‘Sem margem para erro’: investidores recorrem a hedge com rali entre emergentes

Mercado precifica cenário mais benigno apesar da guerra, enquanto gestores veem pouca margem para erro e reforçam estratégia de proteção

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Bloomberg — Estrategistas e investidores têm recorrido a operações de hedge e de valor relativo à medida que a alta dos títulos de mercados emergentes parece cada vez mais desconectada do impacto iminente do conflito em curso no Oriente Médio.

O JPMorgan Chase tem orientado clientes a buscar proteção contra perdas potenciais em ativos de risco por meio de um índice de swaps de crédito (credit-default swaps), enquanto a Fidelity International e o fundo de hedge Frontier Road Limited, com sede em Londres, têm reduzido ou limitado sua exposição à dívida de países em desenvolvimento.

Na PPM America, gestores adotam uma abordagem mais seletiva, focando países que podem ter bom desempenho independentemente de como evoluir a guerra no Irã.

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Os ajustes refletem um crescente desconforto entre investidores, muitos dos quais questionam se a valorização da dívida de países em desenvolvimento — que registrou alta em 12 dos últimos 13 meses — foi longe demais.

Os spreads dos títulos de mercados emergentes recuaram para níveis próximos dos mais baixos desde 2013, ampliando os ganhos mesmo com o prolongamento do conflito no Irã e seus efeitos negativos sobre a economia global.

“Os preços sugerem que tudo ficará bem, e isso pode até acontecer. Mas, se não acontecer, então o mercado provavelmente está errado de forma bastante relevante”, disse Matthew Graves, gestor de portfólio na PPM. “Não há praticamente margem para erro nos preços.”

Enquanto isso, as autoridades têm se manifestado de forma mais incisiva sobre os riscos associados ao conflito.

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Na semana passada, a decisão dividida do Federal Reserve de manter os juros inalterados evidenciou uma crescente divergência sobre as perspectivas em meio às tensões em curso.

As autoridades no Chile e na Tailândia, que também mantiveram as taxas estáveis, alertaram para os impactos da guerra, enquanto o Paquistão promoveu uma alta maior do que o esperado diante de interrupções no fornecimento de energia.

A divergência aparece em diferentes classes de ativos. As ações, tanto em mercados emergentes quanto desenvolvidos, atingiram novas máximas mesmo com a continuidade do conflito, reforçando a percepção de que investidores podem estar subestimando os riscos.

“Os spreads de crédito seguem firmes — mas não confunda resiliência com segurança”, escreveu Ben Ramsey, chefe de estratégia de dívida soberana de mercados emergentes do JPMorgan, em nota de 28 de abril.

“Acreditamos que é prudente se proteger contra a possibilidade de uma alta abrupta dos spreads.”

Durante as primeiras semanas do cessar-fogo, gestores como a Aberdeen elevaram os níveis de caixa para criar uma proteção diante da possibilidade de colapso nas negociações, segundo o analista de mercados emergentes Leo Morawiecki.

Agora, mesmo com os esforços para retomar as negociações de paz travados, sua equipe começou gradualmente a voltar a alocar esse caixa.

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Preços elevados e persistentes do petróleo podem abrir oportunidades para alguns países em desenvolvimento expostos ao setor de energia.

Gestores como Martin Bercetche, da Frontier Road, mantêm posições em créditos como os de empresas da Venezuela e da Ucrânia, por apresentarem correlação relativamente baixa com o mercado mais amplo.

A festa da resiliência

Se os fluxos para fundos de dívida de mercados emergentes aumentarem nas próximas semanas pode ser determinante para sustentar a valorização.

Investidores também vão monitorar o risco de recessão global ou nos Estados Unidos caso o conflito se prolongue.

O Irã apresentou uma nova proposta de paz aos EUA na sexta-feira, enquanto o presidente Donald Trump prometeu manter um bloqueio naval.

“A classe de ativos tem recebido fluxos, o que pode continuar dando suporte no curto prazo, mas, em uma perspectiva de médio a longo prazo, vemos pouco valor em posições compradas direcionais”, disse Bercetche, cujo fundo teve retorno de 32% no ano passado.

O spread médio de swaps de crédito soberanos de mercados emergentes recuou em cinco das últimas seis semanas, atingindo 159 pontos-base e reduzindo a alta registrada durante o período de guerra para 24 pontos-base.

Parte da resiliência do mercado reflete fundamentos mais sólidos em muitas economias em desenvolvimento, que passaram anos reconstruindo seus colchões de proteção. Reservas internacionais mais elevadas e fontes de financiamento mais diversificadas ajudam a sustentar o sentimento, mesmo com spreads apertados, segundo Carmen Altenkirch, analista da Aviva Investors.

Apesar das avaliações elevadas, especialistas em mercados emergentes afirmam que a melhora nos fundamentos deve evitar uma reação de pânico ou uma visão excessivamente negativa sobre a classe de ativos.

Na avaliação de David Austerweil, a chamada “festa da resiliência” reflete o cansaço dos investidores após meses de notícias voláteis, com apostas pessimistas sendo repetidamente pressionadas por recuperações rápidas.

Créditos do Golfo estão “apertados demais” diante da pressão de oferta causada pelo aumento dos custos fiscais, e países importadores de petróleo também devem enfrentar pressão, acrescentou Austerweil, gestor adjunto de portfólio de mercados emergentes na Van Eck Associates.

“Há uma mistura de complacência, exaustão e FOMO”, disse.

--Com a ajuda de Ezra Fieser.

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