Black Friday: Mercado Livre reforça aposta em descontos diante de Amazon e Shopee

Líder de e-commerce na América Latina tenta conter a pressão de rivais com investimento de US$ 19 milhões em cupons para a importante data de vendas; plano agressivo ocorre em momento de queda das ações e revisão de preço-alvo de analistas

João Pedro Soares, analista do Citigroup, reduziu o preço-alvo da ação do MELI de US$ 2.700 para US$ 2.500 e citou “ruídos persistentes da concorrência”
Por Leda Alvim - Rachel Gamarski - Maria Clara Cobo
25 de Novembro, 2025 | 03:44 PM

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Bloomberg — O Mercado Livre domina o mercado de compras online na América Latina há muito tempo, mas, nesta temporada de festas de fim de ano, enfrenta uma batalha para se defender de rivais de ambos os lados do Oceano Pacífico.

De um lado está a Amazon, uma gigante global com recursos aparentemente ilimitados. Do outro, empresas asiáticas como a Shein e a Shopee visam atrair consumidores que possuem orçamentos mais modestos, e isso por meio da oferta de produtos a preços baixos.

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O Brasil é o principal alvo: com grande potencial de crescimento econômico e onde apenas cerca de 15% da população realiza compras online atualmente, segundo dados do Itaú BBA.

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Essa repentina disputa por clientes assusta parte dos investidores do Mercado Livre.

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As ações do Meli caíram quase 8% em questão de horas neste mês, após a Amazon divulgar que fechou um acordo com o Nubank para oferecer novas opções de pagamento — e mais crédito — aos clientes brasileiros.

Desde então, as ações caíram cerca de 6% nas três semanas seguintes e chegaram próximo ao patamar de US$ 2.000.

Ações do Mercado Livre sob pressão

Analistas alertaram que os lucros do Mercado Livre, a maior empresa da América Latina em valor de mercado, podem ser afetados.

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Ainda assim, as ações negociadas na Nasdaq ainda acumulam ganhos da ordem de 20% em 2025, em linha com a valorização do Nasdaq Composite.

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Na semana passada, o analista João Pedro Soares, do Citigroup, emitiu uma “visão negativa de curto prazo de 90 dias” para as ações, citando “ruídos persistentes da concorrência” e mencionando Amazon e Shopee.

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Ele também reduziu seu preço-alvo de US$ 2.700 para US$ 2.500, mantendo a recomendação de “compra” para as ações.

O Mercado Livre reagiu ao oferecer suas próprias vantagens e investiu quase US$ 19 milhões em cupons para sua próxima promoção da Black Friday, o maior investimento da história para o evento e cerca do dobro do que a Amazon gastou.

No início deste ano, reduziu as condições para que os clientes recebessem frete grátis. Para Rodrigo Gastim, analista do Itaú, a estratégia significa que a empresa está disposta a abrir mão de parte de suas margens de lucro para consolidar sua posição de liderança.

“Competimos por muitos anos não apenas com plataformas asiáticas mas também com outros líderes globais do setor”, afirmou o Mercado Livre em comunicado.

“Esse ambiente competitivo sempre nos impulsionou a elevar nossos padrões e buscar a excelência, o que nos permitiu liderar o mercado em todas as regiões em que atuamos.”

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Juan Martin de la Serna, diretor da operação do Mercado Livre na Argentina, lembra-se de quando a Amazon chegou ao Brasil há cerca de uma década.

“Eles nos obrigaram a elevar o padrão e a sermos muito mais agressivos”, disse ele em uma conferência em Buenos Aires no início deste mês.

Isso é especialmente verdadeiro agora. A Amazon investiu mais de US$ 10 bilhões no Brasil, sendo que cerca de um quarto desse valor foi investido nos últimos 18 meses, afirmou Juliana Sztrajtman, CEO da empresa no Brasil.

Uma das principais iniciativas é a isenção de taxas para vendedores que utilizam seus serviços de logística, numa tentativa de atrair novos fornecedores para a plataforma.

Ao mesmo tempo, empresas asiáticas fincam sua bandeira na região. A Temu, da PDD Holdings, tinha 105 milhões de usuários ativos mensais na América Latina no primeiro semestre de 2025, segundo a Sensor Tower, que monitora o comportamento do consumidor.

De la Serna tem criticado essas empresas e sua abordagem na região, chamando-as de vendedoras de “produtos de baixa qualidade”.

Essa visão é compartilhada por legisladores brasileiros. No ano passado, eles impuseram uma taxa de 20% sobre importações de baixo custo, em uma medida direcionada principalmente a empresas asiáticas de fast fashion.

Descontos, benefícios e até mesmo intervenção governamental não são as únicas armas na batalha do e-commerce.

As plataformas online também têm usado o poder das celebridades. Os astros do futebol Neymar e Ronaldo são garotos-propaganda do Mercado Livre, enquanto a Amazon contratou a atriz e apresentadora de televisão Tatá Werneck.

Terry Crews, figura constante em Hollywood, é um promotor da Shopee, e falou português em um anúncio da empresa de Singapura.

Soares, analista do Citi, afirmou que a disputa corporativa pode levar a uma revisão para baixo das expectativas de lucro do mercado para o Mercado Livre.

Ele se mostra otimista, no entanto, de que a empresa, que registra 27 trimestres consecutivos de crescimento de dois dígitos na base anual, continuará investindo para garantir sua posição de destaque.

“O MELI é o vencedor a longo prazo”, escreveu ele, mas “isso exigirá investimentos maiores”.

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