Bloomberg Línea — O Bradesco está mais bem preparado do que os concorrentes para enfrentar a deterioração do crédito no país, mesmo em meio à alta das provisões no trimestre, segundo o CEO do banco Marcelo Noronha. O tema tem dominado as conversas com investidores nos últimos dois meses, à medida que cresce a preocupação com o nível de endividamento das famílias brasileiras, disse ele nesta quinta-feira (6).
“Eu vejo o mercado mais pressionado pela inadimplência e por custos de crédito. Mas estamos um passo à frente, porque estamos com carteiras melhores”, afirmou Noronha a jornalistas durante entrevista coletiva para comentar os resultados do Bradesco no segundo trimestre.
A avaliação segue a mesma linha adotada pelo Itaú um dia antes. Na véspera, o CEO Milton Maluhy Filho também defendeu a resiliência da carteira do banco diante do cenário macroeconômico mais desafiador.
Segundo ele, a inadimplência “tem subido de forma acentuada” no sistema financeiro, mas não nas carteiras do Itaú — um descolamento que Maluhy atribuiu à composição do portfólio em linhas mais resilientes, além da maior concentração histórica do banco em clientes de renda média e alta.
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O Bradesco também tem buscado segmentos mais resilientes, e os executivos destacaram, principalmente, o foco em operações de crédito com garantia.
Entre as linhas citadas como prioritárias estão o crédito consignado, o crédito imobiliário, o financiamento de veículos seminovos e as operações com garantia do Fundo Garantidor de Investimentos (FGI) e do Fundo Garantidor de Operações (FGO).
Segundo o banco, essas linhas têm apresentado inadimplência inferior à média do mercado — no consignado privado, por exemplo, a taxa do Bradesco foi de 4,7%, ante 8,9% do restante do setor.
No entanto, o maior apetite para crescimento da carteira foi acompanhado de um aumento nos índices de provisão e de inadimplência.
A despesa com provisões para devedores duvidosos (PDD) expandida somou R$ 10 bilhões no período, alta de 22,6% na comparação anual. O custo de crédito ficou em 3,5%, estável em relação ao trimestre anterior, mas 0,3 ponto percentual acima do registrado um ano antes. Já a carteira em atraso acima de 90 dias fechou em 4,4% do total, ante 4,1% no mesmo período de 2025 — no segmento de pessoas físicas, o índice chegou a 5,5%.
Para Noronha, a alta das provisões representa o preço do crescimento, e não é motivo de alarme.
“Quando cresço carteira, chamo mais provisão. Estamos bem tranquilos com relação a isso porque estamos operando com colateral, para ter uma qualidade de crédito superior à do mercado”.
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Segundo a diretoria do Bradesco, a pressão sobre o custo de crédito no trimestre está concentrada em duas frentes específicas.
A primeira são as linhas garantidas pelo FGI e pelo FGO, cuja carteira cresceu 64% na comparação anual. Como essas operações têm um ano de carência e prazo total de até cinco anos, parte dos clientes atrasa o pagamento justamente ao vencer esse período inicial — o que aciona provisionamento contábil mesmo em operações com garantia.
A segunda frente é a carteira rural, pressionada pelo desempenho do Banco John Deere. Noronha disse esperar que esse efeito perca força à medida que a safra de crédito originada em 2025 for amadurecendo ao longo dos próximos trimestres.
“Vamos pagar [a PDD] com o top line e curar essas operações”, afirmou.
Apesar da pressão sobre a qualidade da carteira, Noronha afirmou ter “crença absoluta” de que o banco vai cumprir todas as linhas de sua projeção para o ano, buscando ficar na parte de cima do intervalo do guidance.
A expectativa é de crescimento entre 8,5% e 10,5% para a carteira de crédito, com margem financeira líquida entre R$ 42 bilhões e R$ 48 bilhões. As receitas com prestação de serviços devem avançar de 3% a 5%, e o resultado das operações de seguros, entre 6% e 8%. Já as despesas operacionais devem crescer de 6% a 8% no ano.
A diretoria também comentou o aporte anunciado pelas associações controladoras do banco, aprovado em reunião do conselho de administração em 29 de junho.
“[As associações controladoras] estão nos dando um voto de confiança de R$ 8 bilhões”, disse o CFO Cassiano Scarpellium, classificando a decisão como um sinal de confiança na franquia e no plano de transformação em curso no banco.
Após a divulgação dos números, as ações do Bradesco (BBDC4) operavam em queda de cerca de 2,6% por volta das 12h. No ano, os papéis acumulam baixa de 3,14%, contra alta de 10% do Ibovespa no período.
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