Venezuela está entre os 10 maiores riscos para os mercados em 2026, segundo 15 bancos

Análises mapeiam os principais riscos que os mercados enfrentarão neste ano, como um possível choque energético derivado do conflito na Venezuela e a fragmentação geopolítica e comercial entre as grandes potências

Traders work on the floor of the New York Stock Exchange (NYSE) in New York, U.S., on Monday, April 17, 2017. U.S. stocks rebounded from a weekly slide, while the dollar weakened as traders returned from a long weekend that failed to deliver major geopolitical events that threaten global growth. Photographer: Michael Nagle/Bloomberg
05 de Janeiro, 2026 | 02:33 PM

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Bloomberg Línea — A ofensiva militar dos EUA em Caracas e a captura de Nicolás Maduro se somam às incertezas que marcam o início do ano para a economia global. O caso, que marca o início de uma possível transição política na Venezuela, levanta questões importantes sobre o equilíbrio do mercado de petróleo e o valor dos ativos venezuelanos.

Os analistas do JPMorgan Asset Management já haviam destacado que “os riscos em torno do cenário base são amplos” para este ano, descrevendo um cenário no qual os efeitos defasados de decisões anteriores estão começando a surgir com força. Essa tensão entre expectativas otimistas e vulnerabilidades estruturais define grande parte do novo ciclo.

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A Bloomberg Línea analisou os relatórios desse banco junto com os de Goldman Sachs, State Street Global Advisors, Morgan Stanley Wealth Management, BlackRock Investment Institute, Invesco, HSBC Asset Management, Fidelity International, Capital Economics, Macquarie Asset Management, Allianz Global Investors, BNP Paribas, Natixis Investment Managers, RBC Dominion Securities e Ashmore.

Em conjunto, as análises mapeiam os principais riscos que os mercados enfrentarão em 2026: inflação estrutural mais persistente do que o esperado; desequilíbrios fiscais devido aos altos déficits e ao aumento da dívida; incerteza política nos principais ciclos eleitorais; e uma possível correção do mercado impulsionada pela concentração excessiva em ações de tecnologia.

A isso se somam: vulnerabilidades no crédito privado; riscos de reversão abrupta na renda fixa; pressões cambiais sobre as economias emergentes com ênfase na América Latina, um possível choque energético derivado do conflito na Venezuela, fragmentação geopolítica e comercial entre as grandes potências e a desaceleração estrutural da China como fator externo de impacto global.

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Ventos contrários

O ataque militar dos EUA à Venezuela e a captura de Nicolás Maduro abrem o primeiro risco para os mercados de energia. Vários bancos de investimento começaram a monitorar essa possibilidade desde dezembro, dada a intensificação da presença militar dos EUA no Caribe.

A transição política pode gerar uma interrupção inicial na produção de petróleo da Venezuela, com quedas temporárias de até 50%, de acordo com estimativas do JPMorgan.

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Entretanto, uma rápida recuperação também está prevista se a estabilidade for alcançada e os principais investimentos retornarem. O país tem as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo e sua reconfiguração política pode alterar o equilíbrio do mercado global de petróleo até 2026.

Em um contexto de excesso de oferta global, o conflito na Venezuela introduz um novo fator de volatilidade.

No curto prazo, a produção local pode cair devido a interrupções operacionais, deslocamento de trabalhadores ou paralisações preventivas em instalações importantes.

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No entanto, bancos como o JPMorgan e o Bank of America concordam que, com uma transição política ordenada, a produção poderia se recuperar rapidamente, impulsionada pelo retorno de parceiros internacionais, o que poderia pressionar um mercado já com excesso de oferta.

Em linha com o aumento da incerteza, o segundo risco está ligado à pressão sobre as moedas e a dívida nos mercados emergentes, com ênfase na América Latina.

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Para as economias emergentes, 2026 está se configurando como um ano de oportunidades seletivas, mas também de riscos assimétricos. Ashmore alertou que os mercados emergentes enfrentarão “ventos contrários em 2026 devido a uma combinação de pressões inflacionárias persistentes, crescimento global desigual e tensões geopolíticas prolongadas”. A América Latina é, em sua análise, uma das regiões mais expostas.

O relatório observa que “as moedas latino-americanas podem voltar a sofrer pressão se os fluxos de portfólio se reverterem” e que “uma reversão nos fluxos de capital pode ampliar as vulnerabilidades fiscais e cambiais acumuladas na última década”.

Isso é agravado pela fragilidade estrutural de muitos países em face de choques externos, dependência de commodities e limites fiscais que impedem uma resposta anticíclica eficaz.

Riscos fiscais e temporada de eleições

O terceiro risco é que os bancos centrais enfrentem uma inflação mais persistente do que os mercados estão descontando. Embora haja consenso de que a desinflação tenha avançado, várias instituições enfatizam que fatores estruturais, como a transição energética, a realocação das cadeias de valor e o envelhecimento da população, continuarão a pressionar os preços.

