Bloomberg Línea — Depois de apresentar um balanço do terceiro trimestre que frustrou parte dos analistas, a Ambev (ABEV3) avalia que o desempenho de cerveja no Brasil foi afetado pelo calendário da Copa do Mundo e que a companhia mantém o ganho de participação de mercado no país.
O volume de cerveja no Brasil da dona de marcas como Spaten e Brahma cresceu 0,5% no terceiro trimestre na comparação anual, enquanto a indústria avançou cerca de 4% no período, segundo a Nielsen.
O consenso de analistas apontava alta de cerca de 3% para a Ambev. O EBITDA ajustado da unidade, que responde por metade do EBITDA da companhia no acumulado do ano, ficou 6% abaixo do consenso, de acordo com o Citi.
Em entrevista à Bloomberg Línea, o diretor vice-presidente financeiro da Ambev, Guilherme Fleury, afirmou que o resultado precisa ser avaliado em conjunto com o do segundo trimestre, já que o torneio de futebol foi disputado entre o fim de um período e o início do outro.
“Esse é um ano atípico. Quando a Copa do Mundo acontece, você tem essa mudança na indústria”, disse Fleury.
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O efeito aparece na comparação entre dois indicadores. O chamado sell-in corresponde às vendas da fabricante para distribuidores, supermercados e bares. Já o sell-out mede as vendas desses pontos ao consumidor final, ou seja, o volume que sai das prateleiras e dos balcões. A diferença entre os dois mostra se o varejo formou ou consumiu estoques no período.
No segundo trimestre, o sell-in da Ambev cresceu 5%, enquanto o sell-out da companhia medido pela Nielsen subiu 1,8%, em um período de leve queda da indústria.
Os números sugerem que o varejo se abasteceu antes da Copa do Mundo. No terceiro trimestre, a relação se inverteu. O sell-in avançou 0,5%, e o sell-out, 5,4%.
“A maneira mais fácil de tirar um pouco esse ruído da leitura é olhar o segundo trimestre e o terceiro trimestre juntos”, afirmou o executivo.
Na soma dos dois trimestres, o sell-in da companhia cresceu 2,7% e o sell-out, 3,5%, ante uma alta de 1,3% da indústria. Desse avanço do setor, cerca de metade veio da Copa do Mundo, segundo Fleury.
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A diferença entre o desempenho da Ambev e o da indústria corresponde ao ganho de participação de mercado da companhia, disse ele.
“O share não é medido pelo quanto eu vendo, mas por quantos consumidores vão à gôndola, ao bar do seu José, da dona Maria, e pegam a nossa cerveja”, afirmou Fleury.
O diretor disse que o ganho de participação ocorreu nos principais canais de venda, nas diferentes regiões do país e em diferentes segmentos do portfólio, como premium, cervejas de baixa caloria e sem álcool.
Base de comparação
Fleury também contestou a avaliação de parte do mercado de que a queda das vendas de cerveja em 2025 criaria uma base de comparação fácil para este ano.
Para a Ambev, 2023 e 2024 foram anos excepcionais, impulsionados por dois fatores. A economia cresceu cerca de uma vez e meia a média histórica, e o fenômeno El Niño elevou as temperaturas acima da média.
“Na nossa visão, 2025 deu um reset na base da indústria no Brasil, à medida que esses dois fatores voltam à média histórica”, disse.
Segundo ele, a companhia analisou no ano passado, com o CEO Carlos Lisboa e a área de inteligência de mercado, se a queda da indústria em 2025 tinha caráter estrutural ou cíclico. A conclusão foi de que se tratava de um movimento cíclico. Por isso, a Ambev manteve os investimentos em vendas, marketing, inovação e capex.
O executivo reconheceu, porém, que o ambiente de consumo segue mais restrito. De acordo com Fleury, o consumo das famílias cresce hoje cerca de um terço do ritmo registrado em 2023 e 2024, segundo os modelos da companhia.
“A renda disponível continua pressionada. Você vê que a inflação de alimentos está alta, o endividamento das famílias”, afirmou.
Leitura dos analistas
As ações da Ambev fecharam em queda de 4,40% na quinta-feira (29), a R$ 14,55, depois da divulgação do resultado.
O Citi, que tem recomendação neutra para a ação, afirmou em relatório que a divergência trimestral entre a Ambev e a indústria merece acompanhamento, embora o efeito de calendário e o ganho de participação em dois trimestres ofereçam contexto.
O banco citou o crescimento de um dígito médio da Heineken no período, mas ponderou que a concorrente tinha uma base de comparação mais fraca, após queda de 12% no terceiro trimestre de 2025.
O Itaú BBA, com recomendação equivalente a neutra, classificou o resultado como mais um trimestre abaixo do esperado em cerveja no Brasil.
Para o banco, o debate deve se deslocar para a capacidade de repasse de custos em 2027 e 2028, diante da desvalorização do real, de um consumo mais fraco e da sinalização da Heineken de que pode repassar entre 75% e 90% da inflação em preços nas Américas.
Questionado sobre os efeitos da alta do dólar e dos juros após a eleição, Fleury não detalhou mudanças na estratégia. Ele disse que a companhia tem compromisso de longo prazo com o país, independentemente do governo. A Ambev informou no balanço que já contratou hedge para toda a sua exposição ao dólar em 2027.
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