Bloomberg Línea — O dólar parou de dar sobressaltos na Argentina sob a gestão de Javier Milei, e os assentos dos aviões que saem do Brasil voltaram a ficar disputados como não se via desde antes da pandemia, segundo as estatísticas oficiais.
Boa parte desses passageiros vem para eventos como congressos de três ou quatro dias e vai embora assim que eles terminam, relataram fontes da hotelaria e da gastronomia portenha à Bloomberg Línea.
O público brasileiro tem hoje a estadia mais curta entre todos os estrangeiros que chegam à capital argentina. Nos hotéis portenhos, o salão de eventos, o banquete e o restaurante ganharam peso ao lado da diária.
A virada é recente. Em 2025, as chegadas de brasileiros por via aérea despencaram 21,5%, para 649,5 mil pessoas, o pior resultado desde a reabertura pós-pandemia.
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O fluxo voltou a crescer no fim daquele ano e não parou mais: de janeiro a julho, desembarcaram 428,5 mil brasileiros, alta de 22,1%, segundo o Indec (Instituto Nacional de Estatística e Censos), órgão oficial de estatísticas argentino.
Um em cada quatro turistas que chegam ao país tem passaporte brasileiro, a maior fatia entre todos os mercados emissores.
O tamanho do mercado, porém, não se converte em noites vendidas. Quem entra por Ezeiza e pelo Aeroparque Jorge Newbery vindo do Brasil dorme em média 6,6 noites, menos da metade do que fica um europeu e o menor tempo entre todos os públicos que abastecem a cidade.
Para a operação hoteleira, são mais entradas e saídas, mais camas refeitas, mais cafés da manhã servidos e menos diárias para diluir o custo de tudo isso.
Brasileiro de maior renda
O passageiro que desce do avião também é outro. Em frente à Casa Rosada, João Pedro Aguiar Gullo espera o grupo do dia para o walking tour que conduz de Puerto Madero até a praça. Ele tem 22 anos, é carioca, filho de pai argentino e mãe brasileira, e mora em Buenos Aires há quatro anos. Chegou em 2022 atraído pelo custo de vida e viu esse argumento evaporar depressa.
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“Antes vinha mais turista brasileiro porque a Argentina era um dos países mais baratos do mundo. Agora é um dos mais caros”, disse Gullo à Bloomberg Línea.
“Neste ano, vejo mais visitantes brasileiros de classes mais altas. Quem vem hoje para Buenos Aires sabe que os preços ainda estão elevados aqui. Antes vinha gente de todos os tipos, claro, tudo estava mais barato”, afirmou o guia.
Gastronomia
O diagnóstico se repete nas mesas. No El Gran Paraíso, parrilla instalada num conventillo de 1890 em Caminito, no bairro da Boca, com terraço voltado para a rua e cômodos do andar superior convertidos em salas de almoço, os brasileiros formam o público estrangeiro mais frequente, segundo Carlos Henault, anfitrião da casa.
“Eles gostam muito da carne argentina. Depois também adoram comprar artigos de couro como jaquetas e vinho”, disse Henault à Bloomberg Línea.
Para o anfitrião, a previsibilidade cambial destravou a decisão de viajar, porque permite calcular antes do embarque quanto custará a viagem entre a parrilla, as compras de couro e os passeios pela capital e arredores.
O movimento chega também ao varejo. O Parador Atalaya, fundado em 1942 em Chascomús como parada de estrada rumo a Mar del Plata e hoje conduzido pela terceira geração de sócios, transformou a fama das medialunas artesanais em rede de franquias e abriu no mês passado mais uma unidade na capital portenha, na turística esquina da Avenida Corrientes com a Gallo.
O aumento do turismo é um dos fatores que estimulam a expansão, segundo Maximiliano Rodríguez Otero, gerente sênior de marketing de crescimento e vendas da empresa.
“Convivemos com a hiperinflação há muito tempo. Não vamos deixar de investir em nossa expansão por causa disso”, disse o executivo.
A presença brasileira é audível nos programas obrigatórios do roteiro portenho. Português e portunhol se misturam ao espanhol nas filas do ônibus panorâmico que sai da Casa Rosada, passa pelo Congresso, pela Boca e por Puerto Madero e deixa passageiros nas Galerías Pacífico, e nas mesas do jantar-show do Palacio Tango, na rua Florida, que abre a noite com aula de tango.
