Temores de crédito e alta do petróleo abalam emissões de títulos corporativos no Brasil

Investidores passaram a exigir retornos mais elevados, o que força empresas a reduzir o volume ou adiar suas ofertas após mudança de humor do mercado quando Raízen e GPA iniciaram recuperações extrajudiciais de dívidas consideradas insustentáveis

Mudança de humor do mercado veio após Raízen e GPA iniciarem recuperações extrajudiciais (Foto: Victor Moriyama/Bloomberg)
Por Cristiane Lucchesi - Vinícius Andrade - Giovanna Bellotti Azevedo
18 de Março, 2026 | 11:40 AM

Bloomberg — A turbulência no mercado de dívida corporativa brasileiro atingiu em cheio uma nova onda de emissões de títulos, levando investidores a exigir retornos mais elevados e forçando algumas empresas a reduzir o volume ou adiar suas ofertas.

Os movimentos refletem a crescente preocupação dos investidores com a disparada dos preços do petróleo, as tensões geopolíticas e a maior pressão sobre empresas altamente endividadas, em meio a juros em 15% — o nível mais alto em duas décadas.

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A mudança de humor do mercado veio após Raízen e GPA iniciarem recuperações extrajudiciais de dívidas consideradas insustentáveis.

O cenário se agravou com a forte alta do petróleo, que ameaça desacelerar a economia enquanto pressiona a inflação — combinação que pode limitar cortes de juros.

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O efeito foi uma demanda mais fraca por emissões de títulos em moeda local de empresas como a Nova Transportadora do Sudeste, unidades da CPFL Energia e a MRS Logística, segundo pessoas a par das negociações ouvidas pela Bloomberg News. A Aegea reduziu o tamanho de sua emissão recente, enquanto a Rumo Malha Central decidiu adiar a oferta.

A MRS não quis comentar. A NTS e a CPFL não responderam aos pedidos de comentário.

A captação por meio de títulos de dívida no mercado local viveu um forte boom no ano passado, com emissões que somaram quase R$ 545 bilhões, segundo dados da Anbima. Com os juros elevados garantindo retornos de dois dígitos, os investidores absorveram rapidamente as novas ofertas, comprimindo os prêmios de risco.

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“O mercado já estava meio empapuçado” e agora enfrenta novos desafios, disse Samy Podlubny, chefe de mercado de capitais de dívida no UBS BB Investment Bank. “As novas emissões estão mais difíceis de vender.”

As dificuldades recentes de algumas empresas conhecidas elevaram as preocupações de que outras também possam enfrentar pressão semelhante.

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A Raízen, cujos títulos despencaram após o rebaixamento para grau especulativo, iniciou neste mês uma recuperação extrajudicial de uma dívida de R$ 65 bilhões.

A GPA tomou a mesma medida após alertar sobre sua capacidade de continuar operando.

Outras empresas, incluindo a Braskem e a Oncoclínicas, também foram recentemente atingidas por rebaixamentos de rating nos últimos meses.

Parte da pressão sobre as novas emissões também decorre da forte valorização anterior do mercado. Isso fez com que bancos ainda tentem precificar novas ofertas com prêmios de risco estreitos, o que tem levado alguns gestores a recuar.

A dinâmica do mercado local está “muito esquisita,” disse Alexandre Muller, gestor da JGP Gestao de Crédito. Segundo ele, todos estão hesitantes em entrar nas novas ofertas e têm preferido atuar no mercado secundário.

Um mercado machucado acaba afugentando dinheiro novo, e isso tira o apetite dos fundos por novas operações, disse Conrado Rocha da Polo Capital, que não tem exposição a empresas em dificuldade como Raízen, GPA, Braskem e Ambipar.

Raízen e GPA são marcas bem conhecidas, o que acaba gerando preocupação dos investidores com crédito, disse Ulisses Nehmi, CEO da Sparta Fundos de Investimento.

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No caso da Raízen, os investidores terão perdas em uma alocação em que não esperavam prejuízo, dado que o rating era AAA até pouco tempo atrás. Se começarem os resgates em fundos, isso acaba pressionando os preços, ele disse.

Os desdobramentos podem pesar sobre o sentimento do mercado nos próximos meses. “Vai levar um certo tempo para o mercado se ajustar,” disse Podlubny, do UBS BB.

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