2 milhão de carros movidos a bateria devem encerrar contratos de leasing e entrar no mercado de usados nos próximos 18 meses, segundo a Recurrent, empresa de pesquisa que fornece dados sobre elétricos usados a concessionárias e consumidores.

Uma brecha na legislação promulgada sob o presidente Joe Biden fez o leasing de elétricos disparar para mais de 75% de todas as transações de elétricos a partir de dois anos atrás, comparado com cerca de 20% para modelos a gasolina, segundo a empresa de pesquisa automotiva Edmunds.com.

Muitos desses carros estão retornando ao mercado de usados com anos de proteção restante de sua garantia original de fábrica, que muitas vezes cobre baterias de elétricos por oito a dez anos ou 160 mil quilômetros, disse Srini Rajagopalan, vice-presidente de dados e análises da empresa de pesquisa J.D. Power.

A dinâmica de oferta deve ajudar os consumidores a encontrar um bom negócio num veículo movido a bateria nos próximos dois anos.

“Você vai ver essa enxurrada de elétricos usados chegando que tiveram grandes descontos dois anos atrás e foram principalmente alugados, o que significa que vai haver elétricos usados mais baratos agora”, disse ele.

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Outro impulsionador da demanda é a diversidade de ofertas no pátio de elétricos usados. Três anos atrás, a Tesla (TSLA) dominava o mercado de elétricos novos e usados com seu punhado de modelos.

Agora, consumidores que não querem comprar um carro feito por Elon Musk podem navegar por uma ampla variedade de elétricos de General Motors, Hyundai, Volkswagen, Rivian, Mercedes-Benz e outras.

A seleção de elétricos usados nos pátios das concessionárias triplicou nos últimos quatro anos, de menos de 40 modelos disponíveis em 2022 para mais de 120 agora, segundo a Cox.

“Três anos atrás, estava limitado a sedãs e crossovers”, disse Andrew Garberson, chefe de pesquisa da Recurrent. “Agora você vê picapes e SUVs de três fileiras de assentos e crossovers de luxo e crossovers mais acessíveis. São justamente o tipo de carros que as pessoas querem comprar.”

Heidi Dresbach notou pela primeira vez o elegante Cadillac Lyriq elétrico num semáforo enquanto dirigia seu SUV Lincoln de nove anos e pensou: “Adoro o visual desse carro.”

Mas ela se desanimou com o preço de tabela de US$ 65 mil a US$ 75 mil (R$ 330 mil a R$ 381 mil). Isso pelo menos até ela encontrar um modelo 2024 usado online com apenas 4.800 quilômetros rodados por pouco mais de US$ 36 mil (R$ 189 mil) e ir direto para a concessionária perto de Cleveland.

“Eu estava convencida antes mesmo de sair do estacionamento para o test drive”, disse Dresbach, de 56 anos, consultora de gestão de patrimônio que passa muito tempo na estrada a trabalho.

Embora ela adore seu Lyriq azul-claro, poder evitar a bomba de combustível foi grande parte do motivo para a sua decisão.

“O custo para abastecer ultimamente tem sido de US$ 65, US$ 70 (R$ 330, R$ 355)”, disse ela. “Quando você dirige 1.900 quilômetros por mês, isso faz muita diferença.”

-- Com a colaboração de Max Rivera.

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