Batalha global pela Braskem esquenta com oferta de R$ 10 bilhões da J&F

Maior petroquímica do país tem agora 3 propostas de compradores com diferentes perfis, sem contar eventual interesse da Petrobras, que pode embaralhar a disputa

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Bloomberg — Uma guerra global de lances pelo controle da gigante petroquímica brasileira Braskem (BRKM5) está esquentando em meio às pressões para que seu principal acionista venda sua participação na empresa que está pronta para um crescimento explosivo de longo prazo.

Três ofertas concorrentes de grandes compradores estão na mesa. A Abu Dhabi National Oil e a Apollo Global Management fizeram uma oferta conjunta de R$ 37,5 bilhões para adquirir todas as ações da empresa em maio; no mês seguinte, o grupo químico brasileiro Unipar Carbocloro sugeriu a compra de uma participação de 34,4% da acionista Novonor (ex-Odebrecht) por R$ 10 bilhões.

Nesta semana, um terceiro interessado fez sua oferta: a J&F Investimentos, holding da bilionária família Batista, se propôs a pagar R$ 10 bilhões por uma participação da Braskem.

O frenesi de propostas ressalta o papel fundamental que a Braskem atua no mercado petroquímico da América Latina.

É líder em resinas termoplásticas nas Américas, com fábricas no Brasil e em outros lugares que podem ser ampliadas conforme o necessário, tornando-se um ativo extremamente atraente para empresas que buscam capitalizar uma demanda crescente por plásticos, tintas, autopeças e outros produtos petroquímicos.

Como a demanda futura por petróleo deve diminuir durante a próxima transição energética, as empresas de commodities estão procurando diversificar para novos setores e, para muitas delas, os petroquímicos estão no topo da lista.

“É uma oportunidade única de marcar presença em um mercado em crescimento como o Brasil”, disse Gabriel Barra, analista do Citigroup. “Criar uma empresa como a Braskem do zero é quase impossível.”

Apesar da perspectiva otimista de longo prazo do setor, o principal acionista, a Novonor, está sob pressão para vender sua participação na Braskem como parte de um plano de desinvestimento que está em andamento há anos.

A empresa usou suas ações da Braskem como garantia em dívidas que não foram pagas quando se envolveu em um amplo escândalo de corrupção em meados da década de 2010. Em 2019, uma negociação com a LyondellBasell terminou sem transação. Uma oferta de ações foi cancelada em 2022.

O interesse na Braskem decolou depois que suas ações caíram em março para o nível mais baixo em três anos. Desde então, as ações ordinárias subiram à medida que os interessados colocavam suas propostas. Nesta quarta, as ações inicialmente subiram mais de 4% após a notícia sobre a oferta da J&F.

Analistas dizem que a Braskem é atraente por vários motivos. Suas fábricas no Brasil, no México, nos EUA e na Europa ajudam a protegê-la de picos de inflação localizados ou quedas de demanda.

Enquanto isso, uma população de 660 milhões de pessoas da América Latina provavelmente verá um aumento na demanda por produtos petroquímicos a longo prazo, enquanto a região é um importador líquido, disse Rina Quijada, especialista do setor na S&P Global Commodity Insights.

Para a Adnoc, que extrai quase todo o petróleo dos Emirados Árabes Unidos, a compra seria uma ajuda para a empresa se expandir além de sua principal indústria e entrar em novas regiões.

Para a J&F, principal acionista da maior fornecedora de carnes do mundo - a JBS (JBSS3), a Braskem também seria uma forma de diversificação, depois que o grupo entrou no negócio de mineração ao adquirir parte dos ativos da Vale. A oferta da Unipar, por sua vez, a ajudaria a aumentar sua posição de mercado.

Ainda assim, o negócio pode enfrentar obstáculos.

Disputas legais pesam sobre a Braskem, que reservou R$ 6,1 bilhões para possíveis pagamentos vinculados a milhares de casas destruídas no estado de Alagoas, onde as autoridades dizem que as minas de sal da empresa desestabilizaram o solo de edifícios. Na semana passada, a empresa confirmou que ainda está em contrato com o governo local sobre o tamanho do acordo.

Também complica potencialmente a situação o segundo maior acionista da Braskem, a Petrobras (PETR3, PETR4). Como o governo federal, controlador da estatal, considera o setor petroquímico estratégico, pode favorecer a Unipar e a J&F, ambas empresas brasileiras.

O governo brasileiro quer que a Petrobras continue como acionista da Braskem, disse o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, em um evento no Rio de Janeiro em junho, acrescentando que o Brasil precisa continuar sendo um líder no setor.

A Petrobras solicitou na segunda (10) acesso ao data room virtual da empresa petroquímica, iniciando seu próprio processo de due diligence. A estatal tem direitos de preferência na participação da Novonor.

“A indústria petroquímica é estratégica, fundamental para o crescimento do país”, disse Silveira. A Petrobras detém uma participação de 36,1% na Braskem, bem como 47% de suas ações com direito a voto, em comparação com as participações de 38,3% e 50,1% da Novonor, respectivamente.

Os credores também podem inviabilizar qualquer negócio.

Alguns credores da Novonor, que atualmente detêm a participação na Braskem como garantia em mais de R$ 14 bilhões em empréstimos não pagos, não gostaram da proposta da Unipar porque implicariam um desconto no valor de face da dívida, disseram pessoas familiarizadas com o tema.

A Unipar também pagaria parcelado, enquanto os credores prefeririam receber o pagamento à vista, segundo pessoas que pediriam anonimato.

A oferta da J&F, por outro lado, seria paga à vista e em dinheiro, mas também implicaria um desconto na dívida. A oferta da Adnoc com a Apollo não agrada os credores da Novonor, porque apenas parte do negócio seria em dinheiro, com o restante em títulos e warrants, informaram as pessoas.

Embora a Novonor tenha respondido positivamente à proposta da Unipar, a concorrência é acirrada. A Unipar pediu um período de ocorrido nas 180 dias, pois pretende iniciar um processo de due diligence que considera caro, disse às pessoas. Alguns bancos estão considerando conceder de 60 a 90 dias, enquanto outros estão simplesmente recusando, de acordo com as pessoas.

Uma guerra de ofertas pode trazer “um risco de alta interessante”, disse Barra em um relatório no mês passado. Ainda assim, há um longo trabalho pela frente. “O capítulo final do M&A ainda está longe de acontecer no curto prazo.”

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