A BlackRock alertou que “os mercados ainda não internalizaram totalmente o fato de que estamos em um regime de inflação estrutural mais alta”.

Essa opinião é compartilhada pela Fidelity International e pela Macquarie, que concordam que o antigo paradigma das taxas reais negativas ficou para trás.

A Invesco, por sua vez, destacou o risco de um “pico de inflação sem crescimento”, especialmente se ocorrerem choques no fornecimento, como um embargo de terras raras ou uma interrupção no fornecimento de energia.

A política fiscal surge como um quarto risco. A Capital Economics, o Goldman Sachs e o BNP Paribas alertaram que os altos níveis de dívida pública e os déficits persistentes poderiam ampliar os efeitos de qualquer choque econômico.

Para a State Street, os riscos fiscais estão intimamente ligados ao desempenho dos títulos soberanos. “A dívida soberana continua atraente, mas os investidores devem ser seletivos quanto à duração e estar atentos aos riscos de inflação”, disse Desmond Lawrence, estrategista sênior de investimentos.

A esse cenário soma-se um quinto risco: as incertezas políticas. Mais de 40 países realizarão eleições, acrescentando uma camada de volatilidade às decisões econômicas. Nos Estados Unidos, a pressão política sobre o Federal Reserve, especialmente em face das tentativas de remover os membros do FOMC, também é uma ameaça direta à independência do banco central, conforme destacado pela Invesco e pela Capital Economics.

Tecnologia, crédito e concentração

A concentração excessiva em ações de tecnologia representa o sexto maior risco.

A inteligência artificial continua sendo um dos principais impulsionadores do investimento empresarial. O JPMorgan estimou que os gastos com data centers agora representam entre 1,2% e 1,3% do PIB dos EUA.

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O Morgan Stanley, o Goldman Sachs e o Fidelity reconhecem que a IA tem sido fundamental para sustentar os retornos recentes do mercado de ações. Entretanto, o entusiasmo está começando a mostrar sinais de supervalorização.

O Goldman Sachs alertou que “uma decepção trimestral nas ações de tecnologia, ou o surgimento de mais concorrência, poderia desencadear um recuo nas principais ações de tecnologia”. O caso DeepSeek e seu impacto sobre a Nvidia no ano passado mostraram como uma única divulgação pode desencadear quedas de dois dígitos em empresas altamente concentradas nos índices. Ashmore, State Street, Allianz e HSBC também alertaram sobre a crescente dependência da narrativa tecnológica para justificar as altas avaliações.

O sétimo risco aparece no mercado de crédito privado. Vários relatórios detectam um aumento nos possíveis desafios, principalmente nos segmentos privados.

A Capital Economics acredita que “se houver um problema, é mais provável que ele surja das partes obscuras do sistema, particularmente do crédito privado e das estruturas relacionadas que cresceram rapidamente em tamanho e importância“. A Natixis também alertou que 46% das instituições pesquisadas esperam um aumento na inadimplência das empresas em 2026.

O oitavo risco é uma possível reversão abrupta nos mercados de renda fixa. Os títulos públicos também não estão isentos.

A possibilidade de uma reversão abrupta nas taxas reais, desencadeada por dúvidas sobre a disciplina fiscal ou por aumentos inflacionários, pode levar a quedas nos preços dos ativos de refúgio. Nesse contexto, o Macquarie e a State Street enfatizam a necessidade de gerenciar cuidadosamente a duração e fazer hedge dos riscos cambiais, o que poderia eliminar todos os retornos dos ativos internacionais.

Desaceleração da China

O nono risco é a interrupção da transição energética.

O HSBC, o BNP Paribas e a Allianz concordaram que isso representa tanto uma oportunidade quanto um risco financeiro.

Os gastos com infraestrutura de energia, necessários para atender à demanda por data centers, podem levar a deslocamentos nas tarifas, na dívida pública e nas contas externas, especialmente em países com sistemas de eletricidade frágeis.

O décimo risco está associado à desaceleração estrutural da China, que afeta diretamente a América Latina como um importante parceiro comercial.

O Macquarie observou que “o impacto negativo das tarifas começa a ser sentido entre 9 e 18 meses após sua implementação”, o que poderia coincidir com o primeiro semestre de 2026. O BNP Paribas e o Fidelity acrescentaram que a realocação das cadeias de suprimentos poderia excluir algumas economias emergentes do novo ciclo de investimentos.

A região, entretanto, não está fora do radar. Morgan Stanley, Invesco e Goldman Sachs observaram que as avaliações na América Latina são atraentes em termos relativos e que a diversificação geográfica poderia favorecer os investidores com exposição seletiva.