O circuito de compras vai além das galerias do centro. No Patio Bullrich, na divisa da Recoleta com Retiro, o brasileiro divide corredor com grifes internacionais e com a moda argentina de marcas como Jazmín Chébar, Etiqueta Negra e La Martina, que não têm operação no Brasil.
Maiores gastos com cartões
Os meios de pagamento confirmam a leitura do balcão. Os gastos de brasileiros na Argentina com o cartão da Wise dobraram no primeiro semestre deste ano na comparação com igual período de 2025, com picos nas férias de janeiro e julho, informou a fintech, sem abrir valores absolutos nem número de clientes.
A tarifa mede o bolso exigido pela cidade. A diária média da categoria clássica do Sheraton Buenos Aires Hotel & Convention Center, no bairro de Retiro, é de US$ 200, com café da manhã incluído, e sobe para cerca de US$ 230 nas categorias superiores reformadas, informou o hotel. No Park Tower, a torre de luxo instalada ao lado, a média fica em torno de US$ 300, com suítes que chegam a US$ 1.000.
Os dois endereços pertencem à Marriott International, maior rede hoteleira do mundo, e somam mais de 900 quartos, o maior complexo da cidade. O Sheraton tem 704 apartamentos e suítes e um centro de convenções com 21 salas, cujo espaço principal, o Salón Libertador, recebe até 1.250 pessoas. Em grupos grandes, os executivos de nível mais alto ficam na torre de luxo e o restante da comitiva se hospeda no Sheraton, segundo o hotel.
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O calendário de congressos preenche o inventário nos meses em que o lazer não preenche. Saúde é o setor mais forte da casa, com dois encontros de odontologia no segundo semestre, seguido de gastronomia, tecnologia e esporte. Delegações de embaixada e times de futebol em datas de Libertadores completam o mix, e a maior parte dos congressos internacionais se hospeda no próprio complexo pela quantidade de salões disponíveis.
O perfil da casa espelha o da cidade. Buenos Aires lidera há 15 anos consecutivos o ranking da ICCA (International Congress and Convention Association) na América e ficou em 20º lugar no mundo em 2025, com 91 eventos homologados, à frente de Montreal, Lima, Cidade do México e São Paulo, informou o Ente de Turismo, órgão de turismo do governo da cidade. Ciências médicas responderam por 22% dos temas, e hotéis sediaram 19% dos encontros.
Há um contraponto que a rede hoteleira faz questão de registrar, e que a parrilla confirma. O brasileiro que viaja no inverno costuma escolher o sul do país, sobretudo a Patagônia, e dentro do portfólio da Marriott na Argentina o destino da estação fria é o Sheraton de Bariloche. Henault também aponta o verão como a alta temporada brasileira, acima do movimento atual.
A carestia descrita pelas fontes tem menos a ver com o índice de preços do que com a moeda. A inflação argentina rodou em 2,1% em julho e acumula 33,8% em 12 meses, segundo o Indec.
O que pesa no bolso do turista é a valorização do peso frente ao dólar: quanto mais forte a moeda local, mais cara fica a diária convertida, e mais estreito o público capaz de pagá-la.
“Não gosto do Milei, mas uma das coisas boas que tenho para falar é que ele estabilizou o dólar”, disse o guia.
A mesa asiática
O brasileiro não é o único estrangeiro que voltou a aparecer nas mesas portenhas. Henault, anfitrião da parrilla de Caminito, relata fluxo crescente de chineses, e atribui a mudança ao voo direto entre os dois países.
A rota existe desde dezembro de 2025, quando a China Eastern passou a ligar Shanghai a Buenos Aires com escala técnica em Auckland, na primeira conexão aérea regular entre os dois países e no voo comercial mais longo do mundo. Em maio, a companhia anunciou a duplicação das frequências.
Essas delegações chegam a alterar o buffet. Quando recebe grupos chineses, um dos grandes hotéis da capital serve um café da manhã mais substancial, com pratos quentes, segundo funcionário ouvido em condição de anonimato.
A mesma fonte cita as operações de empresas chinesas no país entre os motivos das viagens, caso da BYD, que constituiu subsidiária na Argentina.
O movimento de pessoas acompanha o de mercadorias. As exportações argentinas para a China cresceram 61,4% em 2025, e as importações de produtos chineses, 53,9%, segundo dados compilados pela XTransfer, plataforma de pagamentos para comércio exterior, para a Bloomberg Línea.
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