Adeus, gasolina: alta de combustíveis provoca salto nas vendas de elétricos na Europa

Emplacamentos de veículos 100% elétricos disparam 52% em agosto no continente, enquanto motoristas reclamam do reajuste dos combustíveis fósseis e marcas chinesas ganham participação de mercado

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Bloomberg Línea — Depois de anos de esforços em grande parte fracassados para afastar os motoristas dos motores a combustão, as vendas de veículos elétricos estão disparando na Europa, impulsionadas pela alta dos preços dos combustíveis provocada pela turbulência geopolítica.

Os emplacamentos de carros 100% elétricos saltaram 52% na região em agosto na comparação com o mesmo mês do ano anterior, segundo dados publicados na quinta-feira (24) pela Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis.

A Alemanha, maior mercado, liderou o avanço, com alta de 75%, enquanto as vendas na França mais que dobraram.

“Quando os preços dos combustíveis sobem, a questão do custo de uso se torna superconcreta para os clientes”, disse Xavier Chardon, chefe da Citroën, marca da Stellantis, em entrevista à Bloomberg News. “Comprar um carro elétrico deixa de ser uma escolha tecnológica e passa a ser uma escolha econômica.”

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Um dos principais motivos para o salto na demanda por carros elétricos é o aumento do custo de rodar com motores tradicionais movidos a combustíveis fósseis, que disparou com a alta do preço do petróleo.

A guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã interrompeu o tráfego de petroleiros pelo Estreito de Ormuz, o que levou o preço médio do litro da gasolina na Alemanha a um recorde de € 2,31.

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O diesel está ainda mais caro no berço do automóvel moderno, já que os ataques ucranianos a refinarias russas restringem a oferta global.

Os preços do combustível, que abastece cerca de 30% dos carros na Europa, devem continuar subindo diante da especulação de que os Estados Unidos possam limitar as exportações.

O governo do presidente Donald Trump avalia restrições para aliviar a pressão sobre os preços domésticos, que também atingiram recordes, elevando os custos para o transporte de cargas e para os agricultores.

Com a migração dos compradores europeus para os carros elétricos, até agosto mais de um em cada três veículos vendidos era plug-in, ante pouco mais de um em cada quatro antes.

Economia com transporte

O cenário é parecido em toda a região, onde a alta dos combustíveis atinge famílias com o orçamento apertado que já têm dificuldade para fechar as contas. Os preços subiram mais de 25% nos principais mercados.

Isso também prejudica empresas que dependem de transporte. Para Charles Rivière, pescador de 54 anos de Luc-sur-Mer, no litoral norte da França, o custo crescente para abastecer sua van e seu barco faz com que ele precise que muito mais parisienses comprem seus frutos do mar para que a viagem de ida e volta à capital valha a pena.

“Eu costumava ter lucro com apenas 12 ou 13 clientes em Paris”, disse Rivière enquanto preparava ostras durante um evento comunitário ao ar livre no 14º arrondissement da capital francesa.

“Agora não venho mais se não tiver pedidos de pelo menos 20 clientes, e eles estão cada vez mais escassos”, acrescentou. “Quando não venho, tenho renda zero.”

Para uma parcela crescente de motoristas, a solução é migrar para a bateria. Na Alemanha, carregar em casa um carro elétrico de categoria intermediária ou de luxo custa atualmente cerca de 70% menos do que abastecer um carro a gasolina, segundo análise do site de comparação de preços Verivox.

Os carros elétricos já vinham ganhando tração na Europa no início deste ano, com o lançamento de modelos mais acessíveis pelas montadoras, como o compacto urbano Twingo E-Tech, da Renault, que parte de € 19.490, e o SUV compacto Skoda Elroq, da Volkswagen, de € 37.890.

Ao longo deste ano, o forte aumento da demanda por elétricos ajudou a compensar as quedas acentuadas dos veículos movidos apenas a combustível. As entregas totais subiram 5,3% em agosto, segundo a entidade do setor.

Os governos também oferecem apoio financeiro, sobretudo para as famílias de menor renda. Na Alemanha, motoristas abaixo de determinado limite de renda podem obter até € 6.000 de desconto no preço de compra de um carro elétrico. Na França, um programa pode reduzir as parcelas mensais para menos de € 100 em alguns modelos, como o compacto urbano Citroën ë-C3.

Autonomia das baterias

A preocupação com a autonomia insuficiente das baterias também diminuiu. O crossover elétrico Capri de longo alcance, da Ford, pode rodar mais de 600 km com uma única carga, no mesmo patamar do EX60 intermediário da Volvo Cars.

Ainda assim, para as tradicionais montadoras europeias, o tão esperado boom dos elétricos traz um revés embutido. O setor viu dezenas de bilhões evaporarem quando oscilações na demanda e mudanças abruptas de regulação nos Estados Unidos obrigaram as empresas a redimensionar suas expectativas de vendas.

A Stellantis, dona da Opel, liderou as baixas contábeis, com uma provisão sem precedentes de € 25,4 bilhões referente ao ano passado. A fabricante dos modelos Jeep e Ram sofreu um golpe adicional após a reversão da política dos Estados Unidos para os elétricos sob o presidente Donald Trump.

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As montadoras reagiram aprofundando as medidas de corte de custos que já estavam em curso. A Volkswagen, maior fabricante da região, leva adiante planos para dobrar os cortes de vagas no mundo para 100 mil. Na sexta-feira, a empresa reduziu sua projeção de lucro para este ano por causa de uma forte retração na China.

As dificuldades da Europa abrem mais espaço para as montadoras chinesas, que oferecem tecnologia sólida a preços acessíveis. O compacto urbano elétrico de entrada Dolphin Surf, da BYD, parte de € 22.990, e a empresa também oferece a clientes na Itália descontos de até € 11.600.

Recorde chinês

As marcas chinesas alcançaram uma participação recorde de quase 12% no total de vendas de carros novos na Europa em agosto, segundo dados da Dataforce publicados na quarta-feira (23).

Com a perda de apoio do eleitorado à coalizão governista do chanceler alemão Friedrich Merz , os governos federal e estaduais da Alemanha fecharam na semana passada um pacote de alívio de € 2,5 bilhões para motoristas e empresas.

Na Itália, o governo da primeira-ministra Giorgia Meloni anunciou neste mês um corte no imposto sobre a propriedade de veículos, antes da eleição nacional do ano que vem.

Na França, cresce a preocupação de que a mais recente crise de custo de vida no país possa desencadear uma nova onda de protestos, semelhante à dos “coletes amarelos” em 2018.

Na última semana, pescadores bloquearam vários portos e um depósito de combustível no litoral do Mediterrâneo, e alguns postos de gasolina no norte do país foram vandalizados.

“Os motoristas não estão mais enchendo o tanque por completo”, afirmou Jacques Vaysse, dono de um posto de gasolina independente em Salles-Curan, vilarejo na região de Aveyron, no sudeste da França.

“Vai haver uma consequência social, a menos que o governo reduza os impostos sobre os combustíveis.”

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