Além do BBB: reality empresarial vai premiar 10 PMEs com listagem na ‘neobolsa’ BEE4

Rota Fácil selecionará 10 PMEs para listagem gratuita em bolsa e registro de empresa de capital aberto, disse o chairman Rodrigo Fiszman à Bloomberg Línea. Programa estreia em março com jurados como Gustavo Cerbasi e Renata Vichi

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20 de Janeiro, 2026 | 08:21 AM

Bloomberg Línea — Enquanto 23 participantes disputam R$ 5,44 milhões na 26ª edição do BBB (Big Brother Brasil), que estreou nesta segunda-feira (12) na TV Globo, 15 empresários brasileiros se preparam para competir em outro reality show televisionado: a conquista de uma vaga em uma nova modalidade de mercado de capitais.

A BEE4, que se posiciona como uma “neobolsa” dedicada a PMES (pequenas e médias empresas), desenvolveu o programa Rota Fácil, um reality show nos moldes do Shark Tank Brasil que estreia em março na BM&C News.

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“Tecnicamente, utilizamos na CVM [Comissão de Valores Mobiliários] uma estrutura de mercado de balcão. Mas o funcionamento é de bolsa. Para o investidor final, somos a bolsa das pequenas e médias empresas brasileiras”, disse Rodrigo Fiszman, chairman da BEE4, à Bloomberg Línea.

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A diferença entre o Rota Fácil e o Shark Tank Brasil está no prêmio: enquanto no programa originalmente americano empresários disputam investimento direto, no primeiro caso o objetivo é conquistar uma vaga no mercado de capitais.

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A plataforma da BEE4 é o único mercado de valores regulado pela CVM focado em PMEs no Brasil.

Criada no âmbito do sandbox regulatório e inspirada em modelos como AIM (Reino Unido) e TSX (Canadá), a BEE4 faz uso de tecnologia blockchain.

Até dezembro de 2025, teve 589.791 tokens negociados, R$ 27,5 milhões em ações tokenizadas e 171 pregões realizados.

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Rodrigo Fiszman, chairman da BEE4

O papel da BEE4 no programa vai além da produção: a “neobolsa” subsidiará todo o custo de listagem das 10 vencedoras, em parceria com a Baker Tilly (auditoria) e o escritório Machado Meyer (assessoria jurídica). O pacote inclui assessoria jurídica, auditoria e taxas regulatórias e pode chegar a estimados R$ 400 mil por empresa.

Empresas participantes

Foram selecionadas empresas com perfil PME que faturam entre R$ 50 milhões e R$ 200 milhões por ano: Santa Angela, Kinase - Stoque, Escad, Vapza Alimentos, Habitare, Arrazantty, Vellore, Plastiflour, Safertrip, Grupo RAO, 3E Eficiência Energética, GBI Combustível, Wittel Comunicações, Glux e Tuttors.

“Muitas delas já eram auditadas”, disse Fiszman.

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Segundo ele, uma pergunta foi levada em conta com atenção particular na seleção: “a empresa utiliza um ERP financeiro?”

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“Uma companhia que não utiliza um sistema de controle financeiro não consegue fazer auditoria dentro de um ano”, explicou.

As empresas finalistas vão apresentar seus planos de negócio para um painel com quatro jurados: Rogério Salume (fundador da Wine), Renata Vichi (Grupo CRM - Kopenhagen/Brasil Cacau), Luciana Wodzik (ex-diretora da Arezzo) e Gustavo Cerbasi (educador financeiro).

Acesso ao mercado de dívida

As vencedoras ganham acesso a um mercado de difícil entrada.

No Brasil, fundos de investimento administram aproximadamente R$ 2,5 trilhões em crédito privado. Esses fundos só podem comprar crédito de companhias registradas como sendo de capital aberto na CVM.

Hoje apenas 700 empresas no país têm esse registro. E é justamente esse registro, que destrava o acesso à BEE4 e ao mercado de capitais, que as dez PMEs vencedoras do Rota Fácil ganham: isso abre caminho para a emissão de debêntures e a venda de crédito para fundos institucionais.

Fiszman, por outro lado, disse não esperar que as empresas vencedoras do programa façam ofertas públicas de ações em 2026.

“Tenho expectativa de que façam operações de dívida, como debêntures.”

No quadro com juros que seguem elevados, operações de equity ficam mais difíceis - na B3, o último IPO foi realizado em setembro de 2021.

Mas o mercado de dívida continua aquecido.

Custos menores

No mercado tradicional, preparar uma empresa para abrir capital consome entre R$ 5 milhões e R$ 10 milhões.

Com o regime FÁCIL (Facilitação do Acesso a Capital e de Incentivo à Listagens), aprovado pela CVM, esses custos caem para algo entre R$ 300 a R$ 400 mil, o que torna viável - ou menos impraticável - o acesso à bolsa para empresas menores.

“O empresário consegue pagar. É uma questão de priorizar esse tema na agenda da companhia”, disse Fiszman.

O regime deveria ter entrado em vigor em 2 de janeiro, mas foi adiado para 16 de março para ajustes técnicos.

Uma correção se deu na exigência de auditoria: a versão inicial exigia três anos para empresas de capital fechado e um ano para abertas. Agora são 12 meses para todas.

O regime permite que empresas com faturamento até R$ 500 milhões façam ofertas de até R$ 300 milhões. Fiszman estima que o tamanho médio das captações fique próximo de R$ 50 milhões.

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No Brasil, 380 mil empresas faturam entre R$ 10 milhões e R$ 500 milhões por ano. Dessas, apenas 10% já são sociedades anônimas.

“A empresa que está preparada para ser uma SA auditada vai conseguir fazer qualquer operação, seja com private equity, seja pelo FÁCIL”, disse Fiszman.

Cases da nova bolsa

A BEE4 já listou empresas como Mais Mu, Plamev Pet, Eletroenergia e Engravida.

A Mais Mu realizou uma oferta pública pulverizada e depois recebeu investimento de um fundo da British American Tobacco (BAT). Hoje tem quase mil pessoas físicas como acionistas minoritários.

Para o chairman da BEE4, esse é um exemplo de como o private equity e o mercado de capitais podem se complementar.

O executivo disse reconhecer que ainda falta informação sobre esse mercado, de modo que o programa busca preencher essa lacuna ao mostrar o que classificou como casos reais de sucesso.

“O objetivo é fomentar esse ambiente, mostrando histórias de empreendedores e que é possível, mesmo sendo uma companhia que fatura R$ 50 milhões, R$ 100 milhões, R$ 200 milhões, realizar uma abertura de capital no mercado de acesso”.

- Texto corrigido sobre o nome do canal que divulgará o reality show, às 10h